sexta-feira, dezembro 22

O senhor Henri

Gonçalo M. Tavares
Editorial Caminho
1ª edição 2004

Talvez seja o pior dos inquilinos do Bairro de Gonçalo Tavares. Mergulhado constantemente no absinto, torna-se repetitivo e invulgarmente pouco criativo, chegando a tornar-se massudo e incomodativo, como qualquer ébrio que se prese. Pode passear-se por este bairro sem bater na porta do Senhor Henri, a menos que se queira sentir a volatilidade do absinto.
(...)
"
O senhor Henri estava sentado no banco de jardim a pensar se o seu corpo se levantaria para ir beber um copo de absinto.
O senhor Henri disse: a minha alma já se levantou.
O senhor Henri olhou depois para o corpo, tentando localizar o próprio rosto, mas não conseguiu.
... há partes do meu corpo que só posso ver com os meus olhos, e há outras que só posso ver com a memória.
... é como se a memória tivesse olhos, e mais antigos que os outros dois.
O senhor Henri depois calou-se.
E o senhor Henri, depois de um breve silêncio, disse: o certo é que a minha vontade já bebeu um copo de absinto, e eu não.

..." a minha vontade já se encontra, neste momento, mais bêbada que eu.
…vou, pois, apanhá-la - disse o senhor Henri.

quinta-feira, dezembro 21

Ao Contrário das Ondas

Urbano Tavares Rodrigues
Publicações Dom Quixote
1ª Edição Novembro 2006

Há uma actualidade gritante em cada novo romance de Urbano Tavares Rodrigues. A desfuncionalidade da família, como elemento orientador no crescimento dos filhos, o colapso de todo um sistema que aos poucos vai perdendo valores, sem se descortinar o sentido do futuro. Uma juventude que cresceu desacompanhada pós vinte cinco de Abril, é ruído de fundo deste romance, escrito e sentido por um homem que continua atento no olhar…
(...)
“« A vida corre ao meu lado como água muito lisa e que não molha. Vejo as outras, os outros a receberem as prendas do destino, boas e más, eu vou secando, quase sozinha, planta esquecida até pelo vento.»
As notícias que lhe dão do Manuel Joaquim são péssimas. Ultimamente decidiu ir para a casa do pai e parece que está a envenenar-lhe a existência. Faz dívidas enormes, tira-lhe notas da carteira, vai pedir dinheiro emprestado aos amigos dele. Tudo para a droga e para o álcool. Namoradas, ninguém lhas conhece. Está a tornar-se um marginal. Pior: um farrapo. Perdeu toda a vergonha.
Lembra-se de como ele era diferente, do que dele esperavam, por volta dos seus quinze anos. Quando começou a pintar. Até fazia poemas. Embora não fosse grande aluno na escola secundária, ia passando... Depois, foi o que se sabe: a mesada que o pai lhe dava, gastava-a em erva, em heroína, e deu em roubar coisas lá de casa, chegou a empenhar as jóias da mãe, desapareciam quadros, faianças, peças raras de mobiliário.
Agora é ainda pior, parece que surripiou o cartão dourado do pai e falsificou várias vezes a sua assinatura, fez compras milionárias, para vender tudo ao desbarato e gastar o produto em droga. Com Sabina não fala. Excepto uma vez em que se abriu e lhe contou tudo, os furtos, a ausência de interesses, o desgosto de viver, uma espécie de rancor pelo mundo. Andava magríssimo, quase não comia, deitava-se num sofá e adormecia, babava-se, fazia dó e causava asco.
Ajudara-o, levara-o a um médico. Iniciou então uma cura de desintoxicação, melhorou muito, fisicamente. Depois tornou ao mesmo. E estas cenas repetiram-se, provocando na mãe um grande cansaço e até desalento, até desinteresse, vontade de se ver livre dele.
«E agora - como somos contraditórios! - lamento que tenha trocado a minha casa pela do pai, fora da minha protecção . »”
(...)

segunda-feira, dezembro 11

A fórmula de Deus

José Rodrigues dos Santos
Edições Gradiva
1ª edição - Outubro de 2006

Não podia deixar de gostar deste romance. Parte de uma concepção do Universo muito idêntica àquela que nos meus passos (à procura do que estamos realmente aqui a fazer, qual o porquê de ser como realmente somos e não de outro modo), vou descobrindo o conforto de um ponto de vista. Chega a uma conclusão que dificilmente chegarei. Não consigo interiorizar que o Universo se encontra pré definido com objectivo expresso de criar a vida, e sobretudo para dar origem à inteligência humana. Há uma tentação no pensamento humano que converge para ser ele o ponto fulcral da existência. O universo não existe em função do Homem. O homem é que tem que entender qual a sua função do Universo.
É no entanto um livro que abre portas e nos coloca na obrigação de questionarmos o que vemos, mesmo não sabendo explicar as leis que nos comandam. Eu dei comigo a ouvir atentamente o que
o Palhaço de Dom Quixote me ia contando.
(…)
“Shunryu Suzuki disse: no espírito do principiante há muitas possibilidades, mas estas são poucas no espírito do sábio.”
“O que quer dizer com isso?", perguntou Tomás, sem perceber qual a relevância desta afirmação naquele contexto.
"Se vocês forem sábios, saberão que há um momento para tudo", indicou Tenzing. "Este é o momento para o chá."
O visitante mirou a sua chávena com ar desalentado, não se achava capaz de tomar aquela zurrapa sebosa. Deveria dizer alguma coisa? Ou deveria engolir e permanecer calado? Se rejeitasse o chá, estaria a quebrar a etiqueta tibetana? Haveria um modo específico de o fazer? Como proceder afinal?
"Mestre", decidiu-se. "Não tem mais nada para além deste…uh… chá?”
"E o que deseja que não seja chá?"
"Não sei... não tem nada para comer? Confesso que, depois da grande viagem de hoje, sinto alguma fome." Mirou Ariana. "Tu também tens fome?"
A iraniana fez que sim com a cabeça.
O bodhisattva emitiu uma ordem em tibetano e o monge volatilizou-se de imediato. Tenzing permaneceu calado, a sua atenção fixada na chávena como se o chá fosse, naquele instante, a única coisa importante em todo o universo. Tomás ainda tentou sondá-Io com algumas perguntas sobre o que aconteceu em Princeton, mas o anfitrião pareceu ignorá-lo e apenas quebrou o mutismo uma única vez.
"Um ditado Zen diz: tanto a fala como o silêncio transgridem."
Ninguém mais falou enquanto o tibetano tomava o seu chá. O monge que trouxera o chá reapareceu entretanto. Desta vez a bandeja não trazia o bule, mas duas tigelas fumegantes. Ajoelhou-se junto dos visitantes e entregou a cada um uma tigela.
"Thukpa", disse, com um sorriso. "Di shimpo du."
Nenhum dos dois percebeu, mas ambos agradeceram. "Thu djitchi."
O monge voltou a apontar para a tigela.
(…)

(…)
"Umas vezes penso que a vida não tem valor, é uma coisa insignificante. Eu vou morrer e a humanidade não sentirá a minha falta. A humanidade vai morrer e o universo não sentirá a sua falta. O universo vai morrer e a eternidade não sentirá a sua falta. Não passamos de uma irrelevância, simples poeira que se perde no tempo." Inclinou a cabeça. "Mas, outras vezes, penso que, afinal, todos nascemos, com uma missão, todos desempenhamos um papel, todos fazemos parte de um grande esquema. Pode ser um papel minúsculo, pode parecer uma missão irrisória, talvez até a consideremos uma vida perdida, mas, feitas as contas, quem sabe se coisa tão minúscula se poderá revelar uma migalha crucial para a concepção do grande bolo cósmico." Arfou, cansado. "Somos minúsculas borboletas cujo frágil bater de asas tem talvez o estranho poder de gerar longínquas tempestades no universo."
Tomás ponderou estas palavras. Estendeu o braço e apertou a mão fria do pai.
"O pai acha que alguma vez poderemos desvendar o mistério de tudo?"
"De tudo, o quê?"
"Da vida, da existência, do universo, de Deus. De tudo.."
Manuel suspirou, a fadiga tomando conta do rosto, os olhos a começarem a pesar-lhe.

quinta-feira, novembro 23

Ontem Não te vi em Babilónia

António Lobo Antunes
Publicações D. quixote
1ª edição Outubro 2006


Curiosamente ( e ironicamente, uma vez que são autores que nutrem antipatias mutuas) a empatia para com António Lobo Antunes foi idêntica com a que tive com Saramago. O primeiro livro que me ofereceram de Saramago foi o “ Ano da Morte de Ricardo Reis”, (prenda do Pai que me sabia afeiçoado a Pessoa e que provavelmente já desconfiava que o desdobramentos do eu, para ver o eu inteiro, era caminho que eu seguia…). Não o consegui ler, julgo que na altura não passei da primeira página, e quando assim é , quando me arrasto nas letras, perdido nas frases, esqueço o livro, (mas Pai é Pai e insistiu em Natal seguinte com a Jangada de Pedra e daí em diante, outros). Lembro-me que na altura o coloquei na prateleira, algures junto aos livros não prioritários, que para se ler um livro é preciso afinidade, e na altura não estava afim.Não me recordo como o livro saiu da prateleira e viajou para a mala de trabalho, que nessa altura viajava muito. Fiquei de tal maneira preso ás paginas de Saramago que dei comigo a ter pena de as virar e ficava a saboreá-las como quem degusta um vinho do Porto-velho de xistos e de sol. Com António Lobo Antunes o processo foi idêntico, mas levou mais tempo a entrar no seu universo literário, culpa minha que tentei ler livros da sua ultima fase,( que farei quando tudo arde?) sem passar pelas notáveis fases intermédias.
“Ontem não te vi em Babilónia” acaba por ter sido o primeiro livro que li desta sua ultima fase, (que segundo o proprio deveria ter sido única), por inteiro, com o prazer de ler e de me deixar ir no movimento da caneta e da insónia relatada a várias vozes, com diversos sentires.
Na verdade não é um romance, ou melhor não é um romance na sua forma tradicional de contar uma História e essa história ter personagens que a vivem. Neste livro o processo foi ao contrário, é o livro que cria as personagens. O livro é na verdade o cenário (protagonista) principal, que se escreve na noite e que vive na noite. As personagens escrevem-se, as personagens são a ponta da caneta, a insónia é a do autor, que provavelmente incomodado com o latir de cães desacordou no livro, a na necessidade do livro. Uma insónia (sabe quem a já teve), alonga o tempo, tudo se arrasta numa lentidão como quem gira á volta de um vazio. “Ontem não te vi na Babilónia “, gira à volta de uma criança que se pendura em corda de enforcado numa macieira e deixa em repouso ( caída,,,,morta) uma boneca na relva, que a mãe corta doentiamente.As personagens tem o ritmo a insónia permite e repetem-se numa lenga-lenga que nos envolve ( vezes, em angustia) de tal forma que sentimos o tempo nas páginas que se lêm com o prazer de descobrir o António e a sua mestria de traçar imagens literárias únicas.O livro nasce já com morte anunciada ( que sabemos no fim que anunciada hora e tudo).
(…)
(cinco da manhã e acabou-se, a única coisa que me dizem é que: cinco da manhã e acabou-se sem que eu compreenda o que se acabou, contem-me, cinco da manhã e então, no caso de não precisarem de mim, posso dormir, não posso? )
(…)
desabafa a personagem…
Sabe-se que é um livro que só tem uma noite, e as personagens também o sabem e apressam-se a partir das quatro da manhã ( aliás o capitulo mais conseguido do livro-romance) a acelerar a sua própria escrita. É um livro que se constrói, como se as personagens escorregassem na tinta e tomassem forma ( como fantasmas das páginas).
(…)
-Não se vai embora você?
impaciente comigo, o seu livro quase no fim visto que dia, guarde os papéis, a caneta e levante as sobrancelhas da mesa onde desenha as letras torcido na cadeira, quatro da manhã graças a Deus, quase cinco, acabou-se, na janela diante da sua uma senhora numa cadeira de baloiço que há-de cobri-lo com o xaile, você não imaginando que a morte uma pessoa real, sem mistério a defender-se do frio, o seu nome
- António
ao mesmo, tempo que um barulhinho no vestíbulo, cochichos que o procuram na casa, espreitam o corredor, não o acham, os homens de casaco e gravata junto a si e um martelo, uma pistola, uma lâmina
(quatro horas da manhã graças a Deus, quase cinco)
e não tem importância visto que o seu livro no fim, tantos meses para chegar aqui e duvidando se chegaria de maneira que alegre-se, olhe a janela onde a senhora da cadeira de baloiço
-António
(…)
O António ( o Antunes,,,o Próprio) revela-se aqui e ali, como maestro, obrigando as personagens a escrever, aparecendo várias vezes no auge da insónia “( continua a escrever) “ como que obrigando-se à escravatura da escrita, esquecendo-se por vezes que é ele e não a personagem que escreve, relevando ao leitor o seu processo criativo , a forma como experimenta as palavras, como lhes tira o som e a imagem, como as apaga ,ou como escrevendo com a pressa de não deixar fugir uma ideia que se sobrepôs à cena, a sobrepõe para não se esquecer dela, para mais tarde a rever e a colocar em sitio certo. Sitio esse que acaba por não ser encontrado ficando tudo como está, para gozo do autor e nosso, que entendemos o seu divertimento e damos connosco a sorri e a pensar no silêncio ( grande sacana, a gozar comigo!)
(…)
Há momentos, palavra de honra, não se compreende o motivo mas pesa, sente-se dentro o
(ia escrever incómodo e não incómodo conforme não incómodo conforme não tristeza, não dor, como se traduz isto, não sei)
deviam chover lágrimas quando o coração pesa muito e há momentos palavra de honra que pesa
(para já fica assim)
(…)

De tudo ficou-me gravada a imagem do silêncio, escrita desta forma que só Lobo Antunes consegue:
(…)
Isto porque no outono ninguém consegue dormir, vamo-nos tornando amarelos da cor do mundo que principia em setembro debaixo do mundo vermelho, o silêncio deixa de afirmar, escuta, demora-se nos objectos insignificantes, não em arcas e armários, em bibelots, cofrezinhos, não somos a gente a ouvi-lo, é ele a ouvir-nos a nós, esconde-se na nossa mão que se fecha, numa dobra de tecido, nas gavetas onde nada cabe salvo alfinetes, botões, pensamos
- Vou tirar o silêncio dali
e ao abrir as gavetas o outono no lugar do silêncio e o amarelo a tingir-nos, as janelas soltas da fachada vão tombar e não tombam, deslizam um centímetro ou dois e permanecem, na rua os gestos distraídos da noite transformam-se num fragmento de muralha ou na doente que faleceu hoje no hospital abraçada à irmã de chapelinho de pena quebrada na cabeça, estremeceram em uníssono, a cama ou uma garganta um som qualquer
(como descrevê-lo?)
(…)

quarta-feira, novembro 8

O último Papa

Luis Miguel Rocha
Saída de Emergência
1ª edição Outubro 2006


Confesso ( já que falamos de igreja) que comprei este livro, impelido pelo Marketing associado à sua publicação. (coisas modernas,,, e agressivas que nos entram no subconsciente e nos controlam de tal forma que nos convencemos senhores do livre arbitro ). Li em várias publicações referência ao “ Último Papa”, livro revelação, etc, etc, e não resisti. Não conhecia o autor, nem a temática me atrai, depois de ter lido e relido o consagrado Morris West ( autor que passei a ler desde jovem depois de ter ficado preso no filme “As sandálias do Pescador” que fui ver , porque via todos os filmes de Anthony Quinn, actor que me tocou como Zorba, livro que nunca li, mas que me aguarda na prateleira, para quando me sentir suficientemente distanciado do filme)
Não gosto de livros que se escrevem para se venderem. Os livros vendem-se porque o autor decide partilhar a história que lhe viveu nas palavras, não se escrevem por encomenda, nem com atributos comerciais, isso não são livros, são consumíveis…
Este enferma de vários pecados, como não sou critico literário, nem coisa parecida, refiro aqui neste meu espaço, apenas um ou outro aspecto que me incomodou, como os detalhes sobre factos históricos, escritos em jeito de enciclopédia barata, que quanto muito mereciam uma nota do autor, para estrangeiro ler ( discrição do convento de Mafra, Os três pastorinhos, e tantos outros factos assinalados no texto, que podiam ser escritos por qualquer estudante do secundário com acesso à Internet…); A referência à morte de Sá Carneiro, é introduzida na trama sem sequência ou consequência na história de uma lista que causa demasiadas mortes, sem se perceber em concreto a real importância dessa lista.
Quanto muito serve, o livro, para guião de um filme, não para um Livro, para se ler no prazer de saborear o sentir e as imagens das palavras…

Revela também a insensibilidade do autor para as pequenas coisas…alguém neste País bebe vinho do Porto para matar a sede ????

(…)
"" Vai beber o seu Porto?" pergunta Rafael no meio do nada. Há muito que não se ouvia a sua voz. Sarah desvia o olhar para ele. Aquilo não vem nada a propósito, mas a sede não segue momentos oportunos, instala-se quando bem entende e pede atenção imediata. "


(…)

“O silêncio volta a tomar conta daquele salão, algures debaixo do Convento de Mafra, devorando as palavras e transformando-as em teorias que Sarah canaliza à sua maneira e Rafael à dele. Ainda que a maior parte das revelações de Raul sejam do seu conhecimento.
"Já no segundo conclave de 1978, o ano dos três Papas, não correram riscos e elegeram alguém que pudessem controlar" recomeça Raul. "Escusado será dizer que acertaram na mouche. Não só era um Papa totalmente manipulado pela cúria, como, a posteriori, conseguiu uma relação fantástica com os fiéis. "
"Não fazia essa ideia de João PauloII.
"Ninguém faz. Mas ninguém em boa fé o pode censurar. Primeiro porque recebeu um aviso muito sério em 1981, apesar do plano original ter contemplado um afastamento permanente e não um conselho. E depois porque o Vaticano, indirectamente, colocou cerca de um milhar de milhões de dólares no bolso do Solidariedade."
"Solidariedade?"
"Um sindicato polaco, criado em Gdansk, que acabou por conseguir derrubar o regime comunista instaurado no pais. Com fundos do Vaticano e dos americanos. "
"Sempre o comunismo como alvo" reclama Sarah.
"Sim. Não são apenas os americanos que vivem obcecados com os comunistas. O Vaticano também. "
"Mas não respondeu à minha pergunta. Porque é que quem matou o Papa não guardou os papéis? Era o que eu faria. "
"Repara" continua o pai num tom esclarecedor. "O Papa não morreu pelos papéis que tinha na mão. Apesar disso, um dos mandantes teve o cuidado de retirá-los posteriormente dos aposentos do Papa. Entregou-os ao executante que rapidamente os levou para fora do Vaticano. A ordem era para os destruir, mas ele nunca o fez. "
"Porquê?"
"Boa pergunta. Penso que para ganhar vantagem sobre os seus adversários. Ou mesmo para salvaguardar a sua vida se, no futuro, os mandantes quisessem descartá-lo. "
"Okay" diz Sarah, abanando a cabeça em sinal de entendimento. "Então está na hora de irmos ao porquê. Porque é que mataram o Papa?" "Vai beber o seu Porto?" pergunta Rafael no meio do nada. Há muito que não se ouvia a sua voz. Sarah desvia o olhar para ele. Aquilo não vem nada a propósito, mas a sede não segue momentos oportunos, instala-se quando bem entende e pede atenção imediata. "

segunda-feira, novembro 6

O Senhor Valéry

Gonçalo M. Tavares
Edições Caminho
1ª edição Abril 2002



Entrar no Bairro de escritores de Gonçalo Tavares, é entrar num universo de filosofia admirável. São pensamentos (na linha do autor), mas pensamentos que se tornam personagens. Têm nome e desenham. É um universo poderoso, como poderoso é qualquer pensamento que questiona e se desinibe na infantilidade de ser inteiro e ingénuo…
É o admirável mundo dos poetas, que vivem a poesia no respirar do olhar.
Passear neste bairro, de ilustres escritores ( personagens que encarnam pensamentos) é uma aventura de interrogações sobre a condição humana e sobre a bizarria do nosso quotidiano, que é obrigatório não perder...

(...)
“O senhor Valéry era pequenino, mas dava muitos saltos.
Ele explicava:
- Sou igual às pessoas altas só que por menos tempo.
Mas isto constituía para ele um problema.
Mais tarde o senhor Valéry pôs-se a pensar que, se as pessoas altas saltassem, ele nunca as alcançaria na vertical. E tal pensamento desanimou-o um pouco. Mais pelo cansaço, no entanto, do que por esta razão, o senhor Valéry um certo dia abandonou os saltinhos. Definitivamente.
Dias depois saiu à rua com um banco.
Colocava-se em cima dele e ficava lá em cima, parado, a olhar.
- Desta maneira sou igual aos altos durante muito tempo. Só que imóvel.
Mas não se convenceu. “
(...)

quarta-feira, novembro 1

Passageiros em transito ( novos contos para viajar)

José Eduardo Agualusa
1º Edição – Setembro 2006
Publicações D. Quixote

Não é normal ficar preso a um livro na primeira página, Por uma capa, é menos raro, vezes há que me entram pelo olhar ( os livros e as capas) e ficam agarrados à mão e ao afecto, como uma criança que nos olha e nos provoca uma tempestade de sentires, Mas na primeira página, não recordo acontecer. Este, de Agualusa, li-o de uma só vez, numa ida “balancé-balancé”, pendulado em caminhos de aço e de ferro até Lisboa. Contos de viagem, para uma viagem. Quase todos de África, lugares de África, mesmo os que se escoam em cidades outras, há uma África inteira nas páginas de Agualusa. Pena que alguns dos contos estejam formatados para páginas de revista ou jornal e perdem-se no livro, por parecerem inconclusos, imaturos, esquiços de um desenho inacabado…
Ficou-me no olhar, um quadro por pintar, num deserto amarelo, onde o sol desenha rugas no ar, passa uma mulher morena, vestida de branco, numa bicicleta de azul, lazúli, ao fundo advinha-se, planta única de desertos ( welwitchia mirabilis) que cresce lá para os lados de Namibe.

O passado é como o mar: nunca sossega. As casas encolhem, como os velhos, ao passo que as árvores crescem sem parar. Quando regressamos, decorridos muitos anos, aos lugares da nossa infância encontramos árvores gigantescas e sufocando de terror à sombra delas as casas minúsculas que um dia foram nossas. Mal reconhecemos a cama de bonecas em que dormimos quando éramos crianças, ou o quintal, que sempre julgámos ser imenso, e que tem, afinal, apenas dois palmos de fundo.
O meu pai dizia-me:
- A vida é uma corrida, meu filho. Quem olha para trás enquanto corre arrisca-se a tropeçar.
Eu não olho para trás. Avanço por vezes de olhos fechados, e tropeço, como os outros, e eventualmente caio, mas não olho para trás. Nunca fui pessoa de cultivar saudades. Não colecciono álbuns de fotografias, e jamais guardei pétalas secas entre as páginas de velhos livros. Sigo sempre em frente. Quando me perguntam para onde vou encolho os ombros. Rio-me:
- Adiante”

quinta-feira, outubro 19

O Homem é tonto ou é mulher

O Homem ou é tonto ou é mulher
Gonçalo M. Tavares
Campos e Letras
Colecção: Instantes de Leitura - n.º 31
1ª Edição Abril 2002

Não aprecio alguns dos olhares com que Gonçalo Tavares desenha a sua escrita, mas cativa-me o estilo. À falta de outra classificação chamar-lhe-ei estilo “pensativo”. Não é poesia, nem ficção, nem romance, nem dramaturgia,,, são pensamentos irrequietos dos vários eus que lhe vivem nas letras e que se lhe soltam das mãos. Escreve divertido. Sente-se em cada frase, em cada página, um enorme sorriso de gozo escondido. É o divertimento (interior) que detecto, nos inúmeros e multifacetados escritos de Gonçalo Tavares, que me atrai, mesmo que não veja a vida do mesmo ângulo com que ele a olha!
(...)
“Gosto de viajar quando o mundo dorme
porque assim consigo ver as coisas a respirarem naturalmente.
Só se é natural quando se dorme.
Quem acorda, acorda os instintos de sobrevivência.
É melhor andar por cima da terra quando ela dorme, do que quando ela quer sobreviver.
Quando a Natureza dorme podemos correr À vontade pois será impossível tropeçarmos, será impossível sermos lentos ou demasiados rápidos.
O nosso ritmo é o certo.
Tudo vive no seu sítio e nós observamos, acordados, as coisas do alto.”

(...)

“Um dia um professor de física pediu-me para calcular a energia libertada no choque do corpo de um menino que caíra da altura de 50 metros.
Eu respondi-lhe que se o menino fosse mesmo menino nunca chegaria ao chão, mais que não fosse por teimosia.
As crianças são muito teimosas, toda a gente sabe.
Têm a mania de contrariar.
Se lhes dizem: faz isto!
é mais do que certo que eles não o fazem.
Está-lhes no sangue.
Por isso é que eu respondi aquilo ao professor de física.
- Se o peso do corpo quer obrigar o menino a cair, é certo que ele vai contrariar essa ordem e não vai cair; isto parecve-me lógico, não é?
Pois é: Resultado: chumbei!
Uns broncos estes professores!”

(...)

sexta-feira, outubro 6

Três homens num barco ( já para não falar do cão)

Três homens num barco ( já para não falar do cão)
jerome k. jerome
livros cotovia
edição 2004

Escrito nos finais do século XIX, foi com a surpresa do divertimento com que me deixei envolver na viagem e no relato de jerome, que aproveita a escrita para contar pequenas histórias. Não resisti a transcrever quase todo um capitulo, porque ele é o retrato exacto de duas personagens do meu clã familiar ( o meu pai e eu próprio, que a genética é cousa importante, tão importante que quase ouso a colocar no retrato o meu bisavô e avô paterno). Reza assim o retracto da família MaRo...
(...)

"Faz-me sempre lembrar o pobre do meu tio Podger.
Nunca se vê tamanha comoção numa casa como quando o meu tio Podger resolve pôr mãos à obra. Por exemplo, chegava do encaixilhador um quadro que ficava na sala de jantar à espera de ser pendurado; a tia Podger perguntava o que se ia fazer dele e o tio Podger respondia:
- Oh, deixa isso comigo. Não te preocupes, nem tu nem mais ninguém. Eu encarrego-me do trabalho.
E, aí, tirava o casaco e começava. Mandava a rapariga à rua buscar seis pence de pregos e depois mandava um dos rapazes atrás dela para lhe dizer que tamanho havia de trazer; e assim sucessivamente, até pôr toda a casa em polvorosa.
- Vá, vai buscar o meu martelo - gritava - e traz-me a régua, Tom; e preciso do escadote; e mais vale trazerem-me também uma cadeira da cozinha; e, Jim!, corre à casa do senhor Goggles e diz-lhe: "O pai manda cumprimentos e espera que esteja melhor da perna; e se faz favor de lhe emprestar o nível de bolha". E, oh!, Maria, não te vás embora porque preciso de alguém que me segure na lanterna; e quando a rapariga voltar, tem de sair outra vez para ir buscar um pedaço de cordão para quadros; e, Tom! - onde se meteu o Tom? - Tom, chega cá; quero que me passes o quadro.
E depois pegava no quadro, deixava-o cair, o quadro soltava-se do caixilho e, ao tentar salvar o vidro, o tio Podger cortava-se; e então punha-se aos saltos pela sala à procura do lenço. Não conseguia encontrar o lenço porque este estava no bolso do casaco que ele tinha tirado e, como não sabia onde tinha posto o casaco, toda a casa tinha que deixar de procurar as ferramentas para se pôr à procura do casaco, enquanto ele dançava pela sala e incomodava toda a gente.
- Mas será que ninguém nesta casa sabe onde está o meu casaco? Nunca na vida vi gente assim - palavra de honra. Seis! E nenhum consegue encontrar o casaco que eu tirei, ainda não há cinco minutos! Bolas, francamente...
Depois levantava-se e descobria que se tinha sentado em cima do casaco; e então exclamava:
- Oh! Já não precisam de procurar! Já o encontrei eu! Mais valia pedir ao gato que procurasse do que esperar que esta gentinha desse com alguma coisa.
E depois de se ter gasto meia hora a amarrar-lhe o dedo e de se ter encontrado um vidro novo e reunido as ferramentas, o escadote e a cadeira, de se ter trazido uma vela, ele fazia uma nova tentativa, com toda a família, incluindo a rapariga dos recados e a empregada, reunida em círculo em volta dele, pronta para ajudar. Duas pessoas tinham de segurar na cadeira, uma terceira ajudava-o a trepar lá para cima e a segurá-lo lá, uma quarta passava-lhe um prego e uma quinta estendia-lhe o martelo, e ele pegava no prego e deixava-o cair.
- Pronto! - dizia ele, numa voz magoada. - Agora desapareceu o prego.
E todos nós tínhamos de nos pôr de joelhos à procura do prego, enquanto ele ficava de pé, em cima da cadeira, a resmungar, perguntando se era para ficar ali a noite inteira.
Finalmente, quando se encontrava o prego, ele já tinha perdido o martelo.
- Onde está o martelo? Que é que eu fiz do martelo? Valha-me Deus! Vocês são sete, todos para aí embasbacados, e nenhum viu onde eu meti o martelo!
Encontrávamos-lhe o martelo mas entretanto já ele tinha perdido de vista a marca que tinha feito na parede, onde o prego havia de entrar. E todos nós tínhamos de nos empoleirar na cadeira, ao lado dele, a ver se a conseguíamos achar. E cada um de nós a descobria num lugar diferente e então ele chamava-nos parvos, todos um bando de parvos, e mandava-nos descer da cadeira. E pegava na régua, e voltava a medir, e descobria que tinha de saber quanto era metade de setenta e nove centímetros e setenta e nove milímetros a partir do canto, tentava calcular de cabeça e ficava furibundo.
Todos nós tentávamos calcular de cabeça, e todos nós chegávamos a diferentes resultados, e fazíamos troça uns dos outros. No meio da confusão geral, esquecia-se o número inicial e assim o tio Podger tinha de voltar a tirar as medidas.
Desta vez usava um pedaço de fio e, na altura crítica em que o velho louco se vergava sobre a cadeira, num ângulo de 45°, e tentava chegar a um ponto situado dez centímetros para além daquilo que lhe era possível alcançar, o fio escapava-se-lhe da mão e ele estatelava-se em cima do piano, produzindo um efeito musical do mais fino recorte, de tal maneira o corpo e a cabeça batiam em todas as teclas ao mesmo tempo.
A tia Maria dizia que não permitia que as crianças ali ficassem a ouvir uma linguagem daquelas.
Finalmente, o tio Podger conseguia localizar de novo a marca e colocava a ponta do prego sobre ela, com a mão esquerda, segurando no martelo com a mão direita. E, com a primeira martelada, esmagava o polegar e, uivando, deixava cair o martelo em cima dos pés de alguém.
A tia Maria observava mansamente que, da próxima vez que o tio Podger quisesse pôr um prego na parede, esperava que ele a prevenisse a tempo para que ela pudesse ir passar uma semana com a mãe, enquanto o trabalho estava a ser feito.
- Oh! Vocês mulheres! De tudo fazem uma confusão! - replicava o tio Podger, endireitando-se. - Que queres, os trabalhinhos deste tipo divertem-me!
E depois fazia mais uma tentativa e, à segunda pancada, o prego entrava direitinho pela parede adentro e metade do martelo ia atrás dele, e o tio Podger era precipitado de encontro à parede, com força quase suficiente para esborrachar o nariz.
Depois tínhamos de voltar a procurar a régua e o fio e novo buraco era feito; e, lá pela meia-noite, o quadro estava pendurado, todo torto e mal seguro, com a parede à volta que parecia varrida a tiro e toda a gente morta de cansaço e furiosa. Toda a gente excepto o tio Podger.
- Pronto! Já está! - dizia ele, descendo pesadamente da cadeira para cima dos calos da empregada e inspeccionando com um orgulho evidente a bagunça que tinha feito. - Quando penso que há pessoas capazes de chamar um operário para fazer um trabalho destes! "
(...)

terça-feira, outubro 3

Cavalos em fuga

Cavalos em Fuga
Yukio Mishima
Edirtorial Presença
Coleção Novos Continentes, n.º 19
1ª Edição 1987


Em Cavalos em Fuga, Mishima não esconde a sua fixação na honra dos antigos samurais, símbolo da entrega e da devoção ao Imperador . O uso do Iai ( sabre Japonês) reflecte assim a Via ( DO) dessa entrega. Quioaqui reaparece na figura de um jovem patriota “Issau” que prepara o renascer do Japão através de um acto heróico inspirado na Liga do Vento Divino, que após o acto de pura entrega ao Imperador, pretende praticar o Sepuku ( morte ritual , abrindo o ventre com sabre ou punhal).
Vive-se , (sente-se) toda a atmosfera “do Ultimo samurai” e da história de Kasumoto .
Conhecendo-se o fim de Mishima ( praticou o Sepuku, depois de um discurso patriótico), é com admiração que se lê todo este envolvimento do autor na personagem de Issau. Este segundo acto da tetralogia “O mar da felicidade”, é um texto mais pesado, mais reflectido, na procura da pureza do espírito que o primeiro. Só nos últimos capítulos há ritmo, até lá parece que as personagens vão lentamente tomando forma e destino, sempre com um interlocutor presente, Honda, amigo intimo de Quioaqui, e que o reconhece em Issau. Também aqui, há uma história de amor e de sacrifício, mas desta vez o patamar do sacrifício eleva-se ao serviço do Imperador, em detrimento da entrega ao amor passional sentido por Issau. Mishima, numa curta frase , numa conversa entre Issau e o Pai ( tutor de Quioaqui) expressa o desejo de ser mulher ( tal como reencarnará do terceiro volume - O Templo da Aurora).
Retirei este curto texto de uma carta escrita por Honda a Issau,
(...)
“Não sou adepto das novidades do cristianismo, nem critico o zelo pelo passado ou a pouca largueza de ideias dos homens da Liga. No entanto, se queremos aprender com a História, não devemos concentrar-nos apenas num único aspecto de uma época, mas sim fazer uma meticulosa investigação dos muitos factores complexos e mutuamente contraditórios que fizeram dessa época o que ela era. Temos de pegar nesse aspecto único e colocá-lo no contexto correcto. Devemos avaliar os vários elementos que lhe conferiram características especiais. Assim, temos de olhar para a História de uma perspectiva que nos ofereça uma visão ampla e equilibrada.
Isto, creio, é o que significa aprender-se com a História. Pois a opinião de qualquer homem sobre a sua época é limitada, e ele tem grande dificuldade em tentar formar uma imagem compreensiva do seu tempo. Portanto, precisamente por isto, a imagem compreensiva dada pela História fornece informação e constitui um modelo pelo qual podemos guiar-nos.
Um homem que vive confinado pelas limitações do dia-a-dia, consegue, graças à visão ampla proporcionada pela História que transcende o tempo, uma imagem compreensiva do seu mundo e assim corrigir o seu estreito ponto de vista das coisas.
É este o agradável privilégio que a História oferece aos homens.
Aprender com a História nunca devia significar concentrarmo-nos sobre um aspecto particular de uma determinada época e usá-lo como modelo para reformar um dado aspecto presente. Tirar do quebra-cabeças do passado uma peça uma determinada forma e tentar encaixá-la no presente não é coisa que possa dar bons resultados. Fazê-lo é tentar brincar com a História, como se fosse um passatempo próprio para crianças. Temos de perceber que, por mais que se assemelhem, o idealismo de ontem e o idealismo de hoje têm condições históricas diferentes. Se quisermos procurar uma determinação tão pura, devemos procurá-la numa «ideologia diametralmente oposta» dos nossos dias, que exista sob as mesmas condições históricas. Uma atitude modesta deste tipo adequa-seao «eu dos nossos dias», caracteristicamente limitado. Assim, podemos finalmente considerar esta pureza de ideal um problema histórico e fazer deste «motivo humano» que transcende a História o nosso objecto de estudo. Então, as condições históricas comuns à época tornam-se apenas factores constantes da equação. “
(...)
Segue-se o terveiro volume - O Templo da Aurora

sexta-feira, setembro 29

O Confessor

O Confessor
Daniel Silva
Bertrand editora
1ª edição de Agosto de 2005


História de intriga politica muito ao estilo de Morris West nos bastidores do terrorismo, retrata a frieza e crueldade dos vários lados da barricada. Mergulha nos negros meandros do Vaticano, onde um “Pedro” determinado e incomodado com a história da sua Igreja, acaba por ser protegido pelo agente “ Gabriel”, um restaurador de Arte, que tem artes militares ao serviço de Israel.
De leitura fácil, peca por estar demasiado colado ao tema e ao estilo de West, que tanto explorou o tema,,, a continua intriga instalada nas “Pedras” do Vaticano…
(...)
"O memorando de Martin Luther a Adolfo Eichmann pareceu causar ao Papa uma dor física. A meio da leitura, estendeu a mão e pegou na do padre Donati em busca de apoio. Quando Gabriel terminou, o Papa inclinou a cabeça e uniu as mãos debaixo da cruz peitoral.
Quando voltou a abrir os olhos, olhou directamente para Shamron, que segurava o relato da irmã Regina acerca da reunião no convento.
- Um documento notável, não acha, Sua Santidade? - Perguntou Shamron em alemão.
- Receio usar uma palavra diferente - respondeu o Papa, respondendo-lhe na mesma língua. - Vergonhoso é a primeira palavra que me ocorre."
(...)

quarta-feira, setembro 6

Neve de Primavera

Neves da Primavera
O mar da Fertilidade – Volume 1
Mishima, Yukio
Editorial Presença
Colecção Novos Continentes
1º Edição 1986

Com a subtileza que só o oriente possui, Mishima conta a história de dois amigos, Quioaqui e Honda. Através deles, conta a história do Japão na era Miji (1867-1912). Inicia o romance na adolescência de ambos, descrevendo o declínio de um Japão aculturado, atropelado pelos tiques e pelas imposições do ocidente. Relata o fascínio que o ocidente e a sua febre consumista e superficial, de profundas aparências, começa a exercer na sociedade nipónica. Mostra um País (onde tudo tem um ritual de adoração e de espanto pela vida, onde o sorriso se controla para que cada um seja inesquecível e único,) que troca o sonho, (de uma juventude que parece ter perdido o rumo, quando desagregada da sua própria cultura), por artefactos e chás de Sua Magestade, (Vitoriana), Imperadora de outras terras. Neste primeiro volume da tetralogia do “O mar da fertilidade”, Mishima deixa escapar na sua escrita a hipersensibilidade que esconde e que questiona através de Quioaqui. “Neve de primavera”, para além de um tratado do sentir, é sobretudo um desenho da história do Japão, onde as tradições samurais se esfumam numa futilidade que ele Mishima se recusa a aceitar. É também uma história de amor e de amizade, onde curiosamente o sentir é sistematicamente escondido e reprimido, num jogo de consequências trágicas, da qual só os protagonistas são responsáveis.
(...) Tudo o que é sagrado tem em si a substância dos sonhos e das recordações, e assim vivemos o milagre de termos de repente à mão aquilo que está separado de nós pelo tempo e pela distância. Sonhos, recordações, o sagrado…é tudo semelhante pelo facto de estar fora do nosso alcance. Uma vez separados, mesmo que pouco, do que podemos tocar, o objecto fica santificado; adquire a beleza do inatingível e as características do prodígio. Realmente tudo tem os atributos do sagrado, mas basta toca-lo para o profanarmos. Como o homem é estranho! Contem em si a fonte dos milagres, e no entanto o seu toque conspurca.(...)
(...) Quanto a mim, sempre quis saber qual o segredo que permite ao amor quebrar, como por magia, os laços do tempo e do espaço. Estarmos perante a pessoa que amamos não é o mesmo que amarmos o seu verdadeiro eu, pois privilegiamos a beleza física como factor indispensável da existência. Quando o tempo e o espaço intervêm, é possível que ambos nos desiludam, mas por outro lado, é igualmente provável que nos aproximemos duas vezes mais do verdadeiro eu da pessoa amada. (...)
Segue-se “Os cavalos em Fuga”

domingo, setembro 3

Os Cavaleiros de S. João Baptista

Os Cavaleiros de S. João Baptista
Domingos Amaral
Editorial Noticias


Com trama policial, tal como o Fanático do Sushi ( editorial noticias ), Domingos Amaral leva-nos a passear num snobismo que serpenteia na linha de cascais que esquece ter no seu seio uma teia de pobreza e guetos labirínticos nas suas caóticas periferias. Deambula numa sociedade que esqueceu valores e sentires, colocando num punhado de homens e mulheres um legado dos Templários e um tesouro / relíquia de S. João Baptista, um pouco ao jeito de nova seita/ religião que foi silenciada e aniquilada pelas intrigas dos homens que construíram a igreja, pensando que eram a própria voz de Deus ( como surgem agora, histórias sobre o evangelho de Judas – Temas e Debates / National Geographic, que baralha as cartas da história pondo-nos todos à prova se estamos ou não preparados para a rescrever ). Pega no tema templários e desenha uma história que peca por não aprofundar mais a história do s cavaleiros de Cristo, colocando-os nas mãos de um empreiteiro com paranóias estranhas. Mas a história prende. Os perfis e os estereótipos das personagens são credíveis e parece que os vemos por aí ao virar da esquina no nosso enfadonho quotidiano relatado em revistas de vaidades vazias que proliferam nas bancas e quiosques, meio enferrujados e decadentes das nossas cidades.

Deixo no entanto um reparo. O capítulo 12 começa com o inspector a ouvir uma gravação de uma conversa telefónica, pedida à PT. Ora os participantes na altura da conversa não eram suspeitos, pois ainda não se sabia do crime. Por muito baralhados que andem, a nossa polícia, e os nossos serviços de telecomunicações, é disparatado presumir, que todas as nossas conversas telefónicas sejam gravadas… (equívocos de um jornalismo sensacionalista que nos vai toldando o imaginário, mas que fica mal num romance que procura ser credível).

“ Houve sorrisos à mesa. O pintor Afonso, aliviando o seu amuo, perguntou:
- Mas conhece este tubarão?
Para desagrado de João Pedro, a conversa regressava à figura do Dr. Marcos Portugal. O professor Bernardino olhou na direcção do famoso advogado e disse:
- Só dos jornais e das revistas.
Divertida, Inês colocou João Pedro no centro das atenções:
- O único que o conhece bem é João Pedro.
A mesa esperou um esclarecimento. Mas João Pedro fez-se desentendido.
- O João Pedro é advogado no escritório do doutor Marcos Portugal, trabalha para ele…- insistiu Inês.
Em redor, olhares de desaprovação. Pela amostra, o Dr. Marcos Portugal não ganharia concursos de popularidade. Tinha fama de trauliteiro e ambicioso, capaz de vender a própria mãe. Mas nessa apreciação social existia muita ambiguidade e má consciência, pois o Dr. Marcos Portugal era um especialista em off-shores, uma espécie de guru nacional da fuga ao fisco. Muitos dos que em público o criticavam, usavam depois os seus serviços em privado, para melhor acautelarem as suas fortunas da gula das Finanças.
- Anda então a treinar-se para tubarão? – Provocou o professor Bernardino.

Nem tudo começa com um beijo

Nem tudo começa com um beijo
Jorge Araújo, Pedro de Sousa Pereira
Oficina do Livro
1ª edição Abril 2005


Histórias de adolescência abandonada, homens-criança, que vivem num sub mundo, onde, mesmo numa selvática luta de sobrevivência permanecem os afectos e a camaradagem. Poeticamente desenhada por Pedro Sousa Pereira, sentimo-nos transportados para um sub mundo de "príncipezinhos".
Neste universo, se nem tudo começa num beijo, sem ele, tudo perde o sentido. No fim, fui compelido a comprar os dois outros livros já publicados, Comandante Hussi e Paralelo 75.
Foi difícil, escolher um trecho deste livro de sentires. Optei pelo momento crucial da história,,, o encontro de fio Maravilha com Nuvem Maria…

“ Fio Maravilha abandonou o bar com passos maiores que as pernas, parecia um cavalo sem sela, um barco sem vela, chegou muito a custo ao jardim que ficava mesmo em frente, ó teve tempo para descansar a cabeça contra o tronco de uma árvore. E começou a vomitar, primeiro o jantar da véspera, depois restos do almoço do dia, quando já não tinha mais nada para oferecer, sentiu escapar por entre os lábios um líquido viscoso, malcheiroso, sem qualquer substância. Sentiu-se um pouco melhor, começou a gatinhar para fora do jardim, parecia que arrastava um contentor, porque a cabeça pesava mais do que o corpo. Foi então que avistou o que ao princípio lhe pareceu um clarão, mas que não era mais que uma cabeleira loira. Ficou arrepiado. Suores frios escorreram demoradamente pela espinha, ficou zonzo, no estado em que estava não dava para saber se era por causa da bebida ou da visão. Ainda pensou dar meia volta para ver a quem pertenciam aqueles cabelos, mas não tinha nem força nem moral para se aventurar na viagem.De regresso à cave, foi directamente para o seu buraco, ainda se cruzou com alguns meninos, mas a todos apenas disse:- Amanhã falamos.”

Arrisco ainda colocar outro pequeno texto, que ficou cruelmente gravado na minha memória de sentires:

“ Fio Maravilha teve dificuldades em passar pelo buraco da sarjeta, a cabeça e o tronco ainda vai que não vai, o mesmo não se pode dizer da cintura, em desespero de causa teve mesmo que retirar o cinto de cabedal, fazer um exercício de contorcionista, só assim conseguiu ultrapassar o tampo da entrada do esgoto e deslizar até ao sótão. O episódio deixou-o preocupado, tinha consciência de que, no dia em que ficasse gordo ou alto demais, teria de procurar uma nova casa, uma nova família.- não é possível, não posso ter engordado – desabafou como que a querer encontrar uma explicação para o imprevisto.”

sábado, setembro 2

O eterno efémero

O eterno efémero
Urbano Tavares Rodrigues
Dom Quixote
1ª edição: Outubro 2005


O espanto que este romance me provocou, não foi a forma como o Autor deambulou nas palavras. Hábito seu de ser Mestre. Foi a própria história. Convivendo, eu, com a degradação da vida, não é difícil perceber que no inicio do seculo XXI, onde se passa para a quarta idade com alguma frequência, e se assiste a um demência cognitiva acentuada e a um desligar da existência de forma involuntária, é com admiração e respeito que afago este romance escrito por quem subiu à montanha do tempo, aborda de forma acutilante os sentires virtuais, as transmutação das relações humanas, através do dedilhar da escrita on-line, e das máscaras onde escondemos cobardemente os sentires. Ao ler, esta pequena pérola, senti várias vezes o impulso de querer abraçar o autor, num abraço prolongado de enorme admiração.

“Descanso dos documentos profissionais nesta tentativa de diálogo comigo. Descanso do computador, que utilizo mais na Judiciária ou no DIAP do que em casa. Excepto agora que este processo me abriu o interesse para a Internet. Descanso do obrigatório, do sério. Das mascaras que obviamente tenho que compor.”

quarta-feira, agosto 30

Vates - A.G.B.

Vates – A:G:B
Ana Margarida Oliveira
Edições Verso da Kapa


Histórias romanceadas, onde se cruza o passado ( sec XVII) e o Presente ( sec. XXI). O enredo e as personagens interagem de uma forma sublime, onde uns, constroem o futuro e os outros desvendam o passado. Tem mistério (de uma caixa), intriga, paixões e um misterioso poeta Bandarra que desenhando solas e sapatos antevê o futuro, não nos feitiços, mas nas quimeras e nos sonhos de um País que se edifica na poesia, no mar e nos homens.
Paira o mistério eterno de Portugal, abraçado na névoa do seu rei menino, que desengonçado de físico e teimoso de alma se perdeu algures por terras de Alcácer Quibir.
Não sei se Ana Margarida Oliveira, pretende continuar a(s) história(s), porque na verdade, as duas ultimas frases do(s) romance(s), Parece induzir uma continuação. Não sei quem abraça Isabel, quem a esperava na ilha, mas fica a névoa d’el rei ali estar, à espera de se (re)fazer Portugal…

“…Esta caixa foi-me entregue em grande segredo na Índia, com a recomendação de que aqui estaria o futuro de Portugal e que eu saberia o que fazer com ela. E nada mais.
- Mas…o que quer isso dizer?
- Não sei filha! Tenho que pensar! Mas tenho sobretudo de a esconder. Com o nevoeiro e o desvario que havia na Santo Agostinho, Olívia e a caixa deram muito nas vistas. Houve muita gente a reparar nela devido aos gritos e à forma exaltada como ela a quis defender. A caixa terá que ser guardada com descrição. Tenho esta responsabilidade. Aparentemente o futuro do nosso país está com esta caixa!
- E, no trono, um rei que não é português…
- Pois é Isabel…E, nesta nau, muita gente que não sabemos de que lado está…
- O meu pai acha que D. Sebastião está vivo?
- Eu acho que Portugal está vivo! Acho que todos nós, os verdadeiros portugueses, somos um pouco el-rei D. Sebastião.”

terça-feira, agosto 29

O outro pé da sereia

O outro pé da sereia
Mia Couto
Caminho

Normalmente, ao sabor da leitura, num habito que me vem da genética e dos olhos, marco com lápis, de ponta redonda, as passagens que me tocam num livro. Com Mia Couto e Saramago ( como estou a ser injusto com tantos outros) é difícil tal tarefa. Cada frase é um poema, um exaltar de um prazer profundo, que enlouquece o lápis num frenesim desvairado.
Livros há que devoro de uma assentada, outros em que me arrasto em cada página, com o tédio de me ter enganado no livro, mas outros, sinto pena ( numa quase angustia) de virar a página, tal é o prazer que me provocam. Este é um deles. Estória de almas e de pessoas, que se intersectam no destempo. Não são fantasmas que deambulam, são gente que toma outras formas e outros existires, tão difíceis de entender e de assimilar pela nossa cultura industrializada de sentires. Estórias cruzadas no tempo, que nos levam à poesia de um povo que resiste e não morre, mesmo perdendo a alma e o sentido. Mia Couto é um contador de estórias, em forma de poema, difícil de igualar. Cada livro é um monumento à sensibilidade, e á forma como cinzela as tradições de um povo que se procura e se vive numa África que insiste em ser,,, Africa.
Personagens, impares que Mia espalha nas suas páginas e que nos ficam na alma a pairar como se de facto existisse um feitiço em cada palavra, em cada frase que nos invade os sentidos.
Abri ao acaso o livro para escolher dois pequenos excertos. Ao puro acaso, por que não há escolha possível.

“ Mwadia sentiu o conflito a mordiscar-lhe o peito: ela queria, mas temia. O regresso a Vila Longe era sonho e pesadelo. Desejo de reencontrar os seus, de regressar à velha casa de infância. Receio de que os “seus” já não lhe pertencessem, e que a velha casa estivesse morta.
Recordava-se das últimas palavras de sua mãe, na distante tarde da despedida:
- Vai de vez?
- Eu hei-de voltar.
Mwadia era a ultima filha a sair do lar. Todas as filhas tinham tomado a estrada e se desvaneceram na neblina. Nunca mais voltaram. A mãe remoía tristezas, respirando as palavras:
- Pois então, minha filha, você vai embora...
Demorava os adeuses, queria que a despedida se arrastasse a vida inteira.
- Você nasceu-me muito tarde, Muadita. Estou cansada, eu já não tenho forças para mais um rasgão dentro de mim.
...
A viagem não começa quando se percorrem distâncias, mas quando se atravessam as nossas fronteiras interiores. A viagem acontece quando acordamos fora do corpo, longe do lugar onde podemos ter uma casa. “

segunda-feira, agosto 28

As loucuras de Brooklin

As loucuras de Brooklin
Paul Auster
Edições Asa

História de um quotidiano Banal de gente comum, história de cidade polvilhada de passos anónimos. É o relato de um Homem que caminha na vida entre o egoísmo e a solidariedade. Caminhos na morte, orientados na sobrevivência da alma e dos afectos. Escrito por Auster, até as cousas simples tem história.

“- Tens saudades da tua mãe, Lucy, não tens? – perguntei-lhe certa noite.
- Tenho umas saudades tão grandes que é uma coisa mesmo horrível – disse ela - Tantas saudades que faz doer o coração.
- Queres voltar a estar com ela, não queres?
- Mais que tudo. Todas as noites, peço a Deus para ela voltar para mim.
- E ela há-de voltar, Lucy. Tudo o que tens a fazer é dizer-me onde podemos encontrá-la.
- Eu não posso fazer isso, tio Nat. Estou sempre a dizer-te a mesma coisa, mas até parece que não ouves o que eu digo.
- Eu ouço, garanto-te que ouço. Só não queria que continuasses assim, sempre tão triste…
- É uma coisa de que eu não posso falar. Fiz uma promessa e, se quebrar a minha promessa, sou condenada a arder no Inferno. O Inferno é uma coisa que é para toda a eternidade e eu sou muito miúda. Não estou pronta para arder a eternidade inteira.”

sexta-feira, agosto 25

Tudo e mais alguma coisa

Tudo e mais alguma coisa
Jacinto Lucas Pires
Contos inéditos – Visão


Desconcertante!
É o primeiro livro que leio de Jacinto Lucas Pires. Fico na dúvida se sentirei impulso para pegar noutro livro do autor. Escrito como se filmasse, descreve a vida de um jovem talentoso jogador de futebol ( aqui e ali dei comigo a imaginar o nosso Ronaldo).
Não aprecio histórias em que um homem insiste em, até ser importuno, oferecer o amor a alguém que o não pretende receber, e que no fim de tanta insistência se quebram princípios e sentires. Prémio imerecido que soa mal, porque tudo que nos é imposto cria grilhetas na alma.
Fica este dialogo
“ "Olha, vou-te contar uma coisa”, diz o velho, sem tirar os olhos da televisão. “Um tipo nunca é nada na vida até sentir – sentir mesmo de verdade, não só palavras – que vai morrer, que não passa daquele momento. Ou então, ainda pior, que devia ter morrido, que era melhor para ele e para todos. Um tipo nunca sabe de nada até saber isso, percebes? Com isso, o resto – o que vocês chamam vida e mundo – não importa para nada, é só ruído.”"

primeiro as senhoras

Primeiro as Senhoras – Relato do último bom malandro
Mário Zambujal
Oficina do Livro


Não será certamente o último bom malandro. Mas é um bom malandro ao estilo de Zambujal. São as ( des) confissões de um marialva, a um inspector que ouve pacientemente as desventuras deste "alfacinha". Livro leve para um verão despreocupado ( como foi o meu…o meu ultimo despreocupado Verão…pressentimentos meus, claro, mas essas cousas não são para confessionários destes).

“Desabafe, Inspector, compreendo a tentação de me atirar à cara que andei uma semana a impingir-lhe um chorrilho de mentiras. Não exageremos. Exagerar é desporto português, inclusive de alguns jornalistas impetuosos. Ouvem que um gajo está de cama e noticiam que o gajo está de coma.”

terça-feira, agosto 22

A ponte dos suspiros

A ponte dos Suspiros
Fernando Campos
Difel


Romance histórico, bem ao jeito de Fernando Campos. Relata as angústias de D'El Rei Dom Sebastião e das amarguras passadas para provar a todos que não morreu em terras de Alcácer Quibir. O interesse está na evolução do jovem arrogante rei e do seu percurso como homem.
Não tem o fulgor de outros romances de Fernando Campos, mas consegue levar-nos para a intriga geopolítica da Europa, vincando a forma como desde então, nos remedíamos com a mediocridade e o complexo de termos perdido o poder, e nos deixamos encobrir em nevoeiros de identidade perdida.

“Gaivotas e pombas são as minhas visitas, às vezes um ou outro pardal pousa a medo no beiral do meu janelo de grades. Dou-lhes migalhas do meu pão. Habituam-se ao ritual e acabam por também eles serem o meu relógio dos dias intermináveis. A única vantagem do meu cárcere é não se situar nos caboucos do palácio, mas alcandorar-se cá em cima no balouçar dos nevoeiros, sobre a ponte dos suspiros.”

segunda-feira, agosto 21

Kafka á beira mar

Haruki Murakami
Kafka à beira-mar
Casa das Letras


O Japão é o país do Dô ( Caminho ), e um romance escrito por um Japonês não pode fugir à regra que se dissolve na alma. Relata o caminho, procura, de um Rapaz ( Nakata) que por acidente misterioso ( fim da segunda Guerra Mundial) perde parte da alma, perda tão profunda que até a sua sombra é de um cinzento diluído. Aqui, neste universo que nos envolve quem sonha é responsável pelo próprio sonho, tão responsável como os actos reais, (fisicos !). O sonho e a realidade misturam-se com a mesma responsabilidade. de se viverem (ambos) com a intensidade da Vida (ou morte).
Nakata que após o acidente em menino, (aberta a pedra da entrada no destempo) apreende a capacidade de falar com os gatos, chega a velho na constante busca da alma, que parece habitar em Kafka Tamura, rapaz de 15 anos que foge de casa, aparentemente para não matar o Pai ( que em dimensão outra encarna um assassino de gatos), Pai esse que acaba esfaqueado por Nakata, mas quem aparece ensopado de sangue é Kafka. História escrita com imaginação suficiente para nos prender no enredo até ao fim.
Kafka à beira mar, a história de um quadro que mistura o passado e o presente, num tempo que se descoordenou na suspensão da morte.
….
por outras palavras, cada pessoa continha em si os componentes das duas partes. Toda a gente vivia satisfeita com este estado de coisas e nem sequer pensavam muito nisso. Foi então que os deuses pegaram numa faca e cortaram cada um em dois. E assim, depois disso, o mundo ficou dividido em machos e fêmeas, e as pessoas passaram o resto da vida à procura da sua própria metade.”
….
“ Independentemente de quem ou daquilo que tens pela frente, o certo é que as pessoas estabelecem pontos de contacto entre elas próprias e as coisas à sua volta. O importante é que isso aconteça de uma maneira natural. Ser burro ou ser brilhante não vem ao caso. O que importa é que saibas ver o mundo pelos teus próprios olhos.”

…”
Sabes onde o conceito de labirinto apareceu pela primeira vez?
Respondo que não com a cabeça.
Foi na antiga Mesopotâmia. Extraíam as entranhas dos animais, e de seres humanos também, possivelmente, e baseavam-se na forma que tinham para prever o futuro. Apreciavam a forma complexa dos intestinos. Daí que se pode dizer que o protótipo dos labirintos reside, numa palavra, nos intestinos. O que significa que o princípio que presidiu à invenção do labirinto reside dentro de ti. E isso está de alguma forma relacionado com a noção de labirinto fora de ti.”

Curioso para mim, neste livro que me transportou no destempo ( noção vivida e revivida por mim quase em permanência) foi eu ter escrito, depois de uma caminhada de mais de 20 km no meio da serra onde o silêncio me impregnou a pele e os sentidos, isto “ o silêncio abraçou-me com tanta intensidade que por instantes ouvi a terra a girar, com a suavidade de uma brisa…” e uma semana depois na página 521 leio “
O silêncio tornou-se mais profundo, tão profundo que, se apurasse o ouvido, podia muito bem acontecer que desse para ouvir o som da Terra a rodar no seu eixo”

quarta-feira, agosto 9

Duas mulheres em Novembro

Vasco Graça Moura
Duas Mulheres em Novembro

Editado pela revista Visão


É o primeiro livro que leio de Vasco Graça Moura. Passa-se em Novembro de 1975, num pós revolução atribulado, mas apenas serve de moldura, as personagens parecem deslocadas para o dia de hoje, ou então a futilidade é intemporal. Duas mulheres num consultório médico, vazio, com hora marcada para abortarem. Conversam sobre as suas vidas, mas nenhuma mostra angústia ou qualquer tipo de sentir pelo acto que decidiram fazer. É com ligeireza que o autor coloca duas mulheres prestes a abortar e apenas vomitam futilidades. É pena espalhar palavras e talento de escrita e passar ao lado de tão sensível problema. Seria interessante assistir à abordagem do drama visto/vivido por duas mulheres com destino de vidas diferentes. Sentir o que se passa na culpa ou na não culpa que cada uma sente ou não sente, Perceber ou não perceber se há ou não há julgamento possível para uma decisão do foro intimo de cada um…Todo o texto/conto passa ao largo desta catástrofe do (des)sentir. Sendo o autor que é, com intervenção cívica e politica, sabe a pouco este romance de verão, escrito com futilidades, para a futilidade de umas férias calmas à beira-mar.
O médico nunca aparece. Foi preso. Não por fazer abortos clandestinos num país em revolução a confundir liberdades. Foi preso porque era rico!

…” Vai perguntar-me, em tom mordaz e com aquele risinho dela, se eu prefiro o piano lacado branco de um novo rico insuportável como Sidónio, só porque a sala dele dá para a piscina e ele serve champanhe às amigas que leva para lá, à meia noite ou ao meio dia, quando elas estão nuas dentro de água. Ela sabe muito bem que detesto o Sidónio. Caí na esparrela uma vez e chegou. Mostrei-lhe as minhas habilidades e quando ataquei a tocata de Carlos Seixas perguntou-me do alto do charuto se não sabia tocar Strangers in the Night…Que humilhação!”

domingo, agosto 6

A poeira que cai sobre a terra

Francisco José Viegas
A poeira que cai sobre a Terra
Contos inéditos Visão


Novamente o detective Jaime Ramos, personagem fetiche do autor, entra em acção, No caso, aparece-nos um detective molengão arrastado na meia idade, a caminhar para o desleixo da desilusão da vida. Aparentemente não há crime, há coincidências num verão quente, demasiado quente, que devora as matas, os pinheiros e os corpos.
Retiro três apontamentos:
“ A depressão não me comove, doutor, não é assunto meu,
O que é assunto seu?
A morte. Sou especialista em assuntos funerários. Entregam-me casos de vida ou de morte, já resolvidos para o lado da morte, evidentemente. Enquanto o senhor a ouvia a falar da vida, eu tenho a morte para resolver…
………….
As pessoas vão ao psicanalista porque precisam, murmurou Jaime Ramos.
Ele riu, do outro lado do tapete:
Vão ao psicanalista porque é mais caro, inspector.”
……………
(Extractos de um dialogo entre o Psicanalista de uma das vitima e o detective Jaime Ramos)

“As redacções dos jornais ainda estavam vazias. Se caísse uma bomba sobre a Torre dos Clérigos, não haveria ninguém para receber a boa notícia. E ele imaginava Siza Vieira feliz, vendo tudo arrasado, disponível para ser atapetado a granito negro.”

Ironia infeliz do autor, provavelmente não conhece a casa de chá em Matosinhos, nem a obsessão do arquitecto para as superfícies brancas e os seus jogos de sombras. Pessoalmente não gosto de muitas das obras de arte do Arquitecto, mas são sem duvida obras de arte . Nem todos os poemas de Pessoa são conseguidos, mas isso não invalida a genialidade do poeta. Siza não merece esta ironia, mesmo em livro de ficção.

quinta-feira, agosto 3

José e os Outros ( Almada e Pessoa, romance dos anos 20)

José Augusto França
José e os Outros ( Almada e Pessoa, romance dos anos 20)
Editorial presença


Este é dos tais livros que se não me fosse oferecido ( pelo Pai) teria comprado e posto de lado qualquer outro para mergulhar na História, Pelo autor, mas sobretudo pelas personagens, Zé ( Almada)e Fernando ( Pessoa). Acompanharam os dois, em demasia o meu imaginário, acompanharam em sombra o meu caminho de tal forma, que são incontornáveis na minha vida e no meu Eu, mais o Zé que o Fernando, mas ambos quase lado a lado (quis o destino que eu próprio me chamasse José Fernando,,,cousas do acaso!!). Mas na verdade arrastei-me nas páginas, porque não o senti sequer como romance, mas pareceu-me ( desculpem a sinceridade) uma vaidade do autor em se ser intimo dos dois Mestres. Nota-se a nítida preferência pelo Zé Almada, pois a história é sobretudo sobre este, e o Fernando aparece como uma espécie de fantasma que o espia e controla.
Vale pelas referências exaustivas que faz aos textos de Almada, mas para isso é sempre melhor ler o original. E foi isso que fiz, agarrei nos velhos livros do Mestre Almada, e passeei-me pela Invenção do Dia Claro, em verde alface gasto pelo sol, revi o K4, distrai-me com a Judite, que não se chamava Judite, mas que era Judite inteira.
Não gostei, que me desculpe o outro José, o Augusto, do que li.

“ José quis mostrá-la ao Fernando, e levou-o a ver as provas * na tipografia; estava certo que ele aprovaria. A nova frase era assim: “ Há sistemas para todas as coisas que nos ajudam a saber amar, só não há sistemas para saber amar” entre a humanidade e o amor, o Fernando não achava ter que escolher. “ Mas não achas?” “Não, meu querido José, não sou capaz de achar um sistema seja para o que for…” E acrescentou com um sorriso: “ Mas põe, põe...”

* ( Invenção do dia Claro que Pessoa propôs editar)

Imperdoável o livro não ter uma bibliografia, dada as inúmeras referências e transcrições das obras de Almada e algumas de Pessoa… sendo Romance, como é dito e escrito, era obrigatório existir no mínimo notas de autor, ou de editor...

terça-feira, agosto 1

Minto até ao dizer que minto

José Luis Peixoto
Minto Até ao dizer que minto
Editado pela revista Visão


Gosto do José Luis Peixoto, do que escreve, como escreve, apesar de espalhar sentires e palavras com pouca cor, quase a tocar a depressão nas personagens que lhe vivem nas histórias.
Este conto inédito, publicado pela Visão, foge a essa negritude, é outro José Luis Peixoto que escreve, solto, desprendido, Urbano, quase cosmopolita. Gostei.
Duas ou três notas do que não gostei; a introdução de publicidade entre texto, como vai já sendo hábito nas novelas, primeiro brasileiras, depois das produzidas por cá. Não fica bem transformar um espaço como um livro, como uma história e Pimba, Publicidade, No caso, agravado por ser auto-publicidade, já que o autor, põe a personagem a reler um livro do Autor “ Cemitério de Pianos” que será editado em breve.
Também não é credível colocar duas das personagens a enviar SMS com aquela extensão e conteúdo. SMS, é SMS...pequeno quanto baste!
É um conto de Verão, escrito nos dias quentes, com a lentidão dos dias quentes.
Gostei.
“Lembro-me de pararmos à frente da casa dos bicos, de os turistas não perceberem onde estava o monumento e de se levantarem para fotografar os edifícios ao lado, velhos, a cair – como tinham fotografado os primeiros prédios devolutos que viram antes de se cansarem e desistirem.”