terça-feira, fevereiro 27

Imperivm

Autor:Robert Harris
Editora:Editorial Presença


Há muito tempo que não lia um romance de Robert Harris, na verdade só ainda tinha lido A Pátria, há já largos anos. Da intriga pouco recordo, mas está presente a forma como me envolvi na História. Gosto de romances Históricos, sobretudo porque me obrigam a pesquisar fontes para confrontar a realidade com o conto. Impérium trouxe-me ao conhecimento uma personagem que me fascinou. Cícero. Devia conhecê-la. Confesso a minha ignorância. Se me tivessem inquirido na rua, naquelas abordagens traumatizantes que atestam o conhecimento das pessoas, provavelmente tinha-me engasgado, e tinha simplesmente saído um tímido…Filósofo. Foi. Mas na verdade foi sobretudo um Politico. Moderno. O que mais me fascinou neste relato foi a consciência que afinal só evoluímos tecnologicamente. Há dois mil anos actuávamos e agíamos, com a mesma frieza, com o mesmo oportunismo com que agimos politicamente e civicamente na vida da nossa Urbe. A leitura desta história contada com simplicidade, mas com um dinamismo estonteante, levou-me a descobrir a figura de Cícero e de dar comigo a ler “As Catilinárias ( edições 70) e “Dos deveres” ( edições 70). É verdadeiramente fascinante. Pena que os nossos deputados não passem uma vista de olhos sobre estes documentos. A hipocrisia e a ambição está lá toda por inteiro, mas com o brilho da intelectualidade, cousa que infelizmente tem faltado a esta nossa Republica!
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Chamo-me Tirão. Durante trinta e Seia anos fui secretário pessoal do estadista romano Cícero. Uma tarefa que começou por ser excitante, para depois se ir tornando espantosa, árdua e, por fim, extremamente perigosa. No decorrer desses anos, acredito que ele passou mais tempo comigo do que com qualquer outra pessoa, incluindo os próprios familiares. Assisti às suas reuniões privadas e fui correio das suas mensagens secretas. Registei por escrito os seus discursos, cartas e trabalhos literários, até a poesia; um tal dilúvio de palavras obrigou-me a inventar uma escrita abreviada, a chamada estenografia, um sistema que continua a ser usado para
Registar as deliberações do Senado e pelo qual me foi atribuída, há pouco tempo, uma modesta pensão. Esta, juntamente com alguns legados e a generosidade dos amigos, é suficiente para me manter durante a reforma. Não sou muito exigente. Os velhos vivem do ar e eu sou muito velho: terei perto de uma centena de anos, segundo me dizem
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domingo, fevereiro 11

Alentejo Blue

Autor:Monica Ali
Editora:edição Caderno

Aguardei com expectativa este segundo livro de Monica Ali. Esperei a edição de Alentejo Blue, para adquirir também o seu primeiro livro "Sete mares e treze rios". Espero sinceramente que o primeiro me entusiasme mais do que o segundo.
Talvez a minha descendência alentejana tenha sido a culpada da quase nula interactividade com que me defrontei nas páginas deste romance. Quando mergulho num livro sou uma espécie de parasita que se cola à história e parte dela para imaginar,,, vezes desenhos, outras sentires, e não raras, perfumes.
Esbarrei nas primeiras páginas de Alentejo Blue, com castanheiros de cortiça e não com sobreiros. Ficou-me a duvida se seria erro da autora ou da tradução. Continuei a tentar envolver-me no ambiente mas cheguei à triste sensação que tudo era estrangeiro.
O ambiente, os autóctones e os outros, tudo ali se encontra deslocado. Talvez o erro seja apenas do título.
Perdi-me no desinteresse da história e dei comigo a arrastar-me nas páginas que insistiam em parar, ausentes de vontade . Mau começo para a nova chancela da ASA.
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Fechou o computador e decidiu não passar por mais interrupções durante as suas manhãs. Foi para o terraço pegando no seu livro e olhou lá para fora por cima do jardim para os carvalhos ao fundo, com os seus troncos vermelho-vivo onde a cortiça tinha sido recolhida, com os seus ramos cobertos de musgo que se abria, estendendo-se em direcção de tempos remotos."
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quinta-feira, fevereiro 1

Cemitério de pianos

José Luis Peixoto
Bertrand


Quando era menino coleccionava cromos, cousa normal, lembro-me de uma ou outra colecção vagamente, uma ou outra imagem diluída, excepto uma, a do nosso corredor de maratona Francisco Lázaro. Sempre olhei este homem como símbolo, ou retrato do português. Voluntarioso, combativo, criativo e azarado, eternamente azarado…um pouco mais de asa…
Foi com curiosidade que agarrei neste romance. Primeiro porque adivinhava mudança de estilo do autor, depois pela história imaginada de um homem que me acompanhou o imaginário.
O livro, são dois em um. Um, a vida da família de Lázaro, outro a corrida, que se vai desfragmentando ao ritmo da respiração e dos passos. Eu também corro e sinto na respiração os pensamentos espaçados que me invadem o querer de ir mais longe e mais depressa. Há uma interacção parecida com Lobo Antunes, mas mais esclarecida, mais desenhada, talvez por envolverem menos vozes. Surpresa é a cor e a luz com que Luís Peixoto se deixa envolver. Digam o que disserem, Lisboa tem uma cor única que nos entra na pele. Neste romance, Luís Peixoto deixou a solidão Alentejana e deixou-se abraçar pelos ventos saloios e pelo sol. Sol meigo que não procura o escuro da sombra.

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A luz da manhã não sente os vidros limpos da janela no momento em que os atravessa, pousando depois nas notas de piano que saem da telefonia e flutuam por todo o ar da cozinha. A luz da manhã, pousada nas notas de piano, detém-se, pontilhada, nos reflexos dos azulejos brancos da parede, nos cantos da mesa revestidos por fórmica, gotas de água que se suspendem no rebordo das panelas lavadas e viradas sobre o lava-loiças.
A minha mulher passa. Não repara na agitação invisível e luminosa de notas de piano que deixa à sua passagem. Leve, passa com as mangas arregaçadas até aos cotovelos. Sem reparar, leva a claridade da manhã no rosto. Entra no corredor. A sua pele brilha debaixo das sombras. O s seus passos abafados pela alcatifa não se distinguem do silêncio. "
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Próxima leitura: Alentejo Blue - Mónica Ali