segunda-feira, janeiro 15

Crónica do Pássaro de corda

Haruki Murakami
1ª edição - Novembro 2006
Edição Casa das letras

Murakami, neste romance, desenha o som-do-destino, em forma de pássaro mecanico que acciona as suas marionetas num mundo interligado por acasos premeditados. Revela-se neste livro de sonhos o realce sublime das realidades vividas no sonho e as outras, ambas físicas e vividas com a mesma intensidade, ambas causa e efeito de uma realidade agregada.
É um universo-brinquedo-de-corda. ( Cri-Cri) é o som do mundo, da vida, do destino. Murakami tem uma habilidade espantosa de interligar o real com o irreal, como se fosse uma aguarela surrealista.
A guerra, continua a estar no subconsciente de Murakami, é ela que afinal orienta o contar do autor, marca indelével gravada no Japão, que atravessa gerações.
Surpreende a capacidade de ilustrar com gigantesca violencia a crueldade e a irracionalidade da guerra, e a capacidade da indiferença do homem, quando transformado em mecanismo bélico, descrevendo o homem-animal, com uma hiper-realidade devastadora.
Murakami, continua a surpreender (me) com a força das suas personagens e com a forma como elas se sustentam nas páginas de cada livro. É um romance de imagens, maravilhosamente visual.

(…)
- Senhor Okada - disse -, julgo crer que a partir de agora e nos tempos mais próximos entrará numa fase da sua vida em que muitas coisas irão acontecer. O desaparecimento do gato é apenas o início.
- Muitas coisas? - Repeti. - Coisas boas ou más?
Ela inclinou a cabeça como se estivesse a pensar. - Coisas boas e coisas más. Coisas más que à primeira vista podem revelar-se boas, e coisas boas que à primeira vista pareçam más e acabem por se revelar boas.
- Para ser honesto, isso tem o ar de um lugar-comum que se pode aplicar a toda a gente - confessei eu. - Não possui nenhuma informação mais concreta?
- É possível que aquilo que eu estou a dizer possa aos seus olhos não passar de um lugar-comum - replicou Malta Kano. - Mas, vendo bem, muitas vezes só se consegue exprimir a essência das coisas recorrendo a generalidades. Veja se entende isto. Não há dúvida de que as coisas concretas despertam mais a atenção das pessoas. Mas, na sua maior parte, não passam de fenómenos banais. Desvios inúteis, diria eu. Quanto mais nos esforçamos por ver à distância, mais as coisas se generalizam.
Baixei a cabeça em silêncio. Como seria de esperar, não tinha entendido uma palavra do que ela dissera.
(…)
Proxima leitura: Cemitério dos Pianos - José Luis Peixoto - Bertrand editora

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