quinta-feira, março 1

O vendedor de Passados

Autor:José Eduardo Agualusa
Editora:Publicações D. Quixote


Agualusa deslumbra pela poesia que imprime aos contos que escreve. Este pretende ser um romance, mas na verdade parece um conjunto de contos pausados por uma estética poética. Pena que o desenvolvimento da história tenha ficado um pouco á superfície, pedia-se mais deste ”vendedor de passados”. Sente-se uma fantasia enorme nas personagens. Só a osga a olhar de cima com pensamentos humanos não é original, pois já me tinha cruzado com personagem identica (em Maya, de Jostein Gaarder - Editorial Presença), aqui mais africana, mais húmida, mas suficientemente autónoma e original para se sustentar neste encadeado de vidas novas para desiludidos do passado e das raízes.
Agualusa toca ao de leve na nova sociedade angolana sequiosa de outro passado. Talvez seja esse o problema de Angola, e de Africa, querer muitas vezes esquecer as raízes de dor porque passou e passa. Erguer na dor é sempre difícil. Só possível com o acreditar…

(...)
“A última luz da tarde morria docemente na parede atrás.
«Uma luz como esta, acredita?, só encontrei aqui.».
Disse que era capaz de reconhecer certos lugares do mundo apenas pela luz. Em Lisboa, a luz, no fim da Primavera, debruça-se alucinada sobre o casario, e é branca e húmida, um pouco salgada. No Rio de Janeiro, naquela estação intuitiva a qual os cariocas chamam Outono, e que os europeus afirmam com desdém ser puramente imaginaria, a luz torna-se mais branda, como que um fulgor de seda, acompanhada por vezes de uma cinza húmida, que encobre as ruas, e desce depois lentamente, tristemente, sobre as praças e os jardins. Nos campos encharcados do Pantanal de Mato Grosso, de manha bem cedo, as araras azuis atravessam o céu, sacudindo das asas uma luz lúcida e lenta, que pouco a pouco pousa sobre as águas, cresce e se propaga, e parece cantar. Na floresta de Taman Negara, na Malásia, a luz e uma matéria fluida, que se cola à pele e tem sabor e cheiro. Em Goa, é ruidosa e áspera. Em Berlim o sol está sempre a rir-se, pelo menos desde o instante em que consegue furar as nuvens, como naqueles autocolantes ecologistas contra a energia nuclear. Mesmo nos céus mais improváveis, Ângela Lúcia descobrira brilhos a merecerem ser salvos do esquecimento; antes de ter visitado os países escandinavos julgava que, por lá, nos meses eternos do Inverno, a luz fosse uma mera conjectura. Mas não, as nuvens acendiam-se por vezes em largos clarões de esperança. Disse isto e levantou-se. Tomou um ar dramático:
«E no Egipto? No Cairo, já esteve no Cairo?, junto as pirâmides de Gisé?...» Ergueu as mãos e declamou: «A luz cai, magnifica, tão forte, tão viva, que parece pousar sobre as coisas como uma espécie de névoa luminosa.»
«Isso é Eça!» O albino sorriu: «Reconheço-o pelos adjectivos, da mesma forma que seria capaz de reconhecer Nelson Mandela só pelas camisas. São, suponho, as notas que escreveu durante a viagem ao Egipto» “
(...)

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