terça-feira, outubro 3

Cavalos em fuga

Cavalos em Fuga
Yukio Mishima
Edirtorial Presença
Coleção Novos Continentes, n.º 19
1ª Edição 1987


Em Cavalos em Fuga, Mishima não esconde a sua fixação na honra dos antigos samurais, símbolo da entrega e da devoção ao Imperador . O uso do Iai ( sabre Japonês) reflecte assim a Via ( DO) dessa entrega. Quioaqui reaparece na figura de um jovem patriota “Issau” que prepara o renascer do Japão através de um acto heróico inspirado na Liga do Vento Divino, que após o acto de pura entrega ao Imperador, pretende praticar o Sepuku ( morte ritual , abrindo o ventre com sabre ou punhal).
Vive-se , (sente-se) toda a atmosfera “do Ultimo samurai” e da história de Kasumoto .
Conhecendo-se o fim de Mishima ( praticou o Sepuku, depois de um discurso patriótico), é com admiração que se lê todo este envolvimento do autor na personagem de Issau. Este segundo acto da tetralogia “O mar da felicidade”, é um texto mais pesado, mais reflectido, na procura da pureza do espírito que o primeiro. Só nos últimos capítulos há ritmo, até lá parece que as personagens vão lentamente tomando forma e destino, sempre com um interlocutor presente, Honda, amigo intimo de Quioaqui, e que o reconhece em Issau. Também aqui, há uma história de amor e de sacrifício, mas desta vez o patamar do sacrifício eleva-se ao serviço do Imperador, em detrimento da entrega ao amor passional sentido por Issau. Mishima, numa curta frase , numa conversa entre Issau e o Pai ( tutor de Quioaqui) expressa o desejo de ser mulher ( tal como reencarnará do terceiro volume - O Templo da Aurora).
Retirei este curto texto de uma carta escrita por Honda a Issau,
(...)
“Não sou adepto das novidades do cristianismo, nem critico o zelo pelo passado ou a pouca largueza de ideias dos homens da Liga. No entanto, se queremos aprender com a História, não devemos concentrar-nos apenas num único aspecto de uma época, mas sim fazer uma meticulosa investigação dos muitos factores complexos e mutuamente contraditórios que fizeram dessa época o que ela era. Temos de pegar nesse aspecto único e colocá-lo no contexto correcto. Devemos avaliar os vários elementos que lhe conferiram características especiais. Assim, temos de olhar para a História de uma perspectiva que nos ofereça uma visão ampla e equilibrada.
Isto, creio, é o que significa aprender-se com a História. Pois a opinião de qualquer homem sobre a sua época é limitada, e ele tem grande dificuldade em tentar formar uma imagem compreensiva do seu tempo. Portanto, precisamente por isto, a imagem compreensiva dada pela História fornece informação e constitui um modelo pelo qual podemos guiar-nos.
Um homem que vive confinado pelas limitações do dia-a-dia, consegue, graças à visão ampla proporcionada pela História que transcende o tempo, uma imagem compreensiva do seu mundo e assim corrigir o seu estreito ponto de vista das coisas.
É este o agradável privilégio que a História oferece aos homens.
Aprender com a História nunca devia significar concentrarmo-nos sobre um aspecto particular de uma determinada época e usá-lo como modelo para reformar um dado aspecto presente. Tirar do quebra-cabeças do passado uma peça uma determinada forma e tentar encaixá-la no presente não é coisa que possa dar bons resultados. Fazê-lo é tentar brincar com a História, como se fosse um passatempo próprio para crianças. Temos de perceber que, por mais que se assemelhem, o idealismo de ontem e o idealismo de hoje têm condições históricas diferentes. Se quisermos procurar uma determinação tão pura, devemos procurá-la numa «ideologia diametralmente oposta» dos nossos dias, que exista sob as mesmas condições históricas. Uma atitude modesta deste tipo adequa-seao «eu dos nossos dias», caracteristicamente limitado. Assim, podemos finalmente considerar esta pureza de ideal um problema histórico e fazer deste «motivo humano» que transcende a História o nosso objecto de estudo. Então, as condições históricas comuns à época tornam-se apenas factores constantes da equação. “
(...)
Segue-se o terveiro volume - O Templo da Aurora

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