9 de abril de 2005

ousar

Tenho uma mania absurda de falar com as árvores.
Não sei a causa.
Talvez o seu olhar, silencioso e permanente, quase eterno que se transforma em sabedoria omnipresente-de-sombras-cúmplices …
As árvores são pastoras de sonhos.
Discretamente presentes, olham-nos em abraços de mãe.
São uma espécie de guarda zeloso que nos permite a dádiva da liberdade, mas que nos olham e nos apontam sentidos, enquanto nos abrigam na sombra…
Oiço-lhes os murmúrios que se escondem em mim, apenas e só, por estarem ali, naquele preciso espaço que nos cruza o acaso, a existirem da terra, das raízes, da luz e do ar.
Uma árvore, protege-nos o sonho e do sonho…
Em criança, subia ás árvores para as ouvir, lá do cimo.
Hoje oiço-lhes as raízes.
É nas raízes que está a vida, não nas flores.
As flores são obreiras da vida, mas são as raízes que as alimentam, e no entanto estão ali a suportar, todo o peso da existência, escondidas nos silêncios-de-luz…
As raízes-da-alma, (nossas) também estão escondidas e temos, vezes muitas, a ousadia de crescer sem as ouvir…
Hoje a árvore que se dança no meu jardim, disse-me, sem segredos, toda autoridade, para experimentar viver um dia inteiro sem tempo…” só assim te podes encontrar…”, “ deixa que se misturem todos os instantes da tua vida, como se fossem um mar”, “ não te esqueças de estar atento, e ver em que cor ele se transforma…
Tentei!
Devo ter feito tudo ao contrário!
Só me vi menino, a brincar com todas as cores ao mesmo tempo sem me preocupar em dar-lhes nome…
Vou tentar novamente, talvez encontre outros instantes que se passeiam no rio…

7 comentários:

  1. Almaro, voltei a infância, o pomar, toda a família reunida...
    Tenho saudades, você me fez recordar de todos...
    As cores...Azuis..sempre!
    Bjs
    NANE

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  2. Eu sempre achei que as árvores cresciam para baixo e não para cima. Em cima o que se vê é apenas a beleza exterior. Mas a interior, a da sabedoria, a da vida , é a que está escondida. Em baixo. Na terra.

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  3. Minhas as árvores...com quem falo e com quem choro...
    Como teu é esse rio...
    Sempre; bshell

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  4. Foi um óptimo começo! Tenta novamente! Muitos instantes estão por encontrar! ;) Beijo.

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  5. sempre o menino a olhar tudo, a reclamar os sons, as cores, os movimentos.

    beijinhos.

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  6. Que lindo Almaro! Adorei :) Eu costumo falar mais com as árvores pequeninas. O meu marido tem uma coleção de quase 60 bonsais que é a alegria do nosso jardim :) E não acho nada absurdo falar com elas. Beijokas grandes, Betty

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  7. Se calhar não correu mal o "exercício". Talvez o mais importante tenha sido essa recordação. Assim como a raíz das árvores suportam a vida, também a infância suporta a nossa existência.

    E tenho saudades da minha.

    Beijinho enorme e boa segunda-feira *

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