segunda-feira, agosto 21

Kafka á beira mar

Haruki Murakami
Kafka à beira-mar
Casa das Letras


O Japão é o país do Dô ( Caminho ), e um romance escrito por um Japonês não pode fugir à regra que se dissolve na alma. Relata o caminho, procura, de um Rapaz ( Nakata) que por acidente misterioso ( fim da segunda Guerra Mundial) perde parte da alma, perda tão profunda que até a sua sombra é de um cinzento diluído. Aqui, neste universo que nos envolve quem sonha é responsável pelo próprio sonho, tão responsável como os actos reais, (fisicos !). O sonho e a realidade misturam-se com a mesma responsabilidade. de se viverem (ambos) com a intensidade da Vida (ou morte).
Nakata que após o acidente em menino, (aberta a pedra da entrada no destempo) apreende a capacidade de falar com os gatos, chega a velho na constante busca da alma, que parece habitar em Kafka Tamura, rapaz de 15 anos que foge de casa, aparentemente para não matar o Pai ( que em dimensão outra encarna um assassino de gatos), Pai esse que acaba esfaqueado por Nakata, mas quem aparece ensopado de sangue é Kafka. História escrita com imaginação suficiente para nos prender no enredo até ao fim.
Kafka à beira mar, a história de um quadro que mistura o passado e o presente, num tempo que se descoordenou na suspensão da morte.
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por outras palavras, cada pessoa continha em si os componentes das duas partes. Toda a gente vivia satisfeita com este estado de coisas e nem sequer pensavam muito nisso. Foi então que os deuses pegaram numa faca e cortaram cada um em dois. E assim, depois disso, o mundo ficou dividido em machos e fêmeas, e as pessoas passaram o resto da vida à procura da sua própria metade.”
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“ Independentemente de quem ou daquilo que tens pela frente, o certo é que as pessoas estabelecem pontos de contacto entre elas próprias e as coisas à sua volta. O importante é que isso aconteça de uma maneira natural. Ser burro ou ser brilhante não vem ao caso. O que importa é que saibas ver o mundo pelos teus próprios olhos.”

…”
Sabes onde o conceito de labirinto apareceu pela primeira vez?
Respondo que não com a cabeça.
Foi na antiga Mesopotâmia. Extraíam as entranhas dos animais, e de seres humanos também, possivelmente, e baseavam-se na forma que tinham para prever o futuro. Apreciavam a forma complexa dos intestinos. Daí que se pode dizer que o protótipo dos labirintos reside, numa palavra, nos intestinos. O que significa que o princípio que presidiu à invenção do labirinto reside dentro de ti. E isso está de alguma forma relacionado com a noção de labirinto fora de ti.”

Curioso para mim, neste livro que me transportou no destempo ( noção vivida e revivida por mim quase em permanência) foi eu ter escrito, depois de uma caminhada de mais de 20 km no meio da serra onde o silêncio me impregnou a pele e os sentidos, isto “ o silêncio abraçou-me com tanta intensidade que por instantes ouvi a terra a girar, com a suavidade de uma brisa…” e uma semana depois na página 521 leio “
O silêncio tornou-se mais profundo, tão profundo que, se apurasse o ouvido, podia muito bem acontecer que desse para ouvir o som da Terra a rodar no seu eixo”

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