sexta-feira, setembro 29

O Confessor

O Confessor
Daniel Silva
Bertrand editora
1ª edição de Agosto de 2005


História de intriga politica muito ao estilo de Morris West nos bastidores do terrorismo, retrata a frieza e crueldade dos vários lados da barricada. Mergulha nos negros meandros do Vaticano, onde um “Pedro” determinado e incomodado com a história da sua Igreja, acaba por ser protegido pelo agente “ Gabriel”, um restaurador de Arte, que tem artes militares ao serviço de Israel.
De leitura fácil, peca por estar demasiado colado ao tema e ao estilo de West, que tanto explorou o tema,,, a continua intriga instalada nas “Pedras” do Vaticano…
(...)
"O memorando de Martin Luther a Adolfo Eichmann pareceu causar ao Papa uma dor física. A meio da leitura, estendeu a mão e pegou na do padre Donati em busca de apoio. Quando Gabriel terminou, o Papa inclinou a cabeça e uniu as mãos debaixo da cruz peitoral.
Quando voltou a abrir os olhos, olhou directamente para Shamron, que segurava o relato da irmã Regina acerca da reunião no convento.
- Um documento notável, não acha, Sua Santidade? - Perguntou Shamron em alemão.
- Receio usar uma palavra diferente - respondeu o Papa, respondendo-lhe na mesma língua. - Vergonhoso é a primeira palavra que me ocorre."
(...)

quarta-feira, setembro 6

Neve de Primavera

Neves da Primavera
O mar da Fertilidade – Volume 1
Mishima, Yukio
Editorial Presença
Colecção Novos Continentes
1º Edição 1986

Com a subtileza que só o oriente possui, Mishima conta a história de dois amigos, Quioaqui e Honda. Através deles, conta a história do Japão na era Miji (1867-1912). Inicia o romance na adolescência de ambos, descrevendo o declínio de um Japão aculturado, atropelado pelos tiques e pelas imposições do ocidente. Relata o fascínio que o ocidente e a sua febre consumista e superficial, de profundas aparências, começa a exercer na sociedade nipónica. Mostra um País (onde tudo tem um ritual de adoração e de espanto pela vida, onde o sorriso se controla para que cada um seja inesquecível e único,) que troca o sonho, (de uma juventude que parece ter perdido o rumo, quando desagregada da sua própria cultura), por artefactos e chás de Sua Magestade, (Vitoriana), Imperadora de outras terras. Neste primeiro volume da tetralogia do “O mar da fertilidade”, Mishima deixa escapar na sua escrita a hipersensibilidade que esconde e que questiona através de Quioaqui. “Neve de primavera”, para além de um tratado do sentir, é sobretudo um desenho da história do Japão, onde as tradições samurais se esfumam numa futilidade que ele Mishima se recusa a aceitar. É também uma história de amor e de amizade, onde curiosamente o sentir é sistematicamente escondido e reprimido, num jogo de consequências trágicas, da qual só os protagonistas são responsáveis.
(...) Tudo o que é sagrado tem em si a substância dos sonhos e das recordações, e assim vivemos o milagre de termos de repente à mão aquilo que está separado de nós pelo tempo e pela distância. Sonhos, recordações, o sagrado…é tudo semelhante pelo facto de estar fora do nosso alcance. Uma vez separados, mesmo que pouco, do que podemos tocar, o objecto fica santificado; adquire a beleza do inatingível e as características do prodígio. Realmente tudo tem os atributos do sagrado, mas basta toca-lo para o profanarmos. Como o homem é estranho! Contem em si a fonte dos milagres, e no entanto o seu toque conspurca.(...)
(...) Quanto a mim, sempre quis saber qual o segredo que permite ao amor quebrar, como por magia, os laços do tempo e do espaço. Estarmos perante a pessoa que amamos não é o mesmo que amarmos o seu verdadeiro eu, pois privilegiamos a beleza física como factor indispensável da existência. Quando o tempo e o espaço intervêm, é possível que ambos nos desiludam, mas por outro lado, é igualmente provável que nos aproximemos duas vezes mais do verdadeiro eu da pessoa amada. (...)
Segue-se “Os cavalos em Fuga”

domingo, setembro 3

Os Cavaleiros de S. João Baptista

Os Cavaleiros de S. João Baptista
Domingos Amaral
Editorial Noticias


Com trama policial, tal como o Fanático do Sushi ( editorial noticias ), Domingos Amaral leva-nos a passear num snobismo que serpenteia na linha de cascais que esquece ter no seu seio uma teia de pobreza e guetos labirínticos nas suas caóticas periferias. Deambula numa sociedade que esqueceu valores e sentires, colocando num punhado de homens e mulheres um legado dos Templários e um tesouro / relíquia de S. João Baptista, um pouco ao jeito de nova seita/ religião que foi silenciada e aniquilada pelas intrigas dos homens que construíram a igreja, pensando que eram a própria voz de Deus ( como surgem agora, histórias sobre o evangelho de Judas – Temas e Debates / National Geographic, que baralha as cartas da história pondo-nos todos à prova se estamos ou não preparados para a rescrever ). Pega no tema templários e desenha uma história que peca por não aprofundar mais a história do s cavaleiros de Cristo, colocando-os nas mãos de um empreiteiro com paranóias estranhas. Mas a história prende. Os perfis e os estereótipos das personagens são credíveis e parece que os vemos por aí ao virar da esquina no nosso enfadonho quotidiano relatado em revistas de vaidades vazias que proliferam nas bancas e quiosques, meio enferrujados e decadentes das nossas cidades.

Deixo no entanto um reparo. O capítulo 12 começa com o inspector a ouvir uma gravação de uma conversa telefónica, pedida à PT. Ora os participantes na altura da conversa não eram suspeitos, pois ainda não se sabia do crime. Por muito baralhados que andem, a nossa polícia, e os nossos serviços de telecomunicações, é disparatado presumir, que todas as nossas conversas telefónicas sejam gravadas… (equívocos de um jornalismo sensacionalista que nos vai toldando o imaginário, mas que fica mal num romance que procura ser credível).

“ Houve sorrisos à mesa. O pintor Afonso, aliviando o seu amuo, perguntou:
- Mas conhece este tubarão?
Para desagrado de João Pedro, a conversa regressava à figura do Dr. Marcos Portugal. O professor Bernardino olhou na direcção do famoso advogado e disse:
- Só dos jornais e das revistas.
Divertida, Inês colocou João Pedro no centro das atenções:
- O único que o conhece bem é João Pedro.
A mesa esperou um esclarecimento. Mas João Pedro fez-se desentendido.
- O João Pedro é advogado no escritório do doutor Marcos Portugal, trabalha para ele…- insistiu Inês.
Em redor, olhares de desaprovação. Pela amostra, o Dr. Marcos Portugal não ganharia concursos de popularidade. Tinha fama de trauliteiro e ambicioso, capaz de vender a própria mãe. Mas nessa apreciação social existia muita ambiguidade e má consciência, pois o Dr. Marcos Portugal era um especialista em off-shores, uma espécie de guru nacional da fuga ao fisco. Muitos dos que em público o criticavam, usavam depois os seus serviços em privado, para melhor acautelarem as suas fortunas da gula das Finanças.
- Anda então a treinar-se para tubarão? – Provocou o professor Bernardino.

Nem tudo começa com um beijo

Nem tudo começa com um beijo
Jorge Araújo, Pedro de Sousa Pereira
Oficina do Livro
1ª edição Abril 2005


Histórias de adolescência abandonada, homens-criança, que vivem num sub mundo, onde, mesmo numa selvática luta de sobrevivência permanecem os afectos e a camaradagem. Poeticamente desenhada por Pedro Sousa Pereira, sentimo-nos transportados para um sub mundo de "príncipezinhos".
Neste universo, se nem tudo começa num beijo, sem ele, tudo perde o sentido. No fim, fui compelido a comprar os dois outros livros já publicados, Comandante Hussi e Paralelo 75.
Foi difícil, escolher um trecho deste livro de sentires. Optei pelo momento crucial da história,,, o encontro de fio Maravilha com Nuvem Maria…

“ Fio Maravilha abandonou o bar com passos maiores que as pernas, parecia um cavalo sem sela, um barco sem vela, chegou muito a custo ao jardim que ficava mesmo em frente, ó teve tempo para descansar a cabeça contra o tronco de uma árvore. E começou a vomitar, primeiro o jantar da véspera, depois restos do almoço do dia, quando já não tinha mais nada para oferecer, sentiu escapar por entre os lábios um líquido viscoso, malcheiroso, sem qualquer substância. Sentiu-se um pouco melhor, começou a gatinhar para fora do jardim, parecia que arrastava um contentor, porque a cabeça pesava mais do que o corpo. Foi então que avistou o que ao princípio lhe pareceu um clarão, mas que não era mais que uma cabeleira loira. Ficou arrepiado. Suores frios escorreram demoradamente pela espinha, ficou zonzo, no estado em que estava não dava para saber se era por causa da bebida ou da visão. Ainda pensou dar meia volta para ver a quem pertenciam aqueles cabelos, mas não tinha nem força nem moral para se aventurar na viagem.De regresso à cave, foi directamente para o seu buraco, ainda se cruzou com alguns meninos, mas a todos apenas disse:- Amanhã falamos.”

Arrisco ainda colocar outro pequeno texto, que ficou cruelmente gravado na minha memória de sentires:

“ Fio Maravilha teve dificuldades em passar pelo buraco da sarjeta, a cabeça e o tronco ainda vai que não vai, o mesmo não se pode dizer da cintura, em desespero de causa teve mesmo que retirar o cinto de cabedal, fazer um exercício de contorcionista, só assim conseguiu ultrapassar o tampo da entrada do esgoto e deslizar até ao sótão. O episódio deixou-o preocupado, tinha consciência de que, no dia em que ficasse gordo ou alto demais, teria de procurar uma nova casa, uma nova família.- não é possível, não posso ter engordado – desabafou como que a querer encontrar uma explicação para o imprevisto.”

sábado, setembro 2

O eterno efémero

O eterno efémero
Urbano Tavares Rodrigues
Dom Quixote
1ª edição: Outubro 2005


O espanto que este romance me provocou, não foi a forma como o Autor deambulou nas palavras. Hábito seu de ser Mestre. Foi a própria história. Convivendo, eu, com a degradação da vida, não é difícil perceber que no inicio do seculo XXI, onde se passa para a quarta idade com alguma frequência, e se assiste a um demência cognitiva acentuada e a um desligar da existência de forma involuntária, é com admiração e respeito que afago este romance escrito por quem subiu à montanha do tempo, aborda de forma acutilante os sentires virtuais, as transmutação das relações humanas, através do dedilhar da escrita on-line, e das máscaras onde escondemos cobardemente os sentires. Ao ler, esta pequena pérola, senti várias vezes o impulso de querer abraçar o autor, num abraço prolongado de enorme admiração.

“Descanso dos documentos profissionais nesta tentativa de diálogo comigo. Descanso do computador, que utilizo mais na Judiciária ou no DIAP do que em casa. Excepto agora que este processo me abriu o interesse para a Internet. Descanso do obrigatório, do sério. Das mascaras que obviamente tenho que compor.”