sexta-feira, maio 9

o quase fim do mundo

Pepetela
Publicações d. quixote

O que me atrai em Pepetela, para além da sua escrita inconfundível é a forma como as histórias de África nos entram na alma. Sejam quais forem as personagens, África está ali. Corre-lhe nas veias e na tinta. Os seus dois últimos livros fogem no entanto a “esse” PEPETELA, a "essa" África. Compreendo que um autor tente mudar de espaço e de sentires, mas o autor também deve entender ( o autor que escreve e fala com o leitor como é o caso de Pepetela) que por vezes o leitor se sente desenraizado nestes novos cenários. Este “o quase fim do mundo” , é em África sim, mas podia ser em qualquer ilha deserta onde meia dúzia de náufragos, foram ter desamparados pelas ondas. Pepetela coloca "meia dúzia" de humanos e um cão sós no mundo. Num mundo desaparecido ( pelo fundamentalismo religioso e racial), onde só o reino vegetal e os mortos do antes da “coisa” têm cabimento. O fundamentalismo está na génese deste (quase) fim do mundo. Um fim do mundo incongruente, mesmo num romance literário. È um enorme risco para um autor, inventar um destino para o fim do mundo, deixando um sem fim de respostas por dar, tornando o cenário onde as personagens se movem, inverosímil ( não é intelectualmente possível imaginar um cidade ficar num instante sem seres vivos, sem que aconteçam acidentes graves…explosões, fogos etc etc.. e tudo ficar intacto. A natureza tem movimento para lá da existência da vida biológica… (o autor esqueceu esse pequeno pormenor universal).
A meio do romance , há no entanto um frase que me deixou incomodado , porque revela um fundamentalismo racial, que não se enquadra na imagem que tenho do escritor, como artista literário e “pensador sociólogo”, foi o de atribuir ao colonialismo europeu, o facto das tribos africanas se tatuarem conforme os seus grupos raciais, para o colonizador mais fácilmente os distinguirem. É um delírio anacrónico e antropológico que me desgostou.