quarta-feira, setembro 6

Neve de Primavera

Neves da Primavera
O mar da Fertilidade – Volume 1
Mishima, Yukio
Editorial Presença
Colecção Novos Continentes
1º Edição 1986

Com a subtileza que só o oriente possui, Mishima conta a história de dois amigos, Quioaqui e Honda. Através deles, conta a história do Japão na era Miji (1867-1912). Inicia o romance na adolescência de ambos, descrevendo o declínio de um Japão aculturado, atropelado pelos tiques e pelas imposições do ocidente. Relata o fascínio que o ocidente e a sua febre consumista e superficial, de profundas aparências, começa a exercer na sociedade nipónica. Mostra um País (onde tudo tem um ritual de adoração e de espanto pela vida, onde o sorriso se controla para que cada um seja inesquecível e único,) que troca o sonho, (de uma juventude que parece ter perdido o rumo, quando desagregada da sua própria cultura), por artefactos e chás de Sua Magestade, (Vitoriana), Imperadora de outras terras. Neste primeiro volume da tetralogia do “O mar da fertilidade”, Mishima deixa escapar na sua escrita a hipersensibilidade que esconde e que questiona através de Quioaqui. “Neve de primavera”, para além de um tratado do sentir, é sobretudo um desenho da história do Japão, onde as tradições samurais se esfumam numa futilidade que ele Mishima se recusa a aceitar. É também uma história de amor e de amizade, onde curiosamente o sentir é sistematicamente escondido e reprimido, num jogo de consequências trágicas, da qual só os protagonistas são responsáveis.
(...) Tudo o que é sagrado tem em si a substância dos sonhos e das recordações, e assim vivemos o milagre de termos de repente à mão aquilo que está separado de nós pelo tempo e pela distância. Sonhos, recordações, o sagrado…é tudo semelhante pelo facto de estar fora do nosso alcance. Uma vez separados, mesmo que pouco, do que podemos tocar, o objecto fica santificado; adquire a beleza do inatingível e as características do prodígio. Realmente tudo tem os atributos do sagrado, mas basta toca-lo para o profanarmos. Como o homem é estranho! Contem em si a fonte dos milagres, e no entanto o seu toque conspurca.(...)
(...) Quanto a mim, sempre quis saber qual o segredo que permite ao amor quebrar, como por magia, os laços do tempo e do espaço. Estarmos perante a pessoa que amamos não é o mesmo que amarmos o seu verdadeiro eu, pois privilegiamos a beleza física como factor indispensável da existência. Quando o tempo e o espaço intervêm, é possível que ambos nos desiludam, mas por outro lado, é igualmente provável que nos aproximemos duas vezes mais do verdadeiro eu da pessoa amada. (...)
Segue-se “Os cavalos em Fuga”

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