sexta-feira, agosto 31

a chave

Junichirô Tanizaki
teorema

A chave, é um romance perturbante. Escrito com uma delicadeza extrema, adivinha-se uma perversidade escondida na sombra cínica de uma pudicícia incompreensível na nossa cultura ocidental. Os quatro personagens ( O marido, única personagem sem nome, Ikuko – mulher, Toshico – filha e Kimura-amante de Ikuko e namorado de Toshico) envolvem-se num jogo erótico , como se a vida fosse um jogo de sombras chinesas. São dois diários que se cruzam e onde ele ( marido) e ela ( mulher) incitam o libido de cada um sem assumirem a sua perversidade doentia, julgando que cada um o lê ás escondidas. A delicadeza e a dedicação que Ikuko finge possuir, possuindo o marido até á morte, ( como confidencia nas páginas finais do seu diário) transformam toda a beleza tradicional japonesa num relato de difícil digestão.
Tanizaqui escreve no entanto com um mestria de um notável contador de histórias, já que deixa que a imaginação do leitor transforme ou não o seu conto, numa leitura obscena e perversa. Tudo é implícito, e é essa mestria de insinuar uma história que torna fascinante a leitura de Junichirô Tanizaki.

quarta-feira, agosto 29

as cores do fim do dia

Hoje , ( no fim do dia) o céu diluiu-se num violeta escuro de tempestade. ( e o sol a sorri-se, escondido a misturar as cores , divertido…)

linhas de fuga

Gosto de desenhar o horizonte (fetiche meu!).
Quando o desenho (ou pinto) aproximo-me do Universo e oiço-o… ( é como olhar o céu, mas dentro do sonho… como se ele, sonho se escondesse do lado de lá, a fugir-me do Eu-inteiro!)

segunda-feira, agosto 27

ainda o acaso

O estado puro não pode coexistir com a esterilidade, estado puro implica harmonia, equilíbrio, estabilidade… Na esterilidade, ( como no vazio) o acaso torna-se improvável e sem ele nada se move…
In "apontamentos para um manual da serenidade" ( sem autor ), ou como os nossos passos devem procurar o equilíbrio na liberdade e para que esta seja pura, deve-se pintar de Universo…

quinta-feira, agosto 23

Um lugar sem nome

Amy Tan
Edição Casa das Letras ( editorial Noticias)


Escrito ao estilo de Isabel Allende , sobretudo na trilogia iniciada com o romance " a cidade dos Deuses Selvagens" ( que curiosamente elogia e promove o romance na capa), Amy Tan, transporta-nos para a selva de Myanmar ( ex-Birmania), onde um pequeno povo mártir, sonha com a invisibilidade, para poder sobreviver ao despotismo selvagem do poder que domina as terras da Burma. Sem esconder a feminilidade , que na verdade, transparece ( transborda?) nas pequenas" jóias escritas" sobre o olhar de uma mulher atenta e sensivel, o romance aborda de forma interrogativa a paranóia colectiva dos Reality shows, ao ponto de inquinar um pequeno povo que passa a ambicionar ser estrela de televisão e de ter os seus momentos de glória, abdicando da sua identidade e do seu crer ( a invisibilidade como forma de sobrevivência...Paradoxo de uma época poluida de visibilidades?).
A trama da estrada da Burma, é narrado pela alma ( nat) de uma guia que morre antes da viagem, mas que segue o grupo de amigos, na longa caminhada por um país de névoas e de sombras. Sem a subtileza da literatura asiática ( chinesa e japonesa), este romance, fica a pairar no imaginário, mesmo depois de colocado na estante. A luta do século XXI ( século XXI?? a luta eterna do homem!!! )pelos direitos humanos, a hipocrisia que envolve os governos, as nações e a própria humanidade, fica a fervilhar na angústia de uma realidade omnipresente que ofusca os pilares essenciais dos povos: a cultura e o sentir. Os constantes atropelos à dignidade humana, praticados pela junta militar e a caricata prisão domiciliária da Nobel da Paz, Aung Suu Kyi, encontram-se em constante cenário ( nas sombras?) nesta história rocambolesca á terra dos nats ( espíritos, almas?) zangados!

quarta-feira, agosto 22

genéticamente transformados pela cor
Vale do mondego
Montemor-o-Velho
Agosto 2007

Memórias das minhas putas tristes

Gabriel Garcia Marquez
Pubicações Dom Quixote


Memória das minhas putas tristes, não são memórias delas, mas dele. São um grito suave do peso da vida de alguém que se recria aos noventa anos de uma vida resignada e controlada por um gato que lhe comanda o lar. É a história de um amor terno, mas intenso, como é todo o amor platónico, que nos entra nas veias e controla a imaginação. É um romance que se desenrola nos editoriais de um pequeno pasquim que sobrevive de histórias que se escrevem com o sentir de alguém que olha o mundo que o rodeia, com o tempo das memórias. A confissão ( percorrer as memórias é na verdade um acto de confissão...) passeia-se no viver de uma comunidade que caminha com o drama do quotidiano e da difícil tarefa de sobreviver sem deixar de sentir.

terça-feira, agosto 21

o fascínio dos acasos

Acordei, crédulo que as palavras têm vida própria. Entram em nós ( na inquietude?) e tomam formas endiabradas sem pedirem licença.
Aparecem e desaparecem num jogo de escondidas em que o prémio é o horizonte-da-memória...
Assim não fosse e eu lembrar-me-ia de todas.
Por vezes mostram-se, passeiam na alma e depois desaparecem...não há esforço nem vontade que as acorde e as traga de volta.
Hoje surgiram-me ( do nada?) umas que andavam por aí em salpicos, a insinuarem-se até que se desenrolaram na desinquietação das sombras de uma verdade...

...o acaso é o sorriso de Deus e a essência da vida...o teu corpo é noventa por cento água e a tua vida noventa por cento de acasos...

sexta-feira, agosto 17

uma a uma

Percorro a curva do rio, com a lentidão dos olhos. Respiro-o. Sinto-lhe as cores. Uma a uma. Azuis. Todas.
Vagabundo-me, no longe ( é longe o passado?). As memórias são as minhas cores. Azuis. Todas...

quinta-feira, agosto 16

uma cávena ( vazia?) de palavras...

Fugiram-me as palavras ( ou as memórias?) aterrorizadas de serem “sentires vagabundos” melancólicos e mal tratados. Esvaziaram-se de sons, desavindas comigo ( ou eu com elas?). Zangadas ou não, mergulhei no poço, (descalço e nu de negritudes) e repesquei-as uma a uma, num puzzle desconexo, (retrato fiel do meu desencontro com o vazio e a vida) e soprei-lhes sussurros de perdão por inauditos mal tratos. Disseram-me depois ( à noite, entre estrelas e nuvens) que as não maltratei a elas mas a mim, porque isto de andar sempre vazio e sem rumo era coisa de louco ( ou de cobarde?), qual marinheiro de agua doce que se inventa em tempestades e aventuras que só o poeta sabe desenhar como reais.
Acordei ( ou dessonhei?) com a disposição clara de voltar ao convívio com as palavras e o desenho, (forma egoísta de não permitir a passagem o tempo e de me embriagar com o vento ou o mar e sentir-me, eu, igual a mim, num reflexo sem espelhos...)
O desencontro ( ou a paragem?) não me favoreceu, pois o tempo passou e eu não! Desperdício puro de uma lágrima que me era destinada para a vida e que deixei fluir sem lhe sentir cor, nem de saciar as sedes.
Disse-me o mestre que é preciso acordar vazio em cada amanhecer, para que o tempo caiba por inteiro no dia que nos calhou para descobrir e de nos maravilharmos em permanecia em consequência de irmos de OLHOS, mas o vazio que me entrou, sem a companhia suave das palavras que se sopram irrequietas foi outro, mais negro, mais pesado e usado de angústia.
Este que se me colou hoje no acordar, era esse outro vazio que o mestre nos disse em murmurejo sábio e sorriso matreiro, como quem diz uma verdade que só pode ser ser desnudada por cada um...
Fui á procura da minha, por isso voltei ao caminho e ás palavras que são quem o desenha...

quarta-feira, agosto 8

António Andrade Albuquerque
( Dick HasKins)
Edições ASA

Em dias tradicionalmente considerados de férias, o sentido da leitura muda, Muda o relacionamento com a escrita. Se o dia é de lazer, (des)ambicionado, também a leitura se transmuta num passar de horas, em deleite leve e ameno.
O Papa que nunca existiu, de Albuquerque, é um exemplo de história que nos transporta para esse "deixar ir" o tempo "ao som" de história escrita. António Andrade Albuquerque vai buscar o Quinto Império Pessoano e ” Agustinhiano” ( Agustinho da Silva) para situar em Portugal a nova era do espírito (santo), através de um menino precoce ( António) que calça as sandálias do Pescador por breves momentos, com a missão de abrir a porta a uma nova era espiritual, emanada por gentes lusas.
Não é um policial ao estilo de Dick Haskins, mas tem enredo de triller, onde a máfia “Vaticana” actua ( pelos vistos e por ironia), com a mesma incumbência de Judas, de, através da morte do Messias, cumprir o desígnio de um Deus .
Do ponto de vista literário, o autor sublinha com algum exagero a precocidade da personagem que lhe retira credibilidade.
Ressaltam as constantes repetições, de forma a não ficar duvida ao leitor ( ou ao escritor?) que António é um menino prodígio, que pensa como adulto, que fala como adulto, que age como um adulto, como se os dialogos e os pensamentos não coubessem por inteiro na personagem.
Encontra-se num dos discursos de D. António um exagero dogmático ao questionar se "Deus criou o Mundo", colocando Portugal , no centro geoestratégico para a difusão da sua mensagem, resvalando para uma hipotética teoria criacionista que começa a estar na moda e que não é coerente com a religiosidade apresentada pelo Papa que nunca existiu .

terça-feira, agosto 7