sexta-feira, dezembro 22

O senhor Henri

Gonçalo M. Tavares
Editorial Caminho
1ª edição 2004

Talvez seja o pior dos inquilinos do Bairro de Gonçalo Tavares. Mergulhado constantemente no absinto, torna-se repetitivo e invulgarmente pouco criativo, chegando a tornar-se massudo e incomodativo, como qualquer ébrio que se prese. Pode passear-se por este bairro sem bater na porta do Senhor Henri, a menos que se queira sentir a volatilidade do absinto.
(...)
"
O senhor Henri estava sentado no banco de jardim a pensar se o seu corpo se levantaria para ir beber um copo de absinto.
O senhor Henri disse: a minha alma já se levantou.
O senhor Henri olhou depois para o corpo, tentando localizar o próprio rosto, mas não conseguiu.
... há partes do meu corpo que só posso ver com os meus olhos, e há outras que só posso ver com a memória.
... é como se a memória tivesse olhos, e mais antigos que os outros dois.
O senhor Henri depois calou-se.
E o senhor Henri, depois de um breve silêncio, disse: o certo é que a minha vontade já bebeu um copo de absinto, e eu não.

..." a minha vontade já se encontra, neste momento, mais bêbada que eu.
…vou, pois, apanhá-la - disse o senhor Henri.

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