domingo, agosto 6

A poeira que cai sobre a terra

Francisco José Viegas
A poeira que cai sobre a Terra
Contos inéditos Visão


Novamente o detective Jaime Ramos, personagem fetiche do autor, entra em acção, No caso, aparece-nos um detective molengão arrastado na meia idade, a caminhar para o desleixo da desilusão da vida. Aparentemente não há crime, há coincidências num verão quente, demasiado quente, que devora as matas, os pinheiros e os corpos.
Retiro três apontamentos:
“ A depressão não me comove, doutor, não é assunto meu,
O que é assunto seu?
A morte. Sou especialista em assuntos funerários. Entregam-me casos de vida ou de morte, já resolvidos para o lado da morte, evidentemente. Enquanto o senhor a ouvia a falar da vida, eu tenho a morte para resolver…
………….
As pessoas vão ao psicanalista porque precisam, murmurou Jaime Ramos.
Ele riu, do outro lado do tapete:
Vão ao psicanalista porque é mais caro, inspector.”
……………
(Extractos de um dialogo entre o Psicanalista de uma das vitima e o detective Jaime Ramos)

“As redacções dos jornais ainda estavam vazias. Se caísse uma bomba sobre a Torre dos Clérigos, não haveria ninguém para receber a boa notícia. E ele imaginava Siza Vieira feliz, vendo tudo arrasado, disponível para ser atapetado a granito negro.”

Ironia infeliz do autor, provavelmente não conhece a casa de chá em Matosinhos, nem a obsessão do arquitecto para as superfícies brancas e os seus jogos de sombras. Pessoalmente não gosto de muitas das obras de arte do Arquitecto, mas são sem duvida obras de arte . Nem todos os poemas de Pessoa são conseguidos, mas isso não invalida a genialidade do poeta. Siza não merece esta ironia, mesmo em livro de ficção.

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