domingo, setembro 3

Nem tudo começa com um beijo

Nem tudo começa com um beijo
Jorge Araújo, Pedro de Sousa Pereira
Oficina do Livro
1ª edição Abril 2005


Histórias de adolescência abandonada, homens-criança, que vivem num sub mundo, onde, mesmo numa selvática luta de sobrevivência permanecem os afectos e a camaradagem. Poeticamente desenhada por Pedro Sousa Pereira, sentimo-nos transportados para um sub mundo de "príncipezinhos".
Neste universo, se nem tudo começa num beijo, sem ele, tudo perde o sentido. No fim, fui compelido a comprar os dois outros livros já publicados, Comandante Hussi e Paralelo 75.
Foi difícil, escolher um trecho deste livro de sentires. Optei pelo momento crucial da história,,, o encontro de fio Maravilha com Nuvem Maria…

“ Fio Maravilha abandonou o bar com passos maiores que as pernas, parecia um cavalo sem sela, um barco sem vela, chegou muito a custo ao jardim que ficava mesmo em frente, ó teve tempo para descansar a cabeça contra o tronco de uma árvore. E começou a vomitar, primeiro o jantar da véspera, depois restos do almoço do dia, quando já não tinha mais nada para oferecer, sentiu escapar por entre os lábios um líquido viscoso, malcheiroso, sem qualquer substância. Sentiu-se um pouco melhor, começou a gatinhar para fora do jardim, parecia que arrastava um contentor, porque a cabeça pesava mais do que o corpo. Foi então que avistou o que ao princípio lhe pareceu um clarão, mas que não era mais que uma cabeleira loira. Ficou arrepiado. Suores frios escorreram demoradamente pela espinha, ficou zonzo, no estado em que estava não dava para saber se era por causa da bebida ou da visão. Ainda pensou dar meia volta para ver a quem pertenciam aqueles cabelos, mas não tinha nem força nem moral para se aventurar na viagem.De regresso à cave, foi directamente para o seu buraco, ainda se cruzou com alguns meninos, mas a todos apenas disse:- Amanhã falamos.”

Arrisco ainda colocar outro pequeno texto, que ficou cruelmente gravado na minha memória de sentires:

“ Fio Maravilha teve dificuldades em passar pelo buraco da sarjeta, a cabeça e o tronco ainda vai que não vai, o mesmo não se pode dizer da cintura, em desespero de causa teve mesmo que retirar o cinto de cabedal, fazer um exercício de contorcionista, só assim conseguiu ultrapassar o tampo da entrada do esgoto e deslizar até ao sótão. O episódio deixou-o preocupado, tinha consciência de que, no dia em que ficasse gordo ou alto demais, teria de procurar uma nova casa, uma nova família.- não é possível, não posso ter engordado – desabafou como que a querer encontrar uma explicação para o imprevisto.”

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