quinta-feira, outubro 19

O Homem é tonto ou é mulher

O Homem ou é tonto ou é mulher
Gonçalo M. Tavares
Campos e Letras
Colecção: Instantes de Leitura - n.º 31
1ª Edição Abril 2002

Não aprecio alguns dos olhares com que Gonçalo Tavares desenha a sua escrita, mas cativa-me o estilo. À falta de outra classificação chamar-lhe-ei estilo “pensativo”. Não é poesia, nem ficção, nem romance, nem dramaturgia,,, são pensamentos irrequietos dos vários eus que lhe vivem nas letras e que se lhe soltam das mãos. Escreve divertido. Sente-se em cada frase, em cada página, um enorme sorriso de gozo escondido. É o divertimento (interior) que detecto, nos inúmeros e multifacetados escritos de Gonçalo Tavares, que me atrai, mesmo que não veja a vida do mesmo ângulo com que ele a olha!
(...)
“Gosto de viajar quando o mundo dorme
porque assim consigo ver as coisas a respirarem naturalmente.
Só se é natural quando se dorme.
Quem acorda, acorda os instintos de sobrevivência.
É melhor andar por cima da terra quando ela dorme, do que quando ela quer sobreviver.
Quando a Natureza dorme podemos correr À vontade pois será impossível tropeçarmos, será impossível sermos lentos ou demasiados rápidos.
O nosso ritmo é o certo.
Tudo vive no seu sítio e nós observamos, acordados, as coisas do alto.”

(...)

“Um dia um professor de física pediu-me para calcular a energia libertada no choque do corpo de um menino que caíra da altura de 50 metros.
Eu respondi-lhe que se o menino fosse mesmo menino nunca chegaria ao chão, mais que não fosse por teimosia.
As crianças são muito teimosas, toda a gente sabe.
Têm a mania de contrariar.
Se lhes dizem: faz isto!
é mais do que certo que eles não o fazem.
Está-lhes no sangue.
Por isso é que eu respondi aquilo ao professor de física.
- Se o peso do corpo quer obrigar o menino a cair, é certo que ele vai contrariar essa ordem e não vai cair; isto parecve-me lógico, não é?
Pois é: Resultado: chumbei!
Uns broncos estes professores!”

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sexta-feira, outubro 6

Três homens num barco ( já para não falar do cão)

Três homens num barco ( já para não falar do cão)
jerome k. jerome
livros cotovia
edição 2004

Escrito nos finais do século XIX, foi com a surpresa do divertimento com que me deixei envolver na viagem e no relato de jerome, que aproveita a escrita para contar pequenas histórias. Não resisti a transcrever quase todo um capitulo, porque ele é o retrato exacto de duas personagens do meu clã familiar ( o meu pai e eu próprio, que a genética é cousa importante, tão importante que quase ouso a colocar no retrato o meu bisavô e avô paterno). Reza assim o retracto da família MaRo...
(...)

"Faz-me sempre lembrar o pobre do meu tio Podger.
Nunca se vê tamanha comoção numa casa como quando o meu tio Podger resolve pôr mãos à obra. Por exemplo, chegava do encaixilhador um quadro que ficava na sala de jantar à espera de ser pendurado; a tia Podger perguntava o que se ia fazer dele e o tio Podger respondia:
- Oh, deixa isso comigo. Não te preocupes, nem tu nem mais ninguém. Eu encarrego-me do trabalho.
E, aí, tirava o casaco e começava. Mandava a rapariga à rua buscar seis pence de pregos e depois mandava um dos rapazes atrás dela para lhe dizer que tamanho havia de trazer; e assim sucessivamente, até pôr toda a casa em polvorosa.
- Vá, vai buscar o meu martelo - gritava - e traz-me a régua, Tom; e preciso do escadote; e mais vale trazerem-me também uma cadeira da cozinha; e, Jim!, corre à casa do senhor Goggles e diz-lhe: "O pai manda cumprimentos e espera que esteja melhor da perna; e se faz favor de lhe emprestar o nível de bolha". E, oh!, Maria, não te vás embora porque preciso de alguém que me segure na lanterna; e quando a rapariga voltar, tem de sair outra vez para ir buscar um pedaço de cordão para quadros; e, Tom! - onde se meteu o Tom? - Tom, chega cá; quero que me passes o quadro.
E depois pegava no quadro, deixava-o cair, o quadro soltava-se do caixilho e, ao tentar salvar o vidro, o tio Podger cortava-se; e então punha-se aos saltos pela sala à procura do lenço. Não conseguia encontrar o lenço porque este estava no bolso do casaco que ele tinha tirado e, como não sabia onde tinha posto o casaco, toda a casa tinha que deixar de procurar as ferramentas para se pôr à procura do casaco, enquanto ele dançava pela sala e incomodava toda a gente.
- Mas será que ninguém nesta casa sabe onde está o meu casaco? Nunca na vida vi gente assim - palavra de honra. Seis! E nenhum consegue encontrar o casaco que eu tirei, ainda não há cinco minutos! Bolas, francamente...
Depois levantava-se e descobria que se tinha sentado em cima do casaco; e então exclamava:
- Oh! Já não precisam de procurar! Já o encontrei eu! Mais valia pedir ao gato que procurasse do que esperar que esta gentinha desse com alguma coisa.
E depois de se ter gasto meia hora a amarrar-lhe o dedo e de se ter encontrado um vidro novo e reunido as ferramentas, o escadote e a cadeira, de se ter trazido uma vela, ele fazia uma nova tentativa, com toda a família, incluindo a rapariga dos recados e a empregada, reunida em círculo em volta dele, pronta para ajudar. Duas pessoas tinham de segurar na cadeira, uma terceira ajudava-o a trepar lá para cima e a segurá-lo lá, uma quarta passava-lhe um prego e uma quinta estendia-lhe o martelo, e ele pegava no prego e deixava-o cair.
- Pronto! - dizia ele, numa voz magoada. - Agora desapareceu o prego.
E todos nós tínhamos de nos pôr de joelhos à procura do prego, enquanto ele ficava de pé, em cima da cadeira, a resmungar, perguntando se era para ficar ali a noite inteira.
Finalmente, quando se encontrava o prego, ele já tinha perdido o martelo.
- Onde está o martelo? Que é que eu fiz do martelo? Valha-me Deus! Vocês são sete, todos para aí embasbacados, e nenhum viu onde eu meti o martelo!
Encontrávamos-lhe o martelo mas entretanto já ele tinha perdido de vista a marca que tinha feito na parede, onde o prego havia de entrar. E todos nós tínhamos de nos empoleirar na cadeira, ao lado dele, a ver se a conseguíamos achar. E cada um de nós a descobria num lugar diferente e então ele chamava-nos parvos, todos um bando de parvos, e mandava-nos descer da cadeira. E pegava na régua, e voltava a medir, e descobria que tinha de saber quanto era metade de setenta e nove centímetros e setenta e nove milímetros a partir do canto, tentava calcular de cabeça e ficava furibundo.
Todos nós tentávamos calcular de cabeça, e todos nós chegávamos a diferentes resultados, e fazíamos troça uns dos outros. No meio da confusão geral, esquecia-se o número inicial e assim o tio Podger tinha de voltar a tirar as medidas.
Desta vez usava um pedaço de fio e, na altura crítica em que o velho louco se vergava sobre a cadeira, num ângulo de 45°, e tentava chegar a um ponto situado dez centímetros para além daquilo que lhe era possível alcançar, o fio escapava-se-lhe da mão e ele estatelava-se em cima do piano, produzindo um efeito musical do mais fino recorte, de tal maneira o corpo e a cabeça batiam em todas as teclas ao mesmo tempo.
A tia Maria dizia que não permitia que as crianças ali ficassem a ouvir uma linguagem daquelas.
Finalmente, o tio Podger conseguia localizar de novo a marca e colocava a ponta do prego sobre ela, com a mão esquerda, segurando no martelo com a mão direita. E, com a primeira martelada, esmagava o polegar e, uivando, deixava cair o martelo em cima dos pés de alguém.
A tia Maria observava mansamente que, da próxima vez que o tio Podger quisesse pôr um prego na parede, esperava que ele a prevenisse a tempo para que ela pudesse ir passar uma semana com a mãe, enquanto o trabalho estava a ser feito.
- Oh! Vocês mulheres! De tudo fazem uma confusão! - replicava o tio Podger, endireitando-se. - Que queres, os trabalhinhos deste tipo divertem-me!
E depois fazia mais uma tentativa e, à segunda pancada, o prego entrava direitinho pela parede adentro e metade do martelo ia atrás dele, e o tio Podger era precipitado de encontro à parede, com força quase suficiente para esborrachar o nariz.
Depois tínhamos de voltar a procurar a régua e o fio e novo buraco era feito; e, lá pela meia-noite, o quadro estava pendurado, todo torto e mal seguro, com a parede à volta que parecia varrida a tiro e toda a gente morta de cansaço e furiosa. Toda a gente excepto o tio Podger.
- Pronto! Já está! - dizia ele, descendo pesadamente da cadeira para cima dos calos da empregada e inspeccionando com um orgulho evidente a bagunça que tinha feito. - Quando penso que há pessoas capazes de chamar um operário para fazer um trabalho destes! "
(...)

terça-feira, outubro 3

Cavalos em fuga

Cavalos em Fuga
Yukio Mishima
Edirtorial Presença
Coleção Novos Continentes, n.º 19
1ª Edição 1987


Em Cavalos em Fuga, Mishima não esconde a sua fixação na honra dos antigos samurais, símbolo da entrega e da devoção ao Imperador . O uso do Iai ( sabre Japonês) reflecte assim a Via ( DO) dessa entrega. Quioaqui reaparece na figura de um jovem patriota “Issau” que prepara o renascer do Japão através de um acto heróico inspirado na Liga do Vento Divino, que após o acto de pura entrega ao Imperador, pretende praticar o Sepuku ( morte ritual , abrindo o ventre com sabre ou punhal).
Vive-se , (sente-se) toda a atmosfera “do Ultimo samurai” e da história de Kasumoto .
Conhecendo-se o fim de Mishima ( praticou o Sepuku, depois de um discurso patriótico), é com admiração que se lê todo este envolvimento do autor na personagem de Issau. Este segundo acto da tetralogia “O mar da felicidade”, é um texto mais pesado, mais reflectido, na procura da pureza do espírito que o primeiro. Só nos últimos capítulos há ritmo, até lá parece que as personagens vão lentamente tomando forma e destino, sempre com um interlocutor presente, Honda, amigo intimo de Quioaqui, e que o reconhece em Issau. Também aqui, há uma história de amor e de sacrifício, mas desta vez o patamar do sacrifício eleva-se ao serviço do Imperador, em detrimento da entrega ao amor passional sentido por Issau. Mishima, numa curta frase , numa conversa entre Issau e o Pai ( tutor de Quioaqui) expressa o desejo de ser mulher ( tal como reencarnará do terceiro volume - O Templo da Aurora).
Retirei este curto texto de uma carta escrita por Honda a Issau,
(...)
“Não sou adepto das novidades do cristianismo, nem critico o zelo pelo passado ou a pouca largueza de ideias dos homens da Liga. No entanto, se queremos aprender com a História, não devemos concentrar-nos apenas num único aspecto de uma época, mas sim fazer uma meticulosa investigação dos muitos factores complexos e mutuamente contraditórios que fizeram dessa época o que ela era. Temos de pegar nesse aspecto único e colocá-lo no contexto correcto. Devemos avaliar os vários elementos que lhe conferiram características especiais. Assim, temos de olhar para a História de uma perspectiva que nos ofereça uma visão ampla e equilibrada.
Isto, creio, é o que significa aprender-se com a História. Pois a opinião de qualquer homem sobre a sua época é limitada, e ele tem grande dificuldade em tentar formar uma imagem compreensiva do seu tempo. Portanto, precisamente por isto, a imagem compreensiva dada pela História fornece informação e constitui um modelo pelo qual podemos guiar-nos.
Um homem que vive confinado pelas limitações do dia-a-dia, consegue, graças à visão ampla proporcionada pela História que transcende o tempo, uma imagem compreensiva do seu mundo e assim corrigir o seu estreito ponto de vista das coisas.
É este o agradável privilégio que a História oferece aos homens.
Aprender com a História nunca devia significar concentrarmo-nos sobre um aspecto particular de uma determinada época e usá-lo como modelo para reformar um dado aspecto presente. Tirar do quebra-cabeças do passado uma peça uma determinada forma e tentar encaixá-la no presente não é coisa que possa dar bons resultados. Fazê-lo é tentar brincar com a História, como se fosse um passatempo próprio para crianças. Temos de perceber que, por mais que se assemelhem, o idealismo de ontem e o idealismo de hoje têm condições históricas diferentes. Se quisermos procurar uma determinação tão pura, devemos procurá-la numa «ideologia diametralmente oposta» dos nossos dias, que exista sob as mesmas condições históricas. Uma atitude modesta deste tipo adequa-seao «eu dos nossos dias», caracteristicamente limitado. Assim, podemos finalmente considerar esta pureza de ideal um problema histórico e fazer deste «motivo humano» que transcende a História o nosso objecto de estudo. Então, as condições históricas comuns à época tornam-se apenas factores constantes da equação. “
(...)
Segue-se o terveiro volume - O Templo da Aurora