segunda-feira, junho 25

o som de um sorriso

Tenho os olhos a voar nos silêncios de uma noite escura, como uma nau que procura as estrelas que lhe segreda caminhos.
Sorrio silêncios, como só os olhos sabem gritar...

terça-feira, junho 19

com a lentidão de uma sombra nocturna

Retomo a escrita, com a lentidão do tempo, como as nuvens de verão a diluírem-se em desenhos de fantasia...
O cinzento do céu é o (meu) ponto de partida, para o azul que teima em queimar os meus silêncios,
Silêncios,,, silencio, que só as lágrimas retidas ( escondidas,,, na retina? em ti? em mim?) o apaga...

segunda-feira, junho 18

no desenho de uma miosótis rubra

Desenho,
com um lápis louco que se finge feiticeiro e me obriga ( qual escravo que no espelho se reflecte colibri) a imaginar todas as cores que não tenho...
Ah! Isto de percorrer as linhas do desenho ( miosótis rubras, irrequietas em aguarelas de mim) é muito mais perigoso que respirar labirintos...

domingo, junho 17

o Livro do Joaquim

Autor: Daniel Faria
Editora : Quasi

O livro do Joaquim é um livro inacabado, como é sempre inacabada a conversa com a morte.
Há muito tempo que não re-olhava as palavras de Daniel Faria. Sinto-me tão próximo do seu olhar que por vezes faço cerimónia em entrar no seu mundo , pois sinto-me aqui e ali, um profanador do seu espaço intimo. Julgo que todos os poetas morrem jovens, mas Daniel Faria foi como uma flor colhida antes do tempo , tal como este seu pequeno livro inacabado.
Senti-me em cada uma das suas palavras, como se sentisse o afago de uma despedida.

(...)
Eu não entro docilmente na noite serena, mas não odeio a luz que começa a morrer. O ódio tem a força de quem se despedaça. Eu tenho o sofrimento daquilo que se desfaz.
(...)

domingo, junho 10

desaparecidos!


Olhei-te. A ti Madeleine, a menina que grita, que se ouve, que se vê, dia após dia, na voz, nos olhares dos teus pais e de todos. Estejas onde estiveres, és uma menina amada, acarinhada, que nos ecoa de angústia. Alguém te escondeu, alguém te levou. Mas estás aí. A olhar-nos, a obrigar-nos a darmos a mãos e a partilhar a dor. A tua e a de teus pais. Mas o mundo tem mais meninos, querida Madeleine, tantos outros que tal como tu já lhes secaram as lágrimas.

Mas esses são diferentes.

Porque não sei eu o nome, dessa menina, ou menino que juntei ao lado da tua foto? Porque não sei sequer de onde veio?

Não te sei dar resposta querida Madeleine, mas gostava de a ter, gostava de te poder dizer o nome desse e de muitos outros meninos sem nome e sem voz.
Este nosso mundo, querida Madeleine anda inóspito, anda com a alma poluída de indiferença. Já não somos Homens, somos um animal fantasma que finge que sorri e que ama...

sábado, junho 9

A ilha das trevas

Autor: José Rodrigues dos Santos
Publicação: Gradiva


Não sei porque José Rodrigues dos Santos optou por classificar de Romance, este trágico e violento relato de Loro Sae. Não é a história de Paulino, é o retrato da insensibilidade Humana e de como o Homem tem escrito a sua História. Caminha no limite da crueldade e da indiferença.
José Rodrigues dos Santos, aqui é um repórter. Parece um livro de retratos de um holocausto. Violento. Violador do sentir!Custa-me a interiorizar a violência a que Paulino é subjugado. É difícil imaginar um Pai executar acto de tal violência e continuar, ele próprio vivo, humano. Paulino é um homem com medo. Medo de não viver. É legítimo? Não sei! A ilha das trevas relata isso mesmo. A escuridão e a escravidão do Homem em todo o seu esplendor!

terça-feira, junho 5

diálogos , ou os monólogos do silêncio

Passeio,
lento de azuis claros.
Passeio-te os olhos,
e
como quem pensa poesia, levo-te pela mão em aguarelas sépias, num devagar de memórias. Ausente.
Eu. Tu.
Distantes.
Somos.
Eu. Tu.
Distancia.
Margens de um mar perdido.
“Diariamente_____________olho-TE”. (*)
Eu. Tu.
Desenho memórias, como quem suicida as palavras e inventa nuvens para silenciar nos gritos,,,as dores.
Eu. Tu.
Num mar de silêncios.
Diariamente.
Distantes.



(*) in "o peso da intimidade" de Betty Martins

sexta-feira, junho 1

Sento-me, Passivo, No rés-do-céu, a inventar azuis e sorrisos, como quem desenha beijos com o pólen-de-borboletas…

o canto da missão

Autor: John Le Carré
Publicação: Dom quixote


Não é um livro sobre África, é um livro sobre a decadência do Homem, seja ele Ocidental , Oriental ou Africano. Não tem o ritmo nem a intriga a que Carré nos habituou. É uma escrita de um homem desiludido e angustiado. Denuncia a forma como continuamos, ( todos…africanos incluídos) a desenhar fronteiras num continente que nasceu para as não ter. Africa é, e será sempre um continente nómada asfixiado e agrilhoado em Países que na verdade não existem, nem nunca existirão. A zebra, animal mistério, Estranho com as suas listras berrantes, mas que se ocultam para um predador que não vê cores. A zebra é o paradigma da própria África, que continua a ser vista com olhos do ocidente, onde nada se encaixa, porque simplesmente é olhada por olhos estranhos!