quinta-feira, fevereiro 1

Cemitério de pianos

José Luis Peixoto
Bertrand


Quando era menino coleccionava cromos, cousa normal, lembro-me de uma ou outra colecção vagamente, uma ou outra imagem diluída, excepto uma, a do nosso corredor de maratona Francisco Lázaro. Sempre olhei este homem como símbolo, ou retrato do português. Voluntarioso, combativo, criativo e azarado, eternamente azarado…um pouco mais de asa…
Foi com curiosidade que agarrei neste romance. Primeiro porque adivinhava mudança de estilo do autor, depois pela história imaginada de um homem que me acompanhou o imaginário.
O livro, são dois em um. Um, a vida da família de Lázaro, outro a corrida, que se vai desfragmentando ao ritmo da respiração e dos passos. Eu também corro e sinto na respiração os pensamentos espaçados que me invadem o querer de ir mais longe e mais depressa. Há uma interacção parecida com Lobo Antunes, mas mais esclarecida, mais desenhada, talvez por envolverem menos vozes. Surpresa é a cor e a luz com que Luís Peixoto se deixa envolver. Digam o que disserem, Lisboa tem uma cor única que nos entra na pele. Neste romance, Luís Peixoto deixou a solidão Alentejana e deixou-se abraçar pelos ventos saloios e pelo sol. Sol meigo que não procura o escuro da sombra.

(…)

A luz da manhã não sente os vidros limpos da janela no momento em que os atravessa, pousando depois nas notas de piano que saem da telefonia e flutuam por todo o ar da cozinha. A luz da manhã, pousada nas notas de piano, detém-se, pontilhada, nos reflexos dos azulejos brancos da parede, nos cantos da mesa revestidos por fórmica, gotas de água que se suspendem no rebordo das panelas lavadas e viradas sobre o lava-loiças.
A minha mulher passa. Não repara na agitação invisível e luminosa de notas de piano que deixa à sua passagem. Leve, passa com as mangas arregaçadas até aos cotovelos. Sem reparar, leva a claridade da manhã no rosto. Entra no corredor. A sua pele brilha debaixo das sombras. O s seus passos abafados pela alcatifa não se distinguem do silêncio. "
(…)

Próxima leitura: Alentejo Blue - Mónica Ali

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