quinta-feira, novembro 22

O terrorista de Berkeley, California

Pepetela
Publicações D.Quixote

Pepetela não resistiu à tentação de tentar universalizar as suas personagens. Este novo detective deixa saudades de Jaime Bunda, esse sim enquadrado no seu meio, colorido com o “linguajar” que caracteriza as estórias e os cenários de Pepetela. Mesmo recorrendo a personagens que se movem nas minorias étnicas americanas, elas destoam da narrativa, numa cadência desconseguida, parecendo quererem ter uma vivência paralela àquela que o narrador impõe, recorrendo a um léxico que dificilmente as personagens entenderiam.
Pepetela conta uma história com enredo tecnológico, e também aqui se sente que o autor deambula por terrenos pantanosos ( não é seguramente um tecno-sapiens, e bem haja por não ser, pois assim não degustaríamos a sua poesia literária) .
Traça no entanto uma caricatura dos nossos tempo e da paranóia sobre o terrorismo e o fundamentalismo, onde todos se sentem presos e paralisados no medo, imaginando inimigos em tudo o que olha e se move. Pepetela parece divertir-se, deixando quase fugir a ideia que foi ele próprio que teve o impulso e o prazer da personagem principal de se fingir, num jogo perigoso, de terrorista.
Lê-se de um folgo só, porque a mestria do autor em nos enredar na sua estória, continua escondida em cada frase, como só ele sabe fazer…

1 comentário:

nini15 disse...

Discordo da crítica. O meio onde se inserem as personagens (social e tecnológico)é o menos importante da história...
Pessoalmente, retiro, traços marcantes e preocupantes dos nossos dias:
- a dificuldade em desenvolver verdadeira intimidade com o outro - por oposição ao desenvolver da tecnologia e ciência;
- a dificuldade da sociedade em geral entender qualquer expressão de pensamento divergente de padrões unanimes (por oposição à liberdade de comportamentos sexuais e outros mais exteriores, que é "modernaça";
- a patética "cegueira" da sociedade actual, que pensa que vê, mas não - como desenvolveu Saramago!