quinta-feira, janeiro 31

Se voasse, não feria o mar

A morte é um eco a espreitar ao longe
( é a nossa própria voz a perder memórias, num gemido esquecido que nos
abraça os silêncios…)
Repete-se
escondido
a esvoaçar, deselegante nos vazios
( como o voo do morcego)
Por vezes vou com o eco de um navio-sem-velas-a-ferir-o-mar…
Se voasse,
podia ir, sem o ferir, sem o sangrar de sal,
como uma onda perfeita,
a espreguiçar-se de horizontes,
ao sol…

“quando morreres pede que te fechem os olhos, para te veres na vida, todo
por dentro”
Disse-me uma gaivota que se balouçava na onda e no vento…




(ou seria o eco?)

quarta-feira, janeiro 30

O animal moribundo

Philip Roth
publicações D. Quixote


O animal moribundo , é o retrato da continua decadência do homem como individuo, que só perante a morte parece encontrar motivo de percorrer em introspectiva o caminho que pisou.
É acutilante e frio o retrato de um professor universitário , obcecado pelo sexo, num egocentrismo verdadeiramente decadente. Virada a última página deste curto mas incisivo romance, fica a angustia de nos sentirmos rodeados de uma hipocrisia demasiado humana. Olhando para trás e para o hoje, fica a certeza que o homem evolui no seu próprio declínio . Animal eternamente moribundo , seria o titulo que mais se adequava a este retrato de uma sociedade que insiste em navegar sem rumo.

segunda-feira, janeiro 28

arvore de mim

Tenho esta mania
( louca?)
de me ouvir através das árvores

( O eco, da sombra?)
Só no embondeiro me sou autentico,

( mistura de terra e semente a abraçar o sol?)
Sou uma gota

( lágrima?)
Que bebe a terra em suor, com sedes de tempo, a crispar o fogo das memórias

( como um búzio perdido na areia a esconder os suspiros do mar…)

Oiço-te

(Árvore de luares ocultos?)

Eco…

( vultos?)

Oiço-me silêncios…

…têm sombra os sons do meu respirar….

sábado, janeiro 26

idades cidades divindades


A primeira vez da idade

A vez
que tive mais idade
foi aos cinco anos

Meu pai,
com solenidade que eu desconhecia,
perante seus superiores hierárquicos,
apontou e disse:
- Este é meu filho!
E deu-me a mão
coroando-me rei.
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quinta-feira, janeiro 24

uma primavera noctívaga, em tons de inverno

Amanheci pastor-de-estrelas-e-de-cores,
a ordenhar uma estrela.
Tinha a paleta vazia, enlutada de trevas-da-noite…
( no Inverno tudo é cinzento e as cores secam por chorar quimeras…)
Sonhei com uma noite de primavera , onde as cores se abraçavam em odores,
eu
pintava cada um deles, numa tela de flores…

chove-me a negritude da alma e eu ali,
pastor
a passear sibilos de andorinhas, numa noite escura sem cor...

segunda-feira, janeiro 21

deste lado onde

José Agostinho Bptista
Assirio & Alvim


Hoje vi os barcos

hoje vi os barcos.
eram brancos brancos abandonados
com o teu nome por dentro.

para onde vão estes barcos brancos brancos?

perguntei aos jovens marinheiros.
mas na sua divagação só existiam
fabulosas mulheres
portos portos ...........vento vento.

não vi lisboa.
disseram-se é um rio –

vai e queima o seu fado
vai e devasta as suas feiras
vai e rasga as suas tardes.

hoje sentei-me no tejo.
era um livro desordenado e sombrio com sangue
sangue no meio –

é o rosto da tua pátria
disseram os jovens marinheiros.
e era um rosto vermelho vermelho ..............doente
com vastas guitarras ao alto.

há sítios assim:
barcos brancos brancos abandonados comas tuas
mãos por dentro
cidades intermináveis com fabulosas mulheres
apodrecendo
portos portos.............vento vento.

hoje vi os lugares.
eram barcos barcos eram o tejo tejo
eram a minha pátria morrendo.

domingo, janeiro 20

escalada

subo a pulso-de-olhos
o fio, ténue da aranha que se estende ao fim-do-céu

pesa-me o olhar
e quebro o infinito
que se esvai do eu para o abismo


só o sol brilha, e reflecte-se na teia
( na vida?)
eu, caí da memória, como se voasse nas assas de uma gaivota-de-audouin,
longe de mim…




(A gaivota de Audouin é uma espécie confinada ao Mediterrâneo, que entrou nas palavras sem pedir licença, agarrou em mim e levou-me…)

sábado, janeiro 19

esculpir um segredo

Tenho um mistério para esculpir, fugido para além da esfera armilar ,
Esconde-se aquém de mim,
Ali,
entre a nuvem e o luar

( só o vazio não tem sombra…
Sussurra-me o vento , entre o voar da gaivota...)
É esse o teu mistério? A tua quimera? o teu segredo?

O mistério que me foge do desenho, é o ponto por onde esquiço o caminho, entre o vazio e a sombra.
Um ponto,
só,
sem regra de oiro, sem matemática, sem nada.

( sou escultor do ar…

sussurro-me eu, que já não sei o que sou, perdido no ponto,
sem saber se cheguei, ou se parti...
)

Não é a fantasia tão só isso, uma escultura de ar?
Não é o pensamento ou o sonho, não mais do que isso, um esquiço de ar?
Não é a vida, mais do que sucessivos respirares?
Tenho um mistério para moldar, que me estilhaça o olhar …

sexta-feira, janeiro 11

(in) definições

Sei,
com a convicção de um instante,
(Como é efémero um instante, no entanto é com a soma deles que se constrói o eterno…)
Que mania a tua de te interromperes, de saltares de uma coisa para a outra…
Sei, com a convicção de um instante,

(Do instante, porque a verdade passa-nos a correr como que a fugir e quando a queremos fixar já lá vai longe… é doida a verdade… só quando se cansa a apanhamos…)

Desculpa…eu continuo…
Sei, hoje que
( assim é melhor, é neutro, não tem interrogações existenciais…)
isto está difícil…
Dizia eu,
... o que me distingue dos outros animais, não são as palavras, nem a fala, tão pouco o pensamento
( mesmo que desordenado e irrequieto),
mas a forma como transformo o olhar em sentir…

terça-feira, janeiro 8

Apresentação da Noite

Al Berto

(…)
- um bar lembro-me de um bar e choraste
eu dizia-te que chorar é lembrarmo-nos de nós um instante
repara como o sal dos olhos esboça o singular destino pelas mãos abertas ao rosto
a cigana lera a mesmíssima coisa numa tarde em que passeámos de eléctrico
repara como as águas do rio se turvam de rímel
repara nos mapas desfocados da viagem imaginária
um bar?
terei eu dito que me lembrava de um bar?
(...)

in " apresentação da noite" edição Assirio & Alvim

Rio da Flores

Miguel Sousa Tavares

Foi com expectativa que entrei nas páginas do relato da família Ribera Flores. Apesar do autor referir ser um romance histórico, ao contrário de Equador, não o senti, ou não o li como tal. É um retrato social de um quotidiano já longínquo. O cenário é histórico, a estória não. O cenário parece surgir como um acessório, para dar credibilidade ás personagens e ao enredo.
Diogo, Pedro, Amparo movimentam-se como numa peça de teatro, em que os factos históricos vão passando como se fossem autónomos, induzindo aqui e ali interacções com as personagens. O autor tira conclusões “futuristas” ( através de Diogo ou na própria narrativa), só obvias porque o autor tem conhecimento desse futuro, avalia com dados do seu presente, factos que na época poderiam ter outras interpretações e/ou outros desfechos, porque na época todos os caminhos do futuro estavam abertos. Há no entanto referências ditas históricas do autor que destoam na narrativa ( como afirmação repetida da deficiência mental do monarca, mera opinião do autor). Enfim, uma história romanesca, longe da intensidade dos romances de Alves Redol, José Cardoso Pires ou outros, que felizmente abundam na nossa literatura. Esperava mais de Miguel Sousa Tavares.
Equador marcou mais, como romance histórico, pois o cenário era mais actuante na trama, onde a estória, deambulava pela história , enquanto em Rio da Flores, parece haver um divórcio entre ambos, independentemente de Pedro ser um peão na Guerra Civil Espanhola, e de Diogo ser um inconformista, mas incapaz de interferir na luta pela liberdade do seu próprio País, surgindo como personagem incoerente. Falta arrojo literário a este novo romance de Sousa Tavares, o que é pena, face ás capacidade que efectivamente o autor já demonstrou ter.

sábado, janeiro 5

no desenho de um labirinto

Tenho o coração forrado de vazios, a jorrar cores no infinito,
como um labirinto que se espraia na foz de um rio, a fingir-se horizonte…
O coração queima em combustão lenta,
o tempo e quimeras,
em pingos de areia que desenham dunas e desertos...

quinta-feira, janeiro 3

cigana?

Deixa fluir o cabelo pelo teu corpo,
a desnudar-te,
a alma…

( estás tão bela assim!

Desenhada em sorriso púrpura nas sombras da minha noite… )

quarta-feira, janeiro 2


no silêncio da sombra
janeiro 2008
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palavras-lágrima

Escondo a angustia nas lágrimas que seco, no abafo dos ruídos da vida,
e olho ( ME)
( retrato-vazio-na-ausência-de-um-rio-de-desaguações-infantis)
Só o som existe
sem estética,
( imoral)
sem vento…
( que pena!)
que me liberte do sal!