terça-feira, janeiro 8

Rio da Flores

Miguel Sousa Tavares

Foi com expectativa que entrei nas páginas do relato da família Ribera Flores. Apesar do autor referir ser um romance histórico, ao contrário de Equador, não o senti, ou não o li como tal. É um retrato social de um quotidiano já longínquo. O cenário é histórico, a estória não. O cenário parece surgir como um acessório, para dar credibilidade ás personagens e ao enredo.
Diogo, Pedro, Amparo movimentam-se como numa peça de teatro, em que os factos históricos vão passando como se fossem autónomos, induzindo aqui e ali interacções com as personagens. O autor tira conclusões “futuristas” ( através de Diogo ou na própria narrativa), só obvias porque o autor tem conhecimento desse futuro, avalia com dados do seu presente, factos que na época poderiam ter outras interpretações e/ou outros desfechos, porque na época todos os caminhos do futuro estavam abertos. Há no entanto referências ditas históricas do autor que destoam na narrativa ( como afirmação repetida da deficiência mental do monarca, mera opinião do autor). Enfim, uma história romanesca, longe da intensidade dos romances de Alves Redol, José Cardoso Pires ou outros, que felizmente abundam na nossa literatura. Esperava mais de Miguel Sousa Tavares.
Equador marcou mais, como romance histórico, pois o cenário era mais actuante na trama, onde a estória, deambulava pela história , enquanto em Rio da Flores, parece haver um divórcio entre ambos, independentemente de Pedro ser um peão na Guerra Civil Espanhola, e de Diogo ser um inconformista, mas incapaz de interferir na luta pela liberdade do seu próprio País, surgindo como personagem incoerente. Falta arrojo literário a este novo romance de Sousa Tavares, o que é pena, face ás capacidade que efectivamente o autor já demonstrou ter.

3 comentários:

Anónimo disse...

Recebi "Rio de Flores" entre as prendas de Natal, prometendo-me 627 páginas prespassadas pela máxima "tenho medo que a liberdade se torne um vício". Quando cheguei ao fim e fechei o livro tinha na boca apenas o sabor dos velhos rebuçados de frutas da infância, inindistinguiveis todos apesar das suas cores trazerem a promessa não cumprida da diferença. Por entre descrições históricas quase nunca meramente factuais (a objectividade política não é nem nunca foi uma das marcas do autor) ainda que passando-se por tal, deambulam os personagens, habitantes de hoje tornados actores de época. Salva-se a liberdade que todos eles logram arrancar à vida, não a politica mero jogo de ilusões de uma liberdade maior, mas aquela que jaz neles e nos seus sonhos adormecidos, levando-os da aquiscência social ao encontro de si.

absolutamente alegna

jeremias disse...

alegena: gostei da alusão aos rebuçados...de multisabores...a açúcar. foi de facto essa a sensação que tive no mergulho que fiz a rio de flores.

Alba disse...

Também tive a sensação de que o MST adoptou uma escrita muito defensiva. Apostou muito numa certa coerência histórica e cedeu alguma da ousadia que havia oferecido em Equador. Quando fala da herdade familiar e mesmo quando refere a fazenda no Brasil se sente a cor e a luz, como sucedia no seu anterior romance, muito mais atmosférico.
Falta de arrojo literário, é isso mesmo!