terça-feira, agosto 29

O outro pé da sereia

O outro pé da sereia
Mia Couto
Caminho

Normalmente, ao sabor da leitura, num habito que me vem da genética e dos olhos, marco com lápis, de ponta redonda, as passagens que me tocam num livro. Com Mia Couto e Saramago ( como estou a ser injusto com tantos outros) é difícil tal tarefa. Cada frase é um poema, um exaltar de um prazer profundo, que enlouquece o lápis num frenesim desvairado.
Livros há que devoro de uma assentada, outros em que me arrasto em cada página, com o tédio de me ter enganado no livro, mas outros, sinto pena ( numa quase angustia) de virar a página, tal é o prazer que me provocam. Este é um deles. Estória de almas e de pessoas, que se intersectam no destempo. Não são fantasmas que deambulam, são gente que toma outras formas e outros existires, tão difíceis de entender e de assimilar pela nossa cultura industrializada de sentires. Estórias cruzadas no tempo, que nos levam à poesia de um povo que resiste e não morre, mesmo perdendo a alma e o sentido. Mia Couto é um contador de estórias, em forma de poema, difícil de igualar. Cada livro é um monumento à sensibilidade, e á forma como cinzela as tradições de um povo que se procura e se vive numa África que insiste em ser,,, Africa.
Personagens, impares que Mia espalha nas suas páginas e que nos ficam na alma a pairar como se de facto existisse um feitiço em cada palavra, em cada frase que nos invade os sentidos.
Abri ao acaso o livro para escolher dois pequenos excertos. Ao puro acaso, por que não há escolha possível.

“ Mwadia sentiu o conflito a mordiscar-lhe o peito: ela queria, mas temia. O regresso a Vila Longe era sonho e pesadelo. Desejo de reencontrar os seus, de regressar à velha casa de infância. Receio de que os “seus” já não lhe pertencessem, e que a velha casa estivesse morta.
Recordava-se das últimas palavras de sua mãe, na distante tarde da despedida:
- Vai de vez?
- Eu hei-de voltar.
Mwadia era a ultima filha a sair do lar. Todas as filhas tinham tomado a estrada e se desvaneceram na neblina. Nunca mais voltaram. A mãe remoía tristezas, respirando as palavras:
- Pois então, minha filha, você vai embora...
Demorava os adeuses, queria que a despedida se arrastasse a vida inteira.
- Você nasceu-me muito tarde, Muadita. Estou cansada, eu já não tenho forças para mais um rasgão dentro de mim.
...
A viagem não começa quando se percorrem distâncias, mas quando se atravessam as nossas fronteiras interiores. A viagem acontece quando acordamos fora do corpo, longe do lugar onde podemos ter uma casa. “

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