sábado, dezembro 29


no país de Alice
Dezembro 2007

Horto de Incêndio

Al Berto
Assirio & Alvin













Incêndio

se conseguires entrar em casa e
alguém estiver em fogo na tua cama
e a sombra duma cidade surgir na cerca do soalho
e do tecto cair uma chuva brilhante
contínua e miudinha – não te assustes

são os teus antepassados que por um momento
se levantaram da inércia dos séculos e vêm
visitar-te

diz-lhes que vives junto ao mar onde
zarpam navios carregados com medos
do fim do mundo – diz-lhes que se consumiu
a morada de uma vida inteira e pede-lhes
para murmurarem uma ultima canção para os olhos
e adormece sem lágrimas – com eles no chão

sábado, dezembro 22

desencontros numa esquina qualquer

Dei comigo, entre a esquina do horizonte, a correr sujo de sonhos e de tempo, como quem se desencontra com a sombra e se lembra de a colorir.

domingo, dezembro 16

Aracne

António Franco Alexandre
coleção- " poesia inedita portuguesa "
Assirio e Alvim

Até ao presente nunca me atrevi a comentar, neste ou em qualquer outro espaço, livro de poemas. Razões várias; mas a principal é a de entender que poema só deve ser explicado pelo poeta, o próprio, mesmo que sentido por muitos. Romance é diferente porque o autor se dirige ao leitor. O poeta não. O poema passa pela intimidade do poeta, e essa só ele a sabe, mesmo que a partilhe. Estou convicto que um poeta oferece a intimidade para se libertar dela, enquanto que um romancista tem o amimo de contar história.
Decidi-me assim , a deixar aqui, os livros de poemas que me vão acompanhando ( sem comentários ou notas sobre o escrito.
O poeta que aqui referencio, foi-me indicado em conversa amiga, entre o dia e a noite num cruzamento de sentires e de ideias, sobre os acasos e os momentos da vida.
Quase corei por nunca ter ouvido nem nome nem obra de António Franco Alexandre ( há desencontros inexplicáveis, sobretudo quando se anda uma vida com livros no imaginário). Nessa tarde trouxe comigo ARACNE. Não o vou comentar, apenas deixar um excerto do que me encantou, neste matemático que se metamorfoseou em homem, em poeta, em alma, sendo “no quase” ( no quase de Mário de Sá Carneiro) aranha…

(…)
A teia sem enredo é a minha ideia fixa,
puro cristal, como os da neve, abstracto,
tão claro como o mero abecedário
onde as palavras falam, sem barulho;
a recta, a espiral, e o nada
que só à filigrana se consente,
são todo o meu orgulho, e no final
ter desenhado esse lugar exacto
onde em segredo possa ser humano.

sábado, dezembro 8

O meu nome é Legião

António Loubo Antunes
Edição D. Quixote

Ruben A. Escreveu sobre Picasso em “Páginas IV” , …”foi indubitavelmente o maior criador estético e um dos maiores desenhistas de todos os tempos. Teve a grandeza de nunca cristalizar, de querer sempre mais, de vibrar em dissonância consecutiva, de dar gritos ao longo de telas definitivas.” Sinto o mesmo ao ler cada novo escrito de Lobo Antunes ( em edição ne varietur, com que o autor a partir de determinada fase, passou a doar os seus “romances” aos leitores).
O meu nome é Legião são vários contos, vários relatos com a morte, umas vezes na terceira pessoa, algumas na primeira. É um livro negro ( a primeira edição chega ao requinte de ter capa negra, cor que se adequa aos relatos sem esperança, deste livro de guetos e de becos sem saída..).
Ao ler as histórias ( todas elas com cenário de fundo o cerco pela policia ao Bairro rodeado de Figueiras bravas) recordei um álbum de fotografias de Eduardo Gageiro que durante muitos anos pousou como objecto na mesa de centro da sala de meus pais, Retratos a preto e branco, de uma miséria suja de bairros disformes e sem luz, onde uma criança espreitava por detrás de um muro , como quem se esconde de um labirinto, ou as vestes negras de um povo que chora a sua sorte, entre as cheias de 69, ou o arrastar sofrido de um povo crente, a rastejar milagres, junto do divino. Assim é também ” O meu nome é legião”, Retratos a preto e branco de uma miséria que persiste e insiste em renascer de geração em geração seja ela negra, branca ou mestiça.
Lobo Antunes sublinha que este novo romance é sobre o Amor. Repetindo Ruben A. “ A Eliot e Picasso falta-lhes amor, são vertebrados demais.” Ao ler lobo Antunes sinto o mesmo, só que neste caso sinto o Amor escondido em cada palavra que se escapa da narrativa e onde o autor se deixa ver e fala sobre ele. É o melhor que o estilo Antoniano tem, a escrita ao som de um monólogo onde o autor fala. Ler Lobo Antunes é ouvi-lo! Ser contemporâneo de Lobo Antunes é um privilégio. Ouvir as suas entrevistas é a melhor maneira de entrar no seu universo escrito. Quando leio lobo Antunes oiço-o ao fundo nas suas deambulações, é esse o seu ritmo de escrita. Quase me atrevo a sugerir à editora que passe a vender as novas edições com um suporte áudio das entrevistas do autor. Para as gerações futuras será certamente a melhor forma de entenderem o fabuloso universo escrito de Lobo Antunes.