sexta-feira, dezembro 22

O senhor Henri

Gonçalo M. Tavares
Editorial Caminho
1ª edição 2004

Talvez seja o pior dos inquilinos do Bairro de Gonçalo Tavares. Mergulhado constantemente no absinto, torna-se repetitivo e invulgarmente pouco criativo, chegando a tornar-se massudo e incomodativo, como qualquer ébrio que se prese. Pode passear-se por este bairro sem bater na porta do Senhor Henri, a menos que se queira sentir a volatilidade do absinto.
(...)
"
O senhor Henri estava sentado no banco de jardim a pensar se o seu corpo se levantaria para ir beber um copo de absinto.
O senhor Henri disse: a minha alma já se levantou.
O senhor Henri olhou depois para o corpo, tentando localizar o próprio rosto, mas não conseguiu.
... há partes do meu corpo que só posso ver com os meus olhos, e há outras que só posso ver com a memória.
... é como se a memória tivesse olhos, e mais antigos que os outros dois.
O senhor Henri depois calou-se.
E o senhor Henri, depois de um breve silêncio, disse: o certo é que a minha vontade já bebeu um copo de absinto, e eu não.

..." a minha vontade já se encontra, neste momento, mais bêbada que eu.
…vou, pois, apanhá-la - disse o senhor Henri.

quinta-feira, dezembro 21

Ao Contrário das Ondas

Urbano Tavares Rodrigues
Publicações Dom Quixote
1ª Edição Novembro 2006

Há uma actualidade gritante em cada novo romance de Urbano Tavares Rodrigues. A desfuncionalidade da família, como elemento orientador no crescimento dos filhos, o colapso de todo um sistema que aos poucos vai perdendo valores, sem se descortinar o sentido do futuro. Uma juventude que cresceu desacompanhada pós vinte cinco de Abril, é ruído de fundo deste romance, escrito e sentido por um homem que continua atento no olhar…
(...)
“« A vida corre ao meu lado como água muito lisa e que não molha. Vejo as outras, os outros a receberem as prendas do destino, boas e más, eu vou secando, quase sozinha, planta esquecida até pelo vento.»
As notícias que lhe dão do Manuel Joaquim são péssimas. Ultimamente decidiu ir para a casa do pai e parece que está a envenenar-lhe a existência. Faz dívidas enormes, tira-lhe notas da carteira, vai pedir dinheiro emprestado aos amigos dele. Tudo para a droga e para o álcool. Namoradas, ninguém lhas conhece. Está a tornar-se um marginal. Pior: um farrapo. Perdeu toda a vergonha.
Lembra-se de como ele era diferente, do que dele esperavam, por volta dos seus quinze anos. Quando começou a pintar. Até fazia poemas. Embora não fosse grande aluno na escola secundária, ia passando... Depois, foi o que se sabe: a mesada que o pai lhe dava, gastava-a em erva, em heroína, e deu em roubar coisas lá de casa, chegou a empenhar as jóias da mãe, desapareciam quadros, faianças, peças raras de mobiliário.
Agora é ainda pior, parece que surripiou o cartão dourado do pai e falsificou várias vezes a sua assinatura, fez compras milionárias, para vender tudo ao desbarato e gastar o produto em droga. Com Sabina não fala. Excepto uma vez em que se abriu e lhe contou tudo, os furtos, a ausência de interesses, o desgosto de viver, uma espécie de rancor pelo mundo. Andava magríssimo, quase não comia, deitava-se num sofá e adormecia, babava-se, fazia dó e causava asco.
Ajudara-o, levara-o a um médico. Iniciou então uma cura de desintoxicação, melhorou muito, fisicamente. Depois tornou ao mesmo. E estas cenas repetiram-se, provocando na mãe um grande cansaço e até desalento, até desinteresse, vontade de se ver livre dele.
«E agora - como somos contraditórios! - lamento que tenha trocado a minha casa pela do pai, fora da minha protecção . »”
(...)

segunda-feira, dezembro 11

A fórmula de Deus

José Rodrigues dos Santos
Edições Gradiva
1ª edição - Outubro de 2006

Não podia deixar de gostar deste romance. Parte de uma concepção do Universo muito idêntica àquela que nos meus passos (à procura do que estamos realmente aqui a fazer, qual o porquê de ser como realmente somos e não de outro modo), vou descobrindo o conforto de um ponto de vista. Chega a uma conclusão que dificilmente chegarei. Não consigo interiorizar que o Universo se encontra pré definido com objectivo expresso de criar a vida, e sobretudo para dar origem à inteligência humana. Há uma tentação no pensamento humano que converge para ser ele o ponto fulcral da existência. O universo não existe em função do Homem. O homem é que tem que entender qual a sua função do Universo.
É no entanto um livro que abre portas e nos coloca na obrigação de questionarmos o que vemos, mesmo não sabendo explicar as leis que nos comandam. Eu dei comigo a ouvir atentamente o que
o Palhaço de Dom Quixote me ia contando.
(…)
“Shunryu Suzuki disse: no espírito do principiante há muitas possibilidades, mas estas são poucas no espírito do sábio.”
“O que quer dizer com isso?", perguntou Tomás, sem perceber qual a relevância desta afirmação naquele contexto.
"Se vocês forem sábios, saberão que há um momento para tudo", indicou Tenzing. "Este é o momento para o chá."
O visitante mirou a sua chávena com ar desalentado, não se achava capaz de tomar aquela zurrapa sebosa. Deveria dizer alguma coisa? Ou deveria engolir e permanecer calado? Se rejeitasse o chá, estaria a quebrar a etiqueta tibetana? Haveria um modo específico de o fazer? Como proceder afinal?
"Mestre", decidiu-se. "Não tem mais nada para além deste…uh… chá?”
"E o que deseja que não seja chá?"
"Não sei... não tem nada para comer? Confesso que, depois da grande viagem de hoje, sinto alguma fome." Mirou Ariana. "Tu também tens fome?"
A iraniana fez que sim com a cabeça.
O bodhisattva emitiu uma ordem em tibetano e o monge volatilizou-se de imediato. Tenzing permaneceu calado, a sua atenção fixada na chávena como se o chá fosse, naquele instante, a única coisa importante em todo o universo. Tomás ainda tentou sondá-Io com algumas perguntas sobre o que aconteceu em Princeton, mas o anfitrião pareceu ignorá-lo e apenas quebrou o mutismo uma única vez.
"Um ditado Zen diz: tanto a fala como o silêncio transgridem."
Ninguém mais falou enquanto o tibetano tomava o seu chá. O monge que trouxera o chá reapareceu entretanto. Desta vez a bandeja não trazia o bule, mas duas tigelas fumegantes. Ajoelhou-se junto dos visitantes e entregou a cada um uma tigela.
"Thukpa", disse, com um sorriso. "Di shimpo du."
Nenhum dos dois percebeu, mas ambos agradeceram. "Thu djitchi."
O monge voltou a apontar para a tigela.
(…)

(…)
"Umas vezes penso que a vida não tem valor, é uma coisa insignificante. Eu vou morrer e a humanidade não sentirá a minha falta. A humanidade vai morrer e o universo não sentirá a sua falta. O universo vai morrer e a eternidade não sentirá a sua falta. Não passamos de uma irrelevância, simples poeira que se perde no tempo." Inclinou a cabeça. "Mas, outras vezes, penso que, afinal, todos nascemos, com uma missão, todos desempenhamos um papel, todos fazemos parte de um grande esquema. Pode ser um papel minúsculo, pode parecer uma missão irrisória, talvez até a consideremos uma vida perdida, mas, feitas as contas, quem sabe se coisa tão minúscula se poderá revelar uma migalha crucial para a concepção do grande bolo cósmico." Arfou, cansado. "Somos minúsculas borboletas cujo frágil bater de asas tem talvez o estranho poder de gerar longínquas tempestades no universo."
Tomás ponderou estas palavras. Estendeu o braço e apertou a mão fria do pai.
"O pai acha que alguma vez poderemos desvendar o mistério de tudo?"
"De tudo, o quê?"
"Da vida, da existência, do universo, de Deus. De tudo.."
Manuel suspirou, a fadiga tomando conta do rosto, os olhos a começarem a pesar-lhe.