quinta-feira, dezembro 21

Ao Contrário das Ondas

Urbano Tavares Rodrigues
Publicações Dom Quixote
1ª Edição Novembro 2006

Há uma actualidade gritante em cada novo romance de Urbano Tavares Rodrigues. A desfuncionalidade da família, como elemento orientador no crescimento dos filhos, o colapso de todo um sistema que aos poucos vai perdendo valores, sem se descortinar o sentido do futuro. Uma juventude que cresceu desacompanhada pós vinte cinco de Abril, é ruído de fundo deste romance, escrito e sentido por um homem que continua atento no olhar…
(...)
“« A vida corre ao meu lado como água muito lisa e que não molha. Vejo as outras, os outros a receberem as prendas do destino, boas e más, eu vou secando, quase sozinha, planta esquecida até pelo vento.»
As notícias que lhe dão do Manuel Joaquim são péssimas. Ultimamente decidiu ir para a casa do pai e parece que está a envenenar-lhe a existência. Faz dívidas enormes, tira-lhe notas da carteira, vai pedir dinheiro emprestado aos amigos dele. Tudo para a droga e para o álcool. Namoradas, ninguém lhas conhece. Está a tornar-se um marginal. Pior: um farrapo. Perdeu toda a vergonha.
Lembra-se de como ele era diferente, do que dele esperavam, por volta dos seus quinze anos. Quando começou a pintar. Até fazia poemas. Embora não fosse grande aluno na escola secundária, ia passando... Depois, foi o que se sabe: a mesada que o pai lhe dava, gastava-a em erva, em heroína, e deu em roubar coisas lá de casa, chegou a empenhar as jóias da mãe, desapareciam quadros, faianças, peças raras de mobiliário.
Agora é ainda pior, parece que surripiou o cartão dourado do pai e falsificou várias vezes a sua assinatura, fez compras milionárias, para vender tudo ao desbarato e gastar o produto em droga. Com Sabina não fala. Excepto uma vez em que se abriu e lhe contou tudo, os furtos, a ausência de interesses, o desgosto de viver, uma espécie de rancor pelo mundo. Andava magríssimo, quase não comia, deitava-se num sofá e adormecia, babava-se, fazia dó e causava asco.
Ajudara-o, levara-o a um médico. Iniciou então uma cura de desintoxicação, melhorou muito, fisicamente. Depois tornou ao mesmo. E estas cenas repetiram-se, provocando na mãe um grande cansaço e até desalento, até desinteresse, vontade de se ver livre dele.
«E agora - como somos contraditórios! - lamento que tenha trocado a minha casa pela do pai, fora da minha protecção . »”
(...)

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