quarta-feira, agosto 9

Duas mulheres em Novembro

Vasco Graça Moura
Duas Mulheres em Novembro

Editado pela revista Visão


É o primeiro livro que leio de Vasco Graça Moura. Passa-se em Novembro de 1975, num pós revolução atribulado, mas apenas serve de moldura, as personagens parecem deslocadas para o dia de hoje, ou então a futilidade é intemporal. Duas mulheres num consultório médico, vazio, com hora marcada para abortarem. Conversam sobre as suas vidas, mas nenhuma mostra angústia ou qualquer tipo de sentir pelo acto que decidiram fazer. É com ligeireza que o autor coloca duas mulheres prestes a abortar e apenas vomitam futilidades. É pena espalhar palavras e talento de escrita e passar ao lado de tão sensível problema. Seria interessante assistir à abordagem do drama visto/vivido por duas mulheres com destino de vidas diferentes. Sentir o que se passa na culpa ou na não culpa que cada uma sente ou não sente, Perceber ou não perceber se há ou não há julgamento possível para uma decisão do foro intimo de cada um…Todo o texto/conto passa ao largo desta catástrofe do (des)sentir. Sendo o autor que é, com intervenção cívica e politica, sabe a pouco este romance de verão, escrito com futilidades, para a futilidade de umas férias calmas à beira-mar.
O médico nunca aparece. Foi preso. Não por fazer abortos clandestinos num país em revolução a confundir liberdades. Foi preso porque era rico!

…” Vai perguntar-me, em tom mordaz e com aquele risinho dela, se eu prefiro o piano lacado branco de um novo rico insuportável como Sidónio, só porque a sala dele dá para a piscina e ele serve champanhe às amigas que leva para lá, à meia noite ou ao meio dia, quando elas estão nuas dentro de água. Ela sabe muito bem que detesto o Sidónio. Caí na esparrela uma vez e chegou. Mostrei-lhe as minhas habilidades e quando ataquei a tocata de Carlos Seixas perguntou-me do alto do charuto se não sabia tocar Strangers in the Night…Que humilhação!”

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