sexta-feira, maio 27

explicação

Não que seja necessária explicação, mas escrever , o acto de escrever, advém de vários estados de alma. 
Quase todas provêm de desequilíbrios, de vazios, que as palavras vão preenchendo, vão aconchegando o sentir, deixando que ele ( sentir ) flua, como uma espécie de transpiração ( há a transpiração da pele, física e a outra, a transpiração do eu, seja ele alter-eu ( desgosto de alter-ego) ou o eu-próprio . 
Resumindo, para que não se alongue o inexplicável, há escrita que emerge para nos equilibrar o gelo que nos congela em angustias, ou escrita que nos aquece no aninho da serenidade com que nos gravamos nos caminhos. 
Cientificamente falando a escrita rege-se pela lei universal da termodinâmica, no meu caso chamar-lhe ia da termodinâmica da alma . Resumindo o resumo, é tudo uma questão de equilíbrio e de harmonia interior...

passeios

Passeio-me ,
em respirações,
na periferia-do-eu,
espécie de pele-de-mim que me transpira memórias,
gota a gota, ( chuva da alma?)
passeio-me nos pigmentos da fronteira que me-mura-o-olhar e desenho-me (reflectido?
dissecado nos pontos que me informam?)...
Eu,
que não tenho castelos,
nem fortalezas,
fragmento-me na lentidão do espaço que me habita o sentir ( labirinto?)
Eu,
que me obrigo a fluir numa teia-espiral que se expande ( que se espanta?), tenho esta periferia que me nevoeia o ver e que me limita o ser.
Respiro-me na lentidão do sopro,
e liberto-me ( perdido ?) na infinitude do que o-olhar-me-marulha...
(fundo-me
no auto retrato dos passos que me compactam o eu?).

como nasce um poema


comecei a escrevinhar os pensamentos quando me dei conta que eles me esvoaçavam da memória. tudo servia , guardanapos, bilhetes de comboio, tudo servia para apontar uma pequena frase que depois no sossego da melancolia se estendiam noutras palavras e se transformavam de esquisso em desenho. vezes muitas perdi esses pensares, porque a memória sempre foi uma sombra a brincar ao esconde esconde.
hoje aconteceu-me algo estranho. caminhava na serra da boa viagem ( figueira da Foz), e uma dessas sombras, atropelou-me e surgiu assim clara , tal qual , datada e tudo ( 2008) e na falta de papel, não fosse esconder-se vez outra, deixei que se transformasse em som. foi assim que nasceu um poema hibernado no frio de um poço...


deixei tudo
tudo
a casa
o cão
a garagem
o gato
os pratos
as panelas
os garfos
as facas
Tudo
deixei tudo
o caminho
o pai
a mãe
a irmã
os filhos
a mulher
TUDO
um a um
deixei tudo
a paisagem
as flores
as folhas
as árvores
tu__________do!
um a um
gota a gota
passo a passo
deixei tudo
os livros,
as letras
as palavras
os gritos
a voz!
TUDO
deixei tudo
os silêncios
os ecos
as nuvens
o céu
o sol
a cor
TUDO
a musica
o jazzzzzzzzze
a fantasia
a poesia
TUDO
e
entrei
lentamente
na negritude do vazio
devagar
suavemente
não fosse eu fugir de mim

video
 

quinta-feira, maio 12

somas

Conto os passos,
Somo-os ...
e DIGO-OS no silêncio das sombras que me acordam o amanhecer do ver.

Nem todos são meus, ( os passos), mas conto-OS, um a um , para desenhar caminhos.
Nem rectos ( os caminhos) nem curvos,

para diante,

sempre a fugirem do instante do presente, carregados ( coloridos?) de memórias ( fardo pesado para quem voa junto ás estrelas travestido de gaivota que se resguarda do cinzentos das tempestades…)

Conto, um a um ...

Digo-OS , um a um , como quem canta histórias que se ondulam no horizonte do universo.
Conto-OS, OS passos, como quem respira serenidades…

Novelo de horizonte

Sonhei,
com tela,
colorida ,
 .                                               bordada.
Pairava na parede,
leve,
ondulada ( nuvem?).

Não sei que pintor,
tão pouco quem bordou a imagem esculpida
no pensamento ,
entre o olhar e o sentir?,

 no esvoaço de nevoeiro ( sangrado em arco iris) ?,

 no espaço-tempo que nos habita a memória suspensa em tatuagens de pólen de borboleta?



Dizia eu,
(varredor de palavras e de cores),
que sonhei com quadro colorido para além do desenho, muito para de lá da cor que o transmutou do sonho para o sonho,
entre a linha que o bordou,
costurada ponto por ponto,
nó seguido de nó em novelos de linha do horizonte,(*)
e o olhar.

* ( aquela linha que nos entra pelo olhar até à alma e que só existe em nós, porque a desenhamos no Eu , num hábito de gravamos a fronteira do ir, ou do querer ir para o de-la do Ele ( caminho?) , navegando em nós-de –alísios,
ventos serenos ou não… conforme o nosso sonho,
porque a linha que nos sutura ( pinta ?) a tela  que nos enforma, se desenha na simplicidade ( serenidade?) da ambição do nosso Eu ir para diante movida pela respiração ( transpiração?) do sonho).

Nota do gravador de linhas: Não se percam no (*), concentrem-se apenas na vossa linha...do horizonte, pois cada uma tem alma própria, e a minha bebeu labirintos matinais, pelo que não deve ser levada a sério...

sem morada

Não tenho morada porque parti. 
ontem procurava, 
hoje descubro estilhaços de tempo, como quem se abre ao destino na suavidade dos passos...
sem a angustia do passado, carrego nos passos a espectativa do deslumbramento. 
parti para diante, vazio de memorias. 
a minha morada é o instante...

onde vivem os poetas?

Papá, papá, onde vivem os poetas?
A pergunta ficou até hoje, gravada no eco.
Não que não tivesse resposta mas porque, na certeza  que pergunta assim feita do nada por filho criança, tinha jeito de armadilha.
Tivesse eu , incauto dito.
nas nuvens
ele criança, teria desenhado um enorme sorriso de escárnio e ripostado com gozo ,
nas nuvens?
se vivessem nas nuvens chovia poesia e não água!
Ou tivesse eu fugido para o refugio do banal e dito convicto ,
na lua
ele ,
na lua?
se fosse na lua ficavam lá presos . os poetas não inventam foguetões para irem à terra.
Por isso deixei a pergunta a esvoaçar entre cá e lá ( seja onde for o cá ou o lá , qualquer que seja o lugarejo encavalitou-se no tempo à espera que o sorriso escarnoso se fosse adocicando de idades)
hoje já pai, o filho, não tenho forma de lhe esconder resposta e sei pelo convívio que os poetas habitam uma caixa. É verdade que nem em todas as caixas pernoitam  poetas,
mas sim com toda a certeza é numa caixa onde se dedicam à agri(cultura).
semeiam todo o dia, (noite incluída que poeta não dorme ou quando dorme semeia em ganas de fúria),
palavras
e ficam por aí a pairar ( daí a nuvem, ou a lua) á espera que a palavra flore para lhe colherem o sentido, o aroma ou o desenho…