quarta-feira, novembro 1

Passageiros em transito ( novos contos para viajar)

José Eduardo Agualusa
1º Edição – Setembro 2006
Publicações D. Quixote

Não é normal ficar preso a um livro na primeira página, Por uma capa, é menos raro, vezes há que me entram pelo olhar ( os livros e as capas) e ficam agarrados à mão e ao afecto, como uma criança que nos olha e nos provoca uma tempestade de sentires, Mas na primeira página, não recordo acontecer. Este, de Agualusa, li-o de uma só vez, numa ida “balancé-balancé”, pendulado em caminhos de aço e de ferro até Lisboa. Contos de viagem, para uma viagem. Quase todos de África, lugares de África, mesmo os que se escoam em cidades outras, há uma África inteira nas páginas de Agualusa. Pena que alguns dos contos estejam formatados para páginas de revista ou jornal e perdem-se no livro, por parecerem inconclusos, imaturos, esquiços de um desenho inacabado…
Ficou-me no olhar, um quadro por pintar, num deserto amarelo, onde o sol desenha rugas no ar, passa uma mulher morena, vestida de branco, numa bicicleta de azul, lazúli, ao fundo advinha-se, planta única de desertos ( welwitchia mirabilis) que cresce lá para os lados de Namibe.

O passado é como o mar: nunca sossega. As casas encolhem, como os velhos, ao passo que as árvores crescem sem parar. Quando regressamos, decorridos muitos anos, aos lugares da nossa infância encontramos árvores gigantescas e sufocando de terror à sombra delas as casas minúsculas que um dia foram nossas. Mal reconhecemos a cama de bonecas em que dormimos quando éramos crianças, ou o quintal, que sempre julgámos ser imenso, e que tem, afinal, apenas dois palmos de fundo.
O meu pai dizia-me:
- A vida é uma corrida, meu filho. Quem olha para trás enquanto corre arrisca-se a tropeçar.
Eu não olho para trás. Avanço por vezes de olhos fechados, e tropeço, como os outros, e eventualmente caio, mas não olho para trás. Nunca fui pessoa de cultivar saudades. Não colecciono álbuns de fotografias, e jamais guardei pétalas secas entre as páginas de velhos livros. Sigo sempre em frente. Quando me perguntam para onde vou encolho os ombros. Rio-me:
- Adiante”

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