terça-feira, outubro 16

canário

Rodrigo Guedes de Carvalho
ediçõesDom Quixote

Na escrita de Rodrigo Guedes de Carvalho (queira ele ou não, seja ou não “um mito urbano”*… confesso que isto de mitos urbanos é frase que vai para de lá do meu entendimento), sente-se o aroma de Lobo Antunes quando nos passeamos nas suas estórias. Canário é um livro de fugas e de silêncios , onde as personagens se prolongam na ânsia(dade) de se sentirem livres, quando afinal apenas estão presas à vida. O caminho literário de Rodrigo Guedes de Carvalho é no entanto especial, mesmo que matizado de ventos de outras vozes, sejam elas Pepetela, Lobo Antunes ou Saramago. O dialogo permanente do escritor ( não o narrador) que se esconde nas personagens é cativante, e denota a procura de um estilo . Fala de presos… Conta as estórias de presos, numa prisão sem grades, mas que sufocam na arbitrariedade dos acasos e dos instantes que determinam o caminho. Presos de vidas, nas vidas de cada um…O enredo desta narrativa inevitavelmente reflecte a imagem de cada um de nós. Toca de leve , no fosso profundo de uma mãe que se desarticula na incapacidade de interagir como seu filho autista, toca de leve no filho de uma mãe da vida, procriado no acaso de um encontro fortuito, toca de leve na angustia de um escritor que se perde no labirinto de ser escritor e personagem. Toca ao de leve na profundidade dos nossos silêncios, deixando a quem lê, a necessidade de repensar se estamos de facto presos aos acasos da vida, ou se os devemos (em)beber simplesmente como sendo o nosso inevitável caminho e de percebermos que a liberdade é apenas um sentir que nos abraça como a brisa de uma manhã junto ao mar, num dia ameno de serenidades…

*“da entrevista do autor onde refere o facto de o colarem a Lobo Antunes ser...um mito urbano...”… in Jornal de letras de 12 de Outubro de 2007

1 comentário:

http://lili-one.livejournal.com/ disse...

Estou a ler o "Canário" do Guedes de Carvalho, e, para quem sempre admirou tanto e em quem se nota uma influência nítida da escrita de Lobo Antunes, parece-me que neste livro, Rodrigo Guedes de Carvalho, o trata muito mal, ou eu não estou a perceber nada ou o Alexandre Vilar Raposo é o António Lobo Antunes, desancado pelo autor.