quinta-feira, novembro 23

Ontem Não te vi em Babilónia

António Lobo Antunes
Publicações D. quixote
1ª edição Outubro 2006


Curiosamente ( e ironicamente, uma vez que são autores que nutrem antipatias mutuas) a empatia para com António Lobo Antunes foi idêntica com a que tive com Saramago. O primeiro livro que me ofereceram de Saramago foi o “ Ano da Morte de Ricardo Reis”, (prenda do Pai que me sabia afeiçoado a Pessoa e que provavelmente já desconfiava que o desdobramentos do eu, para ver o eu inteiro, era caminho que eu seguia…). Não o consegui ler, julgo que na altura não passei da primeira página, e quando assim é , quando me arrasto nas letras, perdido nas frases, esqueço o livro, (mas Pai é Pai e insistiu em Natal seguinte com a Jangada de Pedra e daí em diante, outros). Lembro-me que na altura o coloquei na prateleira, algures junto aos livros não prioritários, que para se ler um livro é preciso afinidade, e na altura não estava afim.Não me recordo como o livro saiu da prateleira e viajou para a mala de trabalho, que nessa altura viajava muito. Fiquei de tal maneira preso ás paginas de Saramago que dei comigo a ter pena de as virar e ficava a saboreá-las como quem degusta um vinho do Porto-velho de xistos e de sol. Com António Lobo Antunes o processo foi idêntico, mas levou mais tempo a entrar no seu universo literário, culpa minha que tentei ler livros da sua ultima fase,( que farei quando tudo arde?) sem passar pelas notáveis fases intermédias.
“Ontem não te vi em Babilónia” acaba por ter sido o primeiro livro que li desta sua ultima fase, (que segundo o proprio deveria ter sido única), por inteiro, com o prazer de ler e de me deixar ir no movimento da caneta e da insónia relatada a várias vozes, com diversos sentires.
Na verdade não é um romance, ou melhor não é um romance na sua forma tradicional de contar uma História e essa história ter personagens que a vivem. Neste livro o processo foi ao contrário, é o livro que cria as personagens. O livro é na verdade o cenário (protagonista) principal, que se escreve na noite e que vive na noite. As personagens escrevem-se, as personagens são a ponta da caneta, a insónia é a do autor, que provavelmente incomodado com o latir de cães desacordou no livro, a na necessidade do livro. Uma insónia (sabe quem a já teve), alonga o tempo, tudo se arrasta numa lentidão como quem gira á volta de um vazio. “Ontem não te vi na Babilónia “, gira à volta de uma criança que se pendura em corda de enforcado numa macieira e deixa em repouso ( caída,,,,morta) uma boneca na relva, que a mãe corta doentiamente.As personagens tem o ritmo a insónia permite e repetem-se numa lenga-lenga que nos envolve ( vezes, em angustia) de tal forma que sentimos o tempo nas páginas que se lêm com o prazer de descobrir o António e a sua mestria de traçar imagens literárias únicas.O livro nasce já com morte anunciada ( que sabemos no fim que anunciada hora e tudo).
(…)
(cinco da manhã e acabou-se, a única coisa que me dizem é que: cinco da manhã e acabou-se sem que eu compreenda o que se acabou, contem-me, cinco da manhã e então, no caso de não precisarem de mim, posso dormir, não posso? )
(…)
desabafa a personagem…
Sabe-se que é um livro que só tem uma noite, e as personagens também o sabem e apressam-se a partir das quatro da manhã ( aliás o capitulo mais conseguido do livro-romance) a acelerar a sua própria escrita. É um livro que se constrói, como se as personagens escorregassem na tinta e tomassem forma ( como fantasmas das páginas).
(…)
-Não se vai embora você?
impaciente comigo, o seu livro quase no fim visto que dia, guarde os papéis, a caneta e levante as sobrancelhas da mesa onde desenha as letras torcido na cadeira, quatro da manhã graças a Deus, quase cinco, acabou-se, na janela diante da sua uma senhora numa cadeira de baloiço que há-de cobri-lo com o xaile, você não imaginando que a morte uma pessoa real, sem mistério a defender-se do frio, o seu nome
- António
ao mesmo, tempo que um barulhinho no vestíbulo, cochichos que o procuram na casa, espreitam o corredor, não o acham, os homens de casaco e gravata junto a si e um martelo, uma pistola, uma lâmina
(quatro horas da manhã graças a Deus, quase cinco)
e não tem importância visto que o seu livro no fim, tantos meses para chegar aqui e duvidando se chegaria de maneira que alegre-se, olhe a janela onde a senhora da cadeira de baloiço
-António
(…)
O António ( o Antunes,,,o Próprio) revela-se aqui e ali, como maestro, obrigando as personagens a escrever, aparecendo várias vezes no auge da insónia “( continua a escrever) “ como que obrigando-se à escravatura da escrita, esquecendo-se por vezes que é ele e não a personagem que escreve, relevando ao leitor o seu processo criativo , a forma como experimenta as palavras, como lhes tira o som e a imagem, como as apaga ,ou como escrevendo com a pressa de não deixar fugir uma ideia que se sobrepôs à cena, a sobrepõe para não se esquecer dela, para mais tarde a rever e a colocar em sitio certo. Sitio esse que acaba por não ser encontrado ficando tudo como está, para gozo do autor e nosso, que entendemos o seu divertimento e damos connosco a sorri e a pensar no silêncio ( grande sacana, a gozar comigo!)
(…)
Há momentos, palavra de honra, não se compreende o motivo mas pesa, sente-se dentro o
(ia escrever incómodo e não incómodo conforme não incómodo conforme não tristeza, não dor, como se traduz isto, não sei)
deviam chover lágrimas quando o coração pesa muito e há momentos palavra de honra que pesa
(para já fica assim)
(…)

De tudo ficou-me gravada a imagem do silêncio, escrita desta forma que só Lobo Antunes consegue:
(…)
Isto porque no outono ninguém consegue dormir, vamo-nos tornando amarelos da cor do mundo que principia em setembro debaixo do mundo vermelho, o silêncio deixa de afirmar, escuta, demora-se nos objectos insignificantes, não em arcas e armários, em bibelots, cofrezinhos, não somos a gente a ouvi-lo, é ele a ouvir-nos a nós, esconde-se na nossa mão que se fecha, numa dobra de tecido, nas gavetas onde nada cabe salvo alfinetes, botões, pensamos
- Vou tirar o silêncio dali
e ao abrir as gavetas o outono no lugar do silêncio e o amarelo a tingir-nos, as janelas soltas da fachada vão tombar e não tombam, deslizam um centímetro ou dois e permanecem, na rua os gestos distraídos da noite transformam-se num fragmento de muralha ou na doente que faleceu hoje no hospital abraçada à irmã de chapelinho de pena quebrada na cabeça, estremeceram em uníssono, a cama ou uma garganta um som qualquer
(como descrevê-lo?)
(…)

quarta-feira, novembro 8

O último Papa

Luis Miguel Rocha
Saída de Emergência
1ª edição Outubro 2006


Confesso ( já que falamos de igreja) que comprei este livro, impelido pelo Marketing associado à sua publicação. (coisas modernas,,, e agressivas que nos entram no subconsciente e nos controlam de tal forma que nos convencemos senhores do livre arbitro ). Li em várias publicações referência ao “ Último Papa”, livro revelação, etc, etc, e não resisti. Não conhecia o autor, nem a temática me atrai, depois de ter lido e relido o consagrado Morris West ( autor que passei a ler desde jovem depois de ter ficado preso no filme “As sandálias do Pescador” que fui ver , porque via todos os filmes de Anthony Quinn, actor que me tocou como Zorba, livro que nunca li, mas que me aguarda na prateleira, para quando me sentir suficientemente distanciado do filme)
Não gosto de livros que se escrevem para se venderem. Os livros vendem-se porque o autor decide partilhar a história que lhe viveu nas palavras, não se escrevem por encomenda, nem com atributos comerciais, isso não são livros, são consumíveis…
Este enferma de vários pecados, como não sou critico literário, nem coisa parecida, refiro aqui neste meu espaço, apenas um ou outro aspecto que me incomodou, como os detalhes sobre factos históricos, escritos em jeito de enciclopédia barata, que quanto muito mereciam uma nota do autor, para estrangeiro ler ( discrição do convento de Mafra, Os três pastorinhos, e tantos outros factos assinalados no texto, que podiam ser escritos por qualquer estudante do secundário com acesso à Internet…); A referência à morte de Sá Carneiro, é introduzida na trama sem sequência ou consequência na história de uma lista que causa demasiadas mortes, sem se perceber em concreto a real importância dessa lista.
Quanto muito serve, o livro, para guião de um filme, não para um Livro, para se ler no prazer de saborear o sentir e as imagens das palavras…

Revela também a insensibilidade do autor para as pequenas coisas…alguém neste País bebe vinho do Porto para matar a sede ????

(…)
"" Vai beber o seu Porto?" pergunta Rafael no meio do nada. Há muito que não se ouvia a sua voz. Sarah desvia o olhar para ele. Aquilo não vem nada a propósito, mas a sede não segue momentos oportunos, instala-se quando bem entende e pede atenção imediata. "


(…)

“O silêncio volta a tomar conta daquele salão, algures debaixo do Convento de Mafra, devorando as palavras e transformando-as em teorias que Sarah canaliza à sua maneira e Rafael à dele. Ainda que a maior parte das revelações de Raul sejam do seu conhecimento.
"Já no segundo conclave de 1978, o ano dos três Papas, não correram riscos e elegeram alguém que pudessem controlar" recomeça Raul. "Escusado será dizer que acertaram na mouche. Não só era um Papa totalmente manipulado pela cúria, como, a posteriori, conseguiu uma relação fantástica com os fiéis. "
"Não fazia essa ideia de João PauloII.
"Ninguém faz. Mas ninguém em boa fé o pode censurar. Primeiro porque recebeu um aviso muito sério em 1981, apesar do plano original ter contemplado um afastamento permanente e não um conselho. E depois porque o Vaticano, indirectamente, colocou cerca de um milhar de milhões de dólares no bolso do Solidariedade."
"Solidariedade?"
"Um sindicato polaco, criado em Gdansk, que acabou por conseguir derrubar o regime comunista instaurado no pais. Com fundos do Vaticano e dos americanos. "
"Sempre o comunismo como alvo" reclama Sarah.
"Sim. Não são apenas os americanos que vivem obcecados com os comunistas. O Vaticano também. "
"Mas não respondeu à minha pergunta. Porque é que quem matou o Papa não guardou os papéis? Era o que eu faria. "
"Repara" continua o pai num tom esclarecedor. "O Papa não morreu pelos papéis que tinha na mão. Apesar disso, um dos mandantes teve o cuidado de retirá-los posteriormente dos aposentos do Papa. Entregou-os ao executante que rapidamente os levou para fora do Vaticano. A ordem era para os destruir, mas ele nunca o fez. "
"Porquê?"
"Boa pergunta. Penso que para ganhar vantagem sobre os seus adversários. Ou mesmo para salvaguardar a sua vida se, no futuro, os mandantes quisessem descartá-lo. "
"Okay" diz Sarah, abanando a cabeça em sinal de entendimento. "Então está na hora de irmos ao porquê. Porque é que mataram o Papa?" "Vai beber o seu Porto?" pergunta Rafael no meio do nada. Há muito que não se ouvia a sua voz. Sarah desvia o olhar para ele. Aquilo não vem nada a propósito, mas a sede não segue momentos oportunos, instala-se quando bem entende e pede atenção imediata. "

segunda-feira, novembro 6

O Senhor Valéry

Gonçalo M. Tavares
Edições Caminho
1ª edição Abril 2002



Entrar no Bairro de escritores de Gonçalo Tavares, é entrar num universo de filosofia admirável. São pensamentos (na linha do autor), mas pensamentos que se tornam personagens. Têm nome e desenham. É um universo poderoso, como poderoso é qualquer pensamento que questiona e se desinibe na infantilidade de ser inteiro e ingénuo…
É o admirável mundo dos poetas, que vivem a poesia no respirar do olhar.
Passear neste bairro, de ilustres escritores ( personagens que encarnam pensamentos) é uma aventura de interrogações sobre a condição humana e sobre a bizarria do nosso quotidiano, que é obrigatório não perder...

(...)
“O senhor Valéry era pequenino, mas dava muitos saltos.
Ele explicava:
- Sou igual às pessoas altas só que por menos tempo.
Mas isto constituía para ele um problema.
Mais tarde o senhor Valéry pôs-se a pensar que, se as pessoas altas saltassem, ele nunca as alcançaria na vertical. E tal pensamento desanimou-o um pouco. Mais pelo cansaço, no entanto, do que por esta razão, o senhor Valéry um certo dia abandonou os saltinhos. Definitivamente.
Dias depois saiu à rua com um banco.
Colocava-se em cima dele e ficava lá em cima, parado, a olhar.
- Desta maneira sou igual aos altos durante muito tempo. Só que imóvel.
Mas não se convenceu. “
(...)

quarta-feira, novembro 1

Passageiros em transito ( novos contos para viajar)

José Eduardo Agualusa
1º Edição – Setembro 2006
Publicações D. Quixote

Não é normal ficar preso a um livro na primeira página, Por uma capa, é menos raro, vezes há que me entram pelo olhar ( os livros e as capas) e ficam agarrados à mão e ao afecto, como uma criança que nos olha e nos provoca uma tempestade de sentires, Mas na primeira página, não recordo acontecer. Este, de Agualusa, li-o de uma só vez, numa ida “balancé-balancé”, pendulado em caminhos de aço e de ferro até Lisboa. Contos de viagem, para uma viagem. Quase todos de África, lugares de África, mesmo os que se escoam em cidades outras, há uma África inteira nas páginas de Agualusa. Pena que alguns dos contos estejam formatados para páginas de revista ou jornal e perdem-se no livro, por parecerem inconclusos, imaturos, esquiços de um desenho inacabado…
Ficou-me no olhar, um quadro por pintar, num deserto amarelo, onde o sol desenha rugas no ar, passa uma mulher morena, vestida de branco, numa bicicleta de azul, lazúli, ao fundo advinha-se, planta única de desertos ( welwitchia mirabilis) que cresce lá para os lados de Namibe.

O passado é como o mar: nunca sossega. As casas encolhem, como os velhos, ao passo que as árvores crescem sem parar. Quando regressamos, decorridos muitos anos, aos lugares da nossa infância encontramos árvores gigantescas e sufocando de terror à sombra delas as casas minúsculas que um dia foram nossas. Mal reconhecemos a cama de bonecas em que dormimos quando éramos crianças, ou o quintal, que sempre julgámos ser imenso, e que tem, afinal, apenas dois palmos de fundo.
O meu pai dizia-me:
- A vida é uma corrida, meu filho. Quem olha para trás enquanto corre arrisca-se a tropeçar.
Eu não olho para trás. Avanço por vezes de olhos fechados, e tropeço, como os outros, e eventualmente caio, mas não olho para trás. Nunca fui pessoa de cultivar saudades. Não colecciono álbuns de fotografias, e jamais guardei pétalas secas entre as páginas de velhos livros. Sigo sempre em frente. Quando me perguntam para onde vou encolho os ombros. Rio-me:
- Adiante”