quarta-feira, março 7

Doutor Pasavento

Autor:Enrique Vila-Matas
Editora:Teorema

Doutor Pasavento é um romance lento escrito em círculo sobre a irresistível tentação de se ser outro e de desaparecer. Estou à vontade para falar deste livro, sou à minha modesta dimensão, um simples cidadão que tem a mania de inventar o eu, vivendo-o com intensidade.
Vila-Matas escreve sobre escritores, e sobre ele próprio com o seu próprio estilo. Walser obceca-o ( A Enrique? A Pasavento ? A Pynchon? A Pinchon? Ou a Ingravallo?)de tal modo que o circulo em que se transforma este livro incide nos passos lúcidos de Walser na sua permanente procura de “não ser” visível aos outros. Nesta incessante procura de outro eu, há um elemento aglutinador de todos os eus que o perseguem, a rua Vaneau em Paris. Ou seja, metaforicamente falando, o que dá consistência aos eus é o caminho, são os passos. Aqui e ali o romance transforma-se em diário intimo, aqui e ali, há um Enrique Vila Matas que se escreve. Parece, tal como em Lobo Antunes (curiosamente aqui também aparece como personagem de olhar e de estar distante) um Livro de vozes, um livro que nasce antes da história, e que se transforma ele próprio ( livro ) em história. Aqui escreve-se para desaparecer, ou para reaparecer o autor ele próprio sem os fantasmas dos seus próprios personagens. Parece um grito do autor que se perdeu na fantasia de ser escritor e que quer a todo o custo redescobrir-se sem reflexos nem sombras.
(...)
O microensaio de Morante deslizou para a reflexão sobre o desespero de quem já nada espera e, pouco a pouco, essa reflexão derivou para a questão da felicidade e da necessidade, repetida até à saciedade por Morante, de que nos voltemos a fazer ao mar. A velhice, acabou por me dizer, era na realidade ideal, porque nela se alcançava uma liberdade que nunca antes se tinha. Uma grande fumaça, depois de dizer isto. Raiva contida, pela minha parte. Via-o feliz e bordejando uma extrema alegria, insultante. Decidi perguntar-lhe se não lhe parecia uma obscenidade insuportável ser feliz. Respondendo-me como se tivesse detectado o ódio que naquele momenta lhe tinha e o quisesse aumentar, disse-me que, com minha licença e embora já fossem cinco da tarde, iam seguir-se varias reflexões mais sobre a felicidade, a ultima das quais girava à volta da felicidade de se fumarem dois puros havanos no Natal. E depois começou uma longa arenga à volta da ideia de que os anos da velhice eram livres e insubordinados. Disse que o velho, regra geral, é um verdadeiro homem, porque sabe que é um homem fora do lugar, é alguém que enche de vida o espaço vazio da vida e entende o jogo melhor que o jogador porque, pelo facto de estar fora de jogo, não está distraído pelo esforço a que é obrigado quem nele participa.
(...)

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