quinta-feira, março 27

o salto

Distrai-me! Acordei com os olhos-do-amanhã…
( logo eu,
que ando sempre perdido no tempo e nas desmemorias,
a saltitar qual acrobata em fio de cetim)
Surpreso, dei comigo a viver o que não me pertencia, mas a nuvem que me levou,
luzia,
( azuis-de-mim)

Se a não seguisse, perdia-me…

Ah, como é bom sentir-me no quadro,
pintado de Arlequim!

Decidi! Fico aqui!
( nem perto , nem longe,,,,Aqui! Sem Hoje!)

quarta-feira, março 26

Lavagante : encontro desabitado

José Cardoso Pires
Edições Nelson de Matos

Sendo um diálogo entre dois amigos, é na verdade um monólogo de um homem solitário, que se passeia na memória, entre os fumos e a bebida, degustada com a lentidão que só a solidão sabe imprimir. Sente-se essa lentidão, vive-se essa solidão...o narrador não consegue esconder como sendo sua…Sem darmos conta, sentimos José Cardoso Pires a passear-se só entre a névoa dos bares, sentimos o odor do tabaco e elevar-se em nuvem , e sem darmos conta aperta-se o coração de saudade, de um Cardoso Pires, Inteiro, Real, A contar-nos as suas, e as nossas histórias
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segunda-feira, março 24

ilha ( moçambique)

O som da memória,,,canta-me

( histórias?
Ao longe…violinos-de-chopim…)
fragmentos,
pequenas estrelas,
filamentos de prata,
preta,
branca,

Em terras-do-indico…

Há um mar à janela,
(Oiço?
De longe…flautas de pan…)

e velas
(Açafrão, caril?)
na Estrela do sul,
( ilha?)

AZUL!

quarta-feira, março 19

no desenho do tempo

O vento, é o meu silêncio a acordar-me
e eu,
vou com ele, libertino a navegar,
( devagar…)
entre o eco…
( o eco, sou eu a falar?
É a minha memória a desenhar?
É o reflexo de uma bailarina cigana que passou por aí sem me olhar nem sorrir, a luzir numa lágrima de árvore que se despenteia ao luar?)

Oiço-te,
( canta,,,? A memória do tempo?)
e pinto-te. Real
( como uma águia,,, A voar…)

domingo, março 16

searas

ceifo, searas-de-sonhos,
decepo-os, disseco-os e ato-os,
em laçadas-de-sol…
(ilusão?)

incomodam-me
(vestidos de cores que me enfeitiçam e me sopram ventos-do-ali…)

ceifo-os
com foice-lágrima e mergulho-os em mim,
( de raiva)

só o índio-de-cabelo-azul,,, persiste,
só a gaivota,,,existe…
(a criança ri!)

e o cavalo?
e o cavalo?

( foge

em galope

op-op...

crina-de-porcelana,
branca,

sonho?

de madeira, veloz de
ventos...

op-op

alísios?)

e eu?
e eu?
papagaio de papel a voar…
ceifo, o cordel
seiva-de-mim
a vaguear…

segunda-feira, março 10

silêncios ao fundo, diluidos...( esquecidos?)

Mastigo o silêncio no palato-mortalha de mim,

oiço os caniços e o vento,
(como um marinheiro que procura a estrela, para lá do fim…)

escuto a guitarra-cigarra-que chora,
Cidade-véu que me atordoa e me engole sem fado...
( susurrando baixinho,
vai e-m-b-o-r-a . . .)

Homem alado, perdido na ilusão
de não ser Homem-multidão...

O silêncio rói
e o que sinto,
( trovão)
espraia-se diluído no infinito,
como um búzio esquecido
no eco de mim...

Atlas das nuvens

David Mitchell
Publicações D. Quixote
Andei durante mais de dois meses a namorar o “atlas das nuvens” , passava por ele, olhava-o e imaginava-lhe as histórias que guardava. Assim se passaram os dias. Ao fim de poucos, tinha já um caminho traçado para o livro, “Será o próximo!”
Não foi! Outras leituras ocuparam-me a prioridade e mesmo já depois de adquirido e colocado na prateleira dos livros a ler, aguardámos até agora, pacientes, ele e eu. A história que tinha para ele, desarrumou-se e desfez-se nas primeiras páginas … lentamente , surpresa a trás de surpresa fui bebendo as quatro histórias que se deslaçam pelos séculos da humanidade, passada e futura, num vertiginosa viagem pelo tempo. Escrito com uma mestria invulgar, senti que estava a "ver "um livro de banda desenhada, criada por dois dos mais profícuos autores franco-belgas, François Bourgeon (Passagers du vent ou Le cycle de Cyann) e Moebius (sobretudo na sua saga do Incal).
O enredo, ( os enredos, em que os acasos costuram as várias tramas que se vivem e tempos diferentes ) traça um retrato da humanidade e da sua evolução, obrigando o leitor a rever vários conceitos sobre si próprio e do seu papel nesta enorme torre de Babel e sobretudo obriga-o a questionar-se sobre o efectivo significado da liberdade e do livre arbítrio, quiçá eternas quimeras da humanidade…