sexta-feira, outubro 6

Três homens num barco ( já para não falar do cão)

Três homens num barco ( já para não falar do cão)
jerome k. jerome
livros cotovia
edição 2004

Escrito nos finais do século XIX, foi com a surpresa do divertimento com que me deixei envolver na viagem e no relato de jerome, que aproveita a escrita para contar pequenas histórias. Não resisti a transcrever quase todo um capitulo, porque ele é o retrato exacto de duas personagens do meu clã familiar ( o meu pai e eu próprio, que a genética é cousa importante, tão importante que quase ouso a colocar no retrato o meu bisavô e avô paterno). Reza assim o retracto da família MaRo...
(...)

"Faz-me sempre lembrar o pobre do meu tio Podger.
Nunca se vê tamanha comoção numa casa como quando o meu tio Podger resolve pôr mãos à obra. Por exemplo, chegava do encaixilhador um quadro que ficava na sala de jantar à espera de ser pendurado; a tia Podger perguntava o que se ia fazer dele e o tio Podger respondia:
- Oh, deixa isso comigo. Não te preocupes, nem tu nem mais ninguém. Eu encarrego-me do trabalho.
E, aí, tirava o casaco e começava. Mandava a rapariga à rua buscar seis pence de pregos e depois mandava um dos rapazes atrás dela para lhe dizer que tamanho havia de trazer; e assim sucessivamente, até pôr toda a casa em polvorosa.
- Vá, vai buscar o meu martelo - gritava - e traz-me a régua, Tom; e preciso do escadote; e mais vale trazerem-me também uma cadeira da cozinha; e, Jim!, corre à casa do senhor Goggles e diz-lhe: "O pai manda cumprimentos e espera que esteja melhor da perna; e se faz favor de lhe emprestar o nível de bolha". E, oh!, Maria, não te vás embora porque preciso de alguém que me segure na lanterna; e quando a rapariga voltar, tem de sair outra vez para ir buscar um pedaço de cordão para quadros; e, Tom! - onde se meteu o Tom? - Tom, chega cá; quero que me passes o quadro.
E depois pegava no quadro, deixava-o cair, o quadro soltava-se do caixilho e, ao tentar salvar o vidro, o tio Podger cortava-se; e então punha-se aos saltos pela sala à procura do lenço. Não conseguia encontrar o lenço porque este estava no bolso do casaco que ele tinha tirado e, como não sabia onde tinha posto o casaco, toda a casa tinha que deixar de procurar as ferramentas para se pôr à procura do casaco, enquanto ele dançava pela sala e incomodava toda a gente.
- Mas será que ninguém nesta casa sabe onde está o meu casaco? Nunca na vida vi gente assim - palavra de honra. Seis! E nenhum consegue encontrar o casaco que eu tirei, ainda não há cinco minutos! Bolas, francamente...
Depois levantava-se e descobria que se tinha sentado em cima do casaco; e então exclamava:
- Oh! Já não precisam de procurar! Já o encontrei eu! Mais valia pedir ao gato que procurasse do que esperar que esta gentinha desse com alguma coisa.
E depois de se ter gasto meia hora a amarrar-lhe o dedo e de se ter encontrado um vidro novo e reunido as ferramentas, o escadote e a cadeira, de se ter trazido uma vela, ele fazia uma nova tentativa, com toda a família, incluindo a rapariga dos recados e a empregada, reunida em círculo em volta dele, pronta para ajudar. Duas pessoas tinham de segurar na cadeira, uma terceira ajudava-o a trepar lá para cima e a segurá-lo lá, uma quarta passava-lhe um prego e uma quinta estendia-lhe o martelo, e ele pegava no prego e deixava-o cair.
- Pronto! - dizia ele, numa voz magoada. - Agora desapareceu o prego.
E todos nós tínhamos de nos pôr de joelhos à procura do prego, enquanto ele ficava de pé, em cima da cadeira, a resmungar, perguntando se era para ficar ali a noite inteira.
Finalmente, quando se encontrava o prego, ele já tinha perdido o martelo.
- Onde está o martelo? Que é que eu fiz do martelo? Valha-me Deus! Vocês são sete, todos para aí embasbacados, e nenhum viu onde eu meti o martelo!
Encontrávamos-lhe o martelo mas entretanto já ele tinha perdido de vista a marca que tinha feito na parede, onde o prego havia de entrar. E todos nós tínhamos de nos empoleirar na cadeira, ao lado dele, a ver se a conseguíamos achar. E cada um de nós a descobria num lugar diferente e então ele chamava-nos parvos, todos um bando de parvos, e mandava-nos descer da cadeira. E pegava na régua, e voltava a medir, e descobria que tinha de saber quanto era metade de setenta e nove centímetros e setenta e nove milímetros a partir do canto, tentava calcular de cabeça e ficava furibundo.
Todos nós tentávamos calcular de cabeça, e todos nós chegávamos a diferentes resultados, e fazíamos troça uns dos outros. No meio da confusão geral, esquecia-se o número inicial e assim o tio Podger tinha de voltar a tirar as medidas.
Desta vez usava um pedaço de fio e, na altura crítica em que o velho louco se vergava sobre a cadeira, num ângulo de 45°, e tentava chegar a um ponto situado dez centímetros para além daquilo que lhe era possível alcançar, o fio escapava-se-lhe da mão e ele estatelava-se em cima do piano, produzindo um efeito musical do mais fino recorte, de tal maneira o corpo e a cabeça batiam em todas as teclas ao mesmo tempo.
A tia Maria dizia que não permitia que as crianças ali ficassem a ouvir uma linguagem daquelas.
Finalmente, o tio Podger conseguia localizar de novo a marca e colocava a ponta do prego sobre ela, com a mão esquerda, segurando no martelo com a mão direita. E, com a primeira martelada, esmagava o polegar e, uivando, deixava cair o martelo em cima dos pés de alguém.
A tia Maria observava mansamente que, da próxima vez que o tio Podger quisesse pôr um prego na parede, esperava que ele a prevenisse a tempo para que ela pudesse ir passar uma semana com a mãe, enquanto o trabalho estava a ser feito.
- Oh! Vocês mulheres! De tudo fazem uma confusão! - replicava o tio Podger, endireitando-se. - Que queres, os trabalhinhos deste tipo divertem-me!
E depois fazia mais uma tentativa e, à segunda pancada, o prego entrava direitinho pela parede adentro e metade do martelo ia atrás dele, e o tio Podger era precipitado de encontro à parede, com força quase suficiente para esborrachar o nariz.
Depois tínhamos de voltar a procurar a régua e o fio e novo buraco era feito; e, lá pela meia-noite, o quadro estava pendurado, todo torto e mal seguro, com a parede à volta que parecia varrida a tiro e toda a gente morta de cansaço e furiosa. Toda a gente excepto o tio Podger.
- Pronto! Já está! - dizia ele, descendo pesadamente da cadeira para cima dos calos da empregada e inspeccionando com um orgulho evidente a bagunça que tinha feito. - Quando penso que há pessoas capazes de chamar um operário para fazer um trabalho destes! "
(...)

1 comentário:

Homem da Luz disse...

Maravilhoso!
Obrigado por ter colocado este texto, deu-me vontade de ler o livro.