domingo, setembro 3

Os Cavaleiros de S. João Baptista

Os Cavaleiros de S. João Baptista
Domingos Amaral
Editorial Noticias


Com trama policial, tal como o Fanático do Sushi ( editorial noticias ), Domingos Amaral leva-nos a passear num snobismo que serpenteia na linha de cascais que esquece ter no seu seio uma teia de pobreza e guetos labirínticos nas suas caóticas periferias. Deambula numa sociedade que esqueceu valores e sentires, colocando num punhado de homens e mulheres um legado dos Templários e um tesouro / relíquia de S. João Baptista, um pouco ao jeito de nova seita/ religião que foi silenciada e aniquilada pelas intrigas dos homens que construíram a igreja, pensando que eram a própria voz de Deus ( como surgem agora, histórias sobre o evangelho de Judas – Temas e Debates / National Geographic, que baralha as cartas da história pondo-nos todos à prova se estamos ou não preparados para a rescrever ). Pega no tema templários e desenha uma história que peca por não aprofundar mais a história do s cavaleiros de Cristo, colocando-os nas mãos de um empreiteiro com paranóias estranhas. Mas a história prende. Os perfis e os estereótipos das personagens são credíveis e parece que os vemos por aí ao virar da esquina no nosso enfadonho quotidiano relatado em revistas de vaidades vazias que proliferam nas bancas e quiosques, meio enferrujados e decadentes das nossas cidades.

Deixo no entanto um reparo. O capítulo 12 começa com o inspector a ouvir uma gravação de uma conversa telefónica, pedida à PT. Ora os participantes na altura da conversa não eram suspeitos, pois ainda não se sabia do crime. Por muito baralhados que andem, a nossa polícia, e os nossos serviços de telecomunicações, é disparatado presumir, que todas as nossas conversas telefónicas sejam gravadas… (equívocos de um jornalismo sensacionalista que nos vai toldando o imaginário, mas que fica mal num romance que procura ser credível).

“ Houve sorrisos à mesa. O pintor Afonso, aliviando o seu amuo, perguntou:
- Mas conhece este tubarão?
Para desagrado de João Pedro, a conversa regressava à figura do Dr. Marcos Portugal. O professor Bernardino olhou na direcção do famoso advogado e disse:
- Só dos jornais e das revistas.
Divertida, Inês colocou João Pedro no centro das atenções:
- O único que o conhece bem é João Pedro.
A mesa esperou um esclarecimento. Mas João Pedro fez-se desentendido.
- O João Pedro é advogado no escritório do doutor Marcos Portugal, trabalha para ele…- insistiu Inês.
Em redor, olhares de desaprovação. Pela amostra, o Dr. Marcos Portugal não ganharia concursos de popularidade. Tinha fama de trauliteiro e ambicioso, capaz de vender a própria mãe. Mas nessa apreciação social existia muita ambiguidade e má consciência, pois o Dr. Marcos Portugal era um especialista em off-shores, uma espécie de guru nacional da fuga ao fisco. Muitos dos que em público o criticavam, usavam depois os seus serviços em privado, para melhor acautelarem as suas fortunas da gula das Finanças.
- Anda então a treinar-se para tubarão? – Provocou o professor Bernardino.

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