sexta-feira, março 23

Estado de pânico

Autor:Michael Crichton
Editora:Publicações Dom Quixote

Quando se pega num livro de “Michel Crichtom”, sabe-se à partida que se vai viver uma aventura, escrita em forma de filme. As imagens sucedem-se à medida da intriga. Este livro-filme, é na verdade polémico, já que sublinha numa critica voraz ao fundamentalismo ambiental, a hipocrisia dos dirigentes associativos das organizações ambientais, dos cientistas e dos governos.
Sendo um livro para consumo, duvido que este chegue a “best-seller” tal é a forma como se insurge ao “status quo”, ou à corrente moderna, politicamente correcta, do aquecimento global.
Independentemente da posição que toma, tem o mérito de levantar o problema da manipulação politica, da ciência e da informação e o quanto a humanidade é permeável a essa manipulação, transformando frequentemente o individuo em marionetas amestradas, que facilmente assumem comportamentos em massa induzidos.
Muito há a dizer sobre esta historia de eco-terrorismo e sobre este grito de alerta que contrapõe a ofensiva mediática do ocidente face à nova economia das indústrias ambientais, lideradas por Al Gore (também ele incorporando um boneco pouco conseguido, mas com impacto mediático).
Tem no entanto, independentemente da posição que claramente assume, o mérito para apelar ao bom senso e de abanar o indivíduo, (na sua componente individual e colectiva) incitando-o à reflexão e a ter sentido critico sobre o planeta onde vive e o meio continuamente evolutivo que o rodeia.
Porém, fica-se na dúvida se foi uma história contada pela criatividade e vontade genuína do autor, se faz também ele parte de uma estratégia e de uma encomenda político literária…

Aqui e ali, há falhas narrativas que estragam a coerência do filme (perdão, do livro). Recordo uma cena em que o carro dos protagonistas é atingido por vários relâmpagos que lhe estilhaça os vidros e num outro clímax da perseguição, o mesmo carro é arrastado pela corrente numa enxurrada, e um dos protagonistas sofre a angustia de não conseguir baixar os vidros para poder saltar da viatura.
Mesmo sendo polémico e recheado de notas cientificas que o comum leitor não se vai dar ao trabalho de verificar, vale a pena ler, com o espírito aberto, uma vez que tem o mérito de abalar a consciência e de nos obrigar a olhar o Mundo e a Natureza de uma forma constantemente interrogativa e de nos lembar que nós Homens somos afinal, parte dessa mesma Natureza ( coisa que temos a tendência estranha de esquecer…)

(…)
Evans dormiu uma hora, agitado, o corpo a doer. Não conseguia encontrar uma posição confortável para descansar. De vez em quando acordava estonteado, A certa altura pareceu-lhe que Kenner estava a falar com Sarah.

Vamos lá lembrarmo-nos donde vivemos, dizia Kenner. Vivemos no terceiro planeta de um solde dimensões médias. O nosso planeta tem cinco mil milhões de anos, e tem mudado constantemente durante esse tempo. A Terra está agora na sua terceira atmosfera.
A primeira atmosfera era hélio e hidrogénio. Dissipou-se depressa, porque o planeta estava quente demais. Depois, à medida que o planeta arrefecia, as erupções vulcânicas produziram uma segunda atmosfera de vapor e dióxido de carbono. Mais tarde o vapor de água condensou-se formando os oceanos que cobrem a maior parte do planeta. Então, há cerca de três mil milhões de anos, algumas bactérias evoluíram para consumir o dióxido de carbono e produzir um gás altamente tóxico, o oxigénio.
Outras bactérias soltavam nitrogénio. A concentração destes gases na atmosfera aumentou lentamente. Os organismos que não se conseguiam adoptar morreram.
Entretanto as massas de terra do planeta, a flutuar sobre imensas placas tectónicas, acabaram por se juntar numa configuração que interferia com a circulação das correntes oceânicas. Começou a arrefecer pela primeira vez. O primeiro gelo apareceu há dois mil milhões de anos.
E durante os últimos setecentos mil anos, o nosso planeta tem vivido uma idade do gelo geológica, caracterizada pelos avanços e recuos do gelo glacial. Ninguém sabe ao certo porque é que o gelo cobre o planeta em ciclos de cem mil anos, com avanços menores cada vinte mil anos, ou coisa assim. O último avanço foi há vinte mil anos, portanto estamos prestes a ver o seguinte.
E mesmo hoje, ao fim de cinco mil milhões de anos, o nosso planeta continua surpreendentemente activo. Temos quinhentos vulcões e uma erupção a cada duas semanas. Os terramotos são contínuos: um milhão e meio por ano, um moderado com 5 na escala Richter a cada seis horas, um grande tremor a cada dez dias. Os tsunamis correm pelo oceano Pacifico de três em três meses.
A nossa atmosfera é tão violenta como a terra debaixo dela. Em qualquer momenta há mil e quinhentas tempestades eléctricas em todo o planeta. Onze raios eléctricos atingem o solo a cada segundo. Um tornado rasga a superfície a cada seis horas. E a cada quatro dias uma gigantesca tempestade ciclónica, com centenas de quilómetros de diâmetro, gira sobre o oceano e provoca o caos na terra.
Os macaquinhos perversos que se chamam a si próprios seres humanos não podem fazer nada a não ser fugirem e esconder-se. Para que esses macacos possam imaginar que conseguem estabilizar esta atmosfera é preciso uma arrogância inacreditável. Eles não podem controlar o clima.
A realidade é que fogem das tempestades.
-E agora o que fazemos?”
(...)

Sem comentários: