sábado, dezembro 29


no país de Alice
Dezembro 2007

Horto de Incêndio

Al Berto
Assirio & Alvin













Incêndio

se conseguires entrar em casa e
alguém estiver em fogo na tua cama
e a sombra duma cidade surgir na cerca do soalho
e do tecto cair uma chuva brilhante
contínua e miudinha – não te assustes

são os teus antepassados que por um momento
se levantaram da inércia dos séculos e vêm
visitar-te

diz-lhes que vives junto ao mar onde
zarpam navios carregados com medos
do fim do mundo – diz-lhes que se consumiu
a morada de uma vida inteira e pede-lhes
para murmurarem uma ultima canção para os olhos
e adormece sem lágrimas – com eles no chão

sábado, dezembro 22

desencontros numa esquina qualquer

Dei comigo, entre a esquina do horizonte, a correr sujo de sonhos e de tempo, como quem se desencontra com a sombra e se lembra de a colorir.

domingo, dezembro 16

Aracne

António Franco Alexandre
coleção- " poesia inedita portuguesa "
Assirio e Alvim

Até ao presente nunca me atrevi a comentar, neste ou em qualquer outro espaço, livro de poemas. Razões várias; mas a principal é a de entender que poema só deve ser explicado pelo poeta, o próprio, mesmo que sentido por muitos. Romance é diferente porque o autor se dirige ao leitor. O poeta não. O poema passa pela intimidade do poeta, e essa só ele a sabe, mesmo que a partilhe. Estou convicto que um poeta oferece a intimidade para se libertar dela, enquanto que um romancista tem o amimo de contar história.
Decidi-me assim , a deixar aqui, os livros de poemas que me vão acompanhando ( sem comentários ou notas sobre o escrito.
O poeta que aqui referencio, foi-me indicado em conversa amiga, entre o dia e a noite num cruzamento de sentires e de ideias, sobre os acasos e os momentos da vida.
Quase corei por nunca ter ouvido nem nome nem obra de António Franco Alexandre ( há desencontros inexplicáveis, sobretudo quando se anda uma vida com livros no imaginário). Nessa tarde trouxe comigo ARACNE. Não o vou comentar, apenas deixar um excerto do que me encantou, neste matemático que se metamorfoseou em homem, em poeta, em alma, sendo “no quase” ( no quase de Mário de Sá Carneiro) aranha…

(…)
A teia sem enredo é a minha ideia fixa,
puro cristal, como os da neve, abstracto,
tão claro como o mero abecedário
onde as palavras falam, sem barulho;
a recta, a espiral, e o nada
que só à filigrana se consente,
são todo o meu orgulho, e no final
ter desenhado esse lugar exacto
onde em segredo possa ser humano.

sábado, dezembro 8

O meu nome é Legião

António Loubo Antunes
Edição D. Quixote

Ruben A. Escreveu sobre Picasso em “Páginas IV” , …”foi indubitavelmente o maior criador estético e um dos maiores desenhistas de todos os tempos. Teve a grandeza de nunca cristalizar, de querer sempre mais, de vibrar em dissonância consecutiva, de dar gritos ao longo de telas definitivas.” Sinto o mesmo ao ler cada novo escrito de Lobo Antunes ( em edição ne varietur, com que o autor a partir de determinada fase, passou a doar os seus “romances” aos leitores).
O meu nome é Legião são vários contos, vários relatos com a morte, umas vezes na terceira pessoa, algumas na primeira. É um livro negro ( a primeira edição chega ao requinte de ter capa negra, cor que se adequa aos relatos sem esperança, deste livro de guetos e de becos sem saída..).
Ao ler as histórias ( todas elas com cenário de fundo o cerco pela policia ao Bairro rodeado de Figueiras bravas) recordei um álbum de fotografias de Eduardo Gageiro que durante muitos anos pousou como objecto na mesa de centro da sala de meus pais, Retratos a preto e branco, de uma miséria suja de bairros disformes e sem luz, onde uma criança espreitava por detrás de um muro , como quem se esconde de um labirinto, ou as vestes negras de um povo que chora a sua sorte, entre as cheias de 69, ou o arrastar sofrido de um povo crente, a rastejar milagres, junto do divino. Assim é também ” O meu nome é legião”, Retratos a preto e branco de uma miséria que persiste e insiste em renascer de geração em geração seja ela negra, branca ou mestiça.
Lobo Antunes sublinha que este novo romance é sobre o Amor. Repetindo Ruben A. “ A Eliot e Picasso falta-lhes amor, são vertebrados demais.” Ao ler lobo Antunes sinto o mesmo, só que neste caso sinto o Amor escondido em cada palavra que se escapa da narrativa e onde o autor se deixa ver e fala sobre ele. É o melhor que o estilo Antoniano tem, a escrita ao som de um monólogo onde o autor fala. Ler Lobo Antunes é ouvi-lo! Ser contemporâneo de Lobo Antunes é um privilégio. Ouvir as suas entrevistas é a melhor maneira de entrar no seu universo escrito. Quando leio lobo Antunes oiço-o ao fundo nas suas deambulações, é esse o seu ritmo de escrita. Quase me atrevo a sugerir à editora que passe a vender as novas edições com um suporte áudio das entrevistas do autor. Para as gerações futuras será certamente a melhor forma de entenderem o fabuloso universo escrito de Lobo Antunes.

terça-feira, novembro 27

O “sky line”* de um dialogo intimo

As nuvens dedilham o céu com gotas de chuva, Negras, a dissolverem-se em sombra
(Só a gaivota,
branca,
lembra azuis…)

Porque me olhas?
Porque me roubas o voar e cobiças o ir?

( porque me trás o vento as vozes da gaivota que fugiu de mim?)

Como pinto o odor da chuva na terra?


Fecho os olhos e bebo-a
( a gaivota?
a chuva?
a nuvem!)
em cálices de onda e espuma!




*Desculpem o palavrão, mas tenho passado algumas horas com arquitectos!!!!

domingo, novembro 25

In( definições)

O que escrevo com palavras é desenho!
Um retrato do instante, do Momento que arrasta ( sem esforço ) as sombras e as cores do que sou!
( digo-o com a convicção de me rever tal qual
no que digo e no
que escrevo)…

.
.
.
.
.
.
Mas tenho duvida, porque não há desenho sem linha e linha implica fronteira, mesmo que não lhe alcance ( no toque ou na vista) o fim
e o que escrevo insiste em voar para lá do horizonte...
.
.
.
.
.
.
Desenho ou não, tudo o que escrevo desenha-se...
O que me foge no olhar não é senão desenho!
.
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.
Vês o desenho?
.
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Sentes a cor?
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.
.
.
.
Eh tu aí? ….estás a sonhar?
( é sonho o desenho?
é Caminho?
Se o sentes é!)

quinta-feira, novembro 22

O terrorista de Berkeley, California

Pepetela
Publicações D.Quixote

Pepetela não resistiu à tentação de tentar universalizar as suas personagens. Este novo detective deixa saudades de Jaime Bunda, esse sim enquadrado no seu meio, colorido com o “linguajar” que caracteriza as estórias e os cenários de Pepetela. Mesmo recorrendo a personagens que se movem nas minorias étnicas americanas, elas destoam da narrativa, numa cadência desconseguida, parecendo quererem ter uma vivência paralela àquela que o narrador impõe, recorrendo a um léxico que dificilmente as personagens entenderiam.
Pepetela conta uma história com enredo tecnológico, e também aqui se sente que o autor deambula por terrenos pantanosos ( não é seguramente um tecno-sapiens, e bem haja por não ser, pois assim não degustaríamos a sua poesia literária) .
Traça no entanto uma caricatura dos nossos tempo e da paranóia sobre o terrorismo e o fundamentalismo, onde todos se sentem presos e paralisados no medo, imaginando inimigos em tudo o que olha e se move. Pepetela parece divertir-se, deixando quase fugir a ideia que foi ele próprio que teve o impulso e o prazer da personagem principal de se fingir, num jogo perigoso, de terrorista.
Lê-se de um folgo só, porque a mestria do autor em nos enredar na sua estória, continua escondida em cada frase, como só ele sabe fazer…

domingo, novembro 18

feitiços?

Olho-te

( persegue-me nos passos o que me vai nos olhos,,,não a palavra, mas o Ver, colado à pele e ao sentir…)
Olho-te,

( como quem imagina estórias e
vidas… )

menina

( não consigo, mesmo que mergulhe no escuro, senão ver-te menina, cabelos livres no medo de seres criança a sorrir fora das lágrimas, indiferente aos tempos que se cruzam entre caminhos...)
e não és outra que menina a brincar nos feitiços, a fugir deles, a perseguir um carrinho de linhas vivo, carrinho brinquedo-alado a saltitar vidas e a desenrolar-se de azuis

( era azul a linha que te costurava os sonhos)
a fugir pelos horizontes a perder de vista,
e tu

( agora?)
mulher-menina a fugir no fingir de medos…
Olho-te e vejo-te mulher, já não menina a respirar inquietudes e cumplicidades.
Tu e eu, autênticos um e outro, meninos, ambos a desenhar azuis, e o carrinho de linhas a fugir por ruas e de nós, como quem voa sozinho, agarrados ao que fomos e já não vemos...
( ou já não somos?)

sábado, novembro 17

Sonham os pássaros?

Retomo a folha branca de papel de água. Usada de silêncios…
Olho-a em sorrisos lentos, como quem sopra pólenes coloridos.
Afago-a com sonhos-de-pássaro-adormecido-nos-ocasos-quentes…

( afagos de olhos, nos olhos…
já lhe imaginaram o brilho? Quantas cores se escondem num brilho de tal desvelo? Já deram conta que cada uma das cores que se escapa tem a medida e o peso exacto de um beijo? Pesa um beijo de olhos? Pesa?


Sentes?)…

sonham os pássaros?

(Ao fundo,
Fumos de Inverno, retratos vazios. Opacos…
No Fundo,
Homens voláteis, em cinzentos queimados…)

Respiro memórias, gaivotas

( feiticeiras?
Há um calor suave de verdades em tudo isto, como se a primavera se escondesse entre as folhas de Outono, a suspirar mistérios)

Desenho-te os gestos, como bailados de neves rubras

Têm cores , os gestos?

É incrível esta Tua capacidade de te esconderes permanentemente a espreitares para de lá do olhar, Só para me colorir e aquecer os sorrisos-de-memórias...

( é a recordação uma verdade?)

...como aquele desenho que te pintei com a cor das nuvens…lembras-te? Éramos nós dois.
Sós,
no cordel de um pião a desenhar destinos…lembras-te?

Retomo a folha branca, esquecida de pó…

(Sonham os pássaros? )

no ante-escuro
ponte-praça
Aveiro
Novembro 2007

sexta-feira, novembro 16

quinta-feira, novembro 15

terça-feira, novembro 13

Segredos ( ecos? verdades?ou um dialogo com o só?)

Oiço-te no sonho,,,sombra alada e enlaço-me no vazio, ébrio de cor.

(saltimbanco, arlequim, quadro, desenho, parede, relógio, campânula de cristal, cavalo-branco, tapete....és tu Mestre?)

Oiço-te menino,a chamar por mim,
( em memória?
Não! Tu estás aí, eu é que longe.
Quem anda no longe anda perdido no aqui)
e tu, ouves-me? Sentes-me? Oiço-te no sonho e pinto-te em cores de sol e jasmim … estátua afinal. Forma real da ilusão de mim.


Ao fundo , no escuro o quadro e o Mestre, que o desenha , eu ao fim no escuro, invento, quase no desequilíbrio para de lá da lua,
o vento.
Tudo o resto não existe.
Só me resta o caminho, e o deslaço de ser tudo isto,


(eco dos passos! )


Oiço-te,




Ao longe, na praia salpicada de búzios,


o farol a imitar as noites,



a andorinha-gaivota a pintar o horizonte,
oiço-te,





Só o eco persiste... (Afinal não somos mais que os passos que fogem do passado iludidos nos sonhos e dos sons que nos habitam a alma…)

sexta-feira, novembro 9

duvidas, ou novamente a procura? ( ou o acaso?)

Enquanto as noites se alongam na inquietude, e os olhos se adensam de duvidas, umas tornam-se mais difusas, quase verdades, e outras endoidecem-nos num bailado intermitente, quase desfocando o limiar da angustia, perseguindo-nos e incitando-nos a uma permanente procura, como peixe que faltando-lhe o ar na agua, o procura nos céus.

Não é estranha, para mim a pergunta final, aquela que nos daria o sentido de existirmos, aquela que nos iluminaria sobre a nossa missão, a nossa função neste embaralhado de labirintos e de destinos ( aos quais eu insisto em chamar de acasos).

Numa das minhas caminhadas entre silêncios e chaparros, entre cigarras e papoilas, lá para os lados do Sorraia,
( como se fosse importante o ponto, a cruz da latitude e longitude do lugar…) ,
dei com os olhos numa colmeia, pendurada e escondida num enrugado sobreiro.
Detive-me, não de admiração, mas porque no ponto de fuga, avistei um povoado no longe.

Na linha que unia a colmeia e a casa, uma recta e na recta a duvida!

O que nos leva, a nós humanos a considerar uma colmeia um elemento natural e uma aldeia, ou uma casa um elemento estranho à Natureza?
Porque é que uma represa de castores surge no nosso imaginário como parte natural de um sistema e uma barragem se torna tão incisiva na alteração do meio?
Em que difere efectivamente um ninho de cegonha de uma das nossas casas?
Se não duvidamos nós , humanos de sermos produto de uma evolução natural das espécies, porque consideramos então que o produto da nossa inteligência é cousa artificial? ( porque nos sentimos superiores ao Natural?)
Não há (hoje) duvidas que a espécie humana alterou o sistema e que nós humanidade produzimos alterações que afectam o equilíbrio , Como também não temos duvidas que a Natureza procura inevitávelmente o equilibrio.

O que me pergunto é: a que equilíbrio nos vai levar a Natureza, após este desequilíbrio provocado por um dos seus elementos ?
Terá a extinção dos Dinossauros sido provocada pela sua supremacia?
Não terá sido a supremacia natural dessa espécie que provocou o desequilíbrio? ( ou o acaso?)
Não terá sido a procura desse equilíbrio que originou as condições que possibilitaram o aparecimento do Homem? ( ou o acaso?)
O que originará este próximo equilíbrio?
Serão estes desequilíbrios programados?
Produzindo a supremacia de uma espécie, um desequilíbrio, será que qualquer supremacia provoca a sua proporia extinção? ( a História Humana está recheada de sucessivos impérios….decadentes)
Terá afinal a nossa inteligência um fim comum que culminará na nossa própria extinção?
Teremos de facto Livre-arbítrio, ou a nossa função encontra-se perfeitamente definida, programada e direccionada para a extinção de forma a provocar o equilíbrio, ou o desequilíbrio?
Será esse o nosso desígnio colectivo? Ou o nosso desígnio colectivo é atingirmos a nossa não-supermacia , condição única de sobrevivência?

Sento-me, debaixo da sombra do sobreiro e sinto que naquele instante todo o meu caminho me leva ali, única e exclusivamente para ouvir o vento…( ou o acaso?)

quarta-feira, novembro 7

procuro

Procuro rotinas, pequenos gestos perdidos, odores, cores, sombras, recantos,
( abismos?)
Procuro no escuro, os passos, os ecos, os afectos, os recatos, os poléns,
( memórias?)
Procuro como quem voa nos alísios, Búzios
( sempre eles,
a marulhar, suspiros).

Só,
num turbilhão de acasos,
vou ,
inseguro, inquieto por travessas, travesso,
por ali.

É este o desenho dos laços que me atam no desacato de mim.
Livre?
Sim !
(Parti de Ti, linha sem começo nem fim...)
Procuro o espaço, o ponto, O centro, dos passos,
sem compasso,

sem norte…









Há liberdade sem passos? Sem morte?


(Procuro rotinas,


à sorte…

e vou,

por aí….)

sexta-feira, novembro 2

Os cadernos Secretos do prior do Crato

Urbano Tavares Rodrigues
Cadernos secretos do Prior do Crato
Publicações D. Quixote

Os cadernos secretos de Prior do Crato, são afinal um encontro de Urbano Tavares Rodrigues com a ( sua) serenidade. Pegou com a mestria a que nos habituou num período quase esquecido do nosso percurso como Povo. A Historio de D. António , é uma permanente luta pela liberdade e um encontro e desencontro com Deus, e com a vida, até que se encontra como prazer imensurável de se sentir parte do UM. Livro curto, histórico e sempre actual, já que encerra nas suas páginas a eterna dúvida do homem perante Deus ou perante o desconhecido.

segunda-feira, outubro 29









ecos celtas
Grupo de Gaiteiros - Popularis
Feira Mediaval de S. Silvestre
Coimbra
Outubro 2007





terça-feira, outubro 23

desencontros

O pior dos desencontros, é encarar o nosso eu, fragmentado em estilhaços de imagens sem sentido,
a viver,
não na memória
mas nos gestos ( sem mim)…
Passeio-me a sonambular, sem sol nem sombra, por aí…
Fantasma?
(Esponja que me suga as cores,,,e lastra os passos,
Irreal…)

Isto de me sentir espantalho de mim, é loucura a pingar quadros de Dali…







ah,
soubesse eu sair de dentro de mim…e não seria este mar sem sal



( vórtice?

fim?)

terça-feira, outubro 16

canário

Rodrigo Guedes de Carvalho
ediçõesDom Quixote

Na escrita de Rodrigo Guedes de Carvalho (queira ele ou não, seja ou não “um mito urbano”*… confesso que isto de mitos urbanos é frase que vai para de lá do meu entendimento), sente-se o aroma de Lobo Antunes quando nos passeamos nas suas estórias. Canário é um livro de fugas e de silêncios , onde as personagens se prolongam na ânsia(dade) de se sentirem livres, quando afinal apenas estão presas à vida. O caminho literário de Rodrigo Guedes de Carvalho é no entanto especial, mesmo que matizado de ventos de outras vozes, sejam elas Pepetela, Lobo Antunes ou Saramago. O dialogo permanente do escritor ( não o narrador) que se esconde nas personagens é cativante, e denota a procura de um estilo . Fala de presos… Conta as estórias de presos, numa prisão sem grades, mas que sufocam na arbitrariedade dos acasos e dos instantes que determinam o caminho. Presos de vidas, nas vidas de cada um…O enredo desta narrativa inevitavelmente reflecte a imagem de cada um de nós. Toca de leve , no fosso profundo de uma mãe que se desarticula na incapacidade de interagir como seu filho autista, toca de leve no filho de uma mãe da vida, procriado no acaso de um encontro fortuito, toca de leve na angustia de um escritor que se perde no labirinto de ser escritor e personagem. Toca ao de leve na profundidade dos nossos silêncios, deixando a quem lê, a necessidade de repensar se estamos de facto presos aos acasos da vida, ou se os devemos (em)beber simplesmente como sendo o nosso inevitável caminho e de percebermos que a liberdade é apenas um sentir que nos abraça como a brisa de uma manhã junto ao mar, num dia ameno de serenidades…

*“da entrevista do autor onde refere o facto de o colarem a Lobo Antunes ser...um mito urbano...”… in Jornal de letras de 12 de Outubro de 2007

segunda-feira, outubro 15

brisas, (ou buzios a segredar caminhos?...destinos? indistintos?)

O horizonte ondulou-se de brisa …

Eu ,
ali ,
no centro de nada,
cristal de sal a vaguear de olhos…

(homem ou gaivota? )








Vento!

( seja o que for, navego entre horizontes, mergulhado em mim…)

terça-feira, outubro 9

simples, como todas

Desenhei uma cruz, ( a Cruz-do-Homem)
simples ( como todas)
Só,
uma cruz, sem homem, sem nada…





( não há vida inteira que caiba
no contar das lágrimas que se escondem no desenho de uma cruz,
e no entanto bastam dois traços para Ser um ponto,
perdido,
no nada…)

domingo, outubro 7


...eles não sabem, nem sonham...(II)
saltimbancos de Ceira
Feira medieval de São Silvestre
Coimbra
Outubro 2007

"eles não sabem nem sonham..."
saltimbancos de Ceira
Feira Medieval de S. Silvestre
Coimbra
Outubro de 2007

a espera do sonho
Jograis - feira medieval
( saltimbancos de Ceira)
São Silvestre
Coimbra
Outubro 2007

retrato

Uma pedra que voa,









( retrato do eu, iludido-de-liberdade,,, Ela não está na pedra que atrai-o-chão e a queda, está no olhar de criança que a leva,,, embrulhada em verdade...)

sexta-feira, setembro 28

Serenidades, sem memória

Sei, ( com a convicção de me saber um ponto ínfimo escondido numa infinita folha de papel,
branca)
que andei por aí misturado na terra;
Que vagueei pelo longe, dissolvido no sal de uma onda de mar;
Que voei, preso nas penas de uma gaivota,
mas,
agora,
no hoje que me atropela o ir
estou aqui sentado, sem memória de mim,
a pensar….





( saber com convicção é pura imaginação)

segunda-feira, setembro 24

outras cores,,,no céu

Hoje, o céu não tinha estrelas mas búzios-encantados a olhar,
( daqueles que cantam cousas outras para além do mar)
Na noite,
fingiam sons de embalar,
(eram as ondas a chorar...)






já lhe imaginaram a cor?

domingo, setembro 23

quedas

caiu uma folha,
(morta?),,,colorida,
semente-lágrima
de vida.
reza em vão
marulhos de uma oração,
de um ciclo que não finda…
caiu uma folha,
mão-arado,
sangrada por chuva-dorida,
caiu uma folha
sozinha,,,no chão…

segunda-feira, setembro 17

o desenho da imaginação

Desenhar uma estrela
( nossa)
é cousa solene…
(Importante, diria! Caso alguém me ouvisse)
escolher o pedaço do céu para a colocar é tarefa dos Deuses, por isso desenho-a na imaginação
( aquele espaço ora nítido ora sombrio que nos habita entre os olhos e a fantasia )
e todos os dias tenho uma estrela nova, seja qual for o lado do céu que me olha

sexta-feira, setembro 7

O Hussardo

Arturo Pérez-Reverte
Edições Asa

Nos últimos tempos tenho feito um incursão na literatura espanhola e latino-americana em contra-ponto com a lusófona e confesso que tenho gostado das paragens. Arturo Pérez-Reverte foi uma surpresa. Aventurei-me com alguma desconfiança na leitura de Hussardo. Tinha várias barreiras a ultrapassar. Não gosto de guerras, as invasões francesas nunca foram temas preferidos, ( não aprecio instintos imperialistas) , em resumo não me deleito com a barbárie. Página a página fui ficando confuso, afinal era um autor espanhol que escrevia do outro lado da barricada. Foi essa confusão que me agarrou à narrativa e à capacidade de Peréz-Reverte colocar uma série de duvidas através do jovem Hussardo Frederic. É com uma enorme subtileza que o autor vai caracterizando a heroicidade de um povo que resiste à invasão, que no sangue e na coragem solidifica uma nação. A incredulidade do jovem Frederic , mercenário convicto, quando se vê reduzido à mais pura das essências da condição Humana, quando despido da arrogância de se sentir peão do mais temível exercito europeu, e que se entrega serenamente à morte, como que renunciando a tudo em que acreditou, é um monumental registo literário que nos faz reflectir sobre os enganos da verdade em que cada um assenta a sua fé!

quarta-feira, setembro 5

limites

No limite ( no nosso ? no do universo? ) há sempre uma porta que se abre…nem que seja para olhar…

In “ apontamentos para um manual da serenidade ( sem autor)” , ou como mesmo depois do ultimo passo, há sempre caminho…

segunda-feira, setembro 3

na sombra da minha árvore

Sentei-me a teu lado. A sentir-te. Ouvi-te a seiva a passear-se na sombra do vento. Abraçaste-me entre suspiros. Querias viajar, disseste-me. Ofereceste-me uma das tuas folhas e levei-a como se te transportasse inteira. Nunca te conheci criança, mas lembro-me das tardes de sol em que nos riamos os dois, como se o mundo só existisse para nós. Hoje senti-te cansada de angústias. Amanhã conto-te a viagem. Vou levar-te a ver o Mar, onde não há sombras. Vais gostar. Acredita. Lá os pássaros são brancos e o vento é salgado e nós ouvimos o sonho para de lá dos búzios…

sexta-feira, agosto 31

a chave

Junichirô Tanizaki
teorema

A chave, é um romance perturbante. Escrito com uma delicadeza extrema, adivinha-se uma perversidade escondida na sombra cínica de uma pudicícia incompreensível na nossa cultura ocidental. Os quatro personagens ( O marido, única personagem sem nome, Ikuko – mulher, Toshico – filha e Kimura-amante de Ikuko e namorado de Toshico) envolvem-se num jogo erótico , como se a vida fosse um jogo de sombras chinesas. São dois diários que se cruzam e onde ele ( marido) e ela ( mulher) incitam o libido de cada um sem assumirem a sua perversidade doentia, julgando que cada um o lê ás escondidas. A delicadeza e a dedicação que Ikuko finge possuir, possuindo o marido até á morte, ( como confidencia nas páginas finais do seu diário) transformam toda a beleza tradicional japonesa num relato de difícil digestão.
Tanizaqui escreve no entanto com um mestria de um notável contador de histórias, já que deixa que a imaginação do leitor transforme ou não o seu conto, numa leitura obscena e perversa. Tudo é implícito, e é essa mestria de insinuar uma história que torna fascinante a leitura de Junichirô Tanizaki.

quarta-feira, agosto 29

as cores do fim do dia

Hoje , ( no fim do dia) o céu diluiu-se num violeta escuro de tempestade. ( e o sol a sorri-se, escondido a misturar as cores , divertido…)

linhas de fuga

Gosto de desenhar o horizonte (fetiche meu!).
Quando o desenho (ou pinto) aproximo-me do Universo e oiço-o… ( é como olhar o céu, mas dentro do sonho… como se ele, sonho se escondesse do lado de lá, a fugir-me do Eu-inteiro!)

segunda-feira, agosto 27

ainda o acaso

O estado puro não pode coexistir com a esterilidade, estado puro implica harmonia, equilíbrio, estabilidade… Na esterilidade, ( como no vazio) o acaso torna-se improvável e sem ele nada se move…
In "apontamentos para um manual da serenidade" ( sem autor ), ou como os nossos passos devem procurar o equilíbrio na liberdade e para que esta seja pura, deve-se pintar de Universo…

quinta-feira, agosto 23

Um lugar sem nome

Amy Tan
Edição Casa das Letras ( editorial Noticias)


Escrito ao estilo de Isabel Allende , sobretudo na trilogia iniciada com o romance " a cidade dos Deuses Selvagens" ( que curiosamente elogia e promove o romance na capa), Amy Tan, transporta-nos para a selva de Myanmar ( ex-Birmania), onde um pequeno povo mártir, sonha com a invisibilidade, para poder sobreviver ao despotismo selvagem do poder que domina as terras da Burma. Sem esconder a feminilidade , que na verdade, transparece ( transborda?) nas pequenas" jóias escritas" sobre o olhar de uma mulher atenta e sensivel, o romance aborda de forma interrogativa a paranóia colectiva dos Reality shows, ao ponto de inquinar um pequeno povo que passa a ambicionar ser estrela de televisão e de ter os seus momentos de glória, abdicando da sua identidade e do seu crer ( a invisibilidade como forma de sobrevivência...Paradoxo de uma época poluida de visibilidades?).
A trama da estrada da Burma, é narrado pela alma ( nat) de uma guia que morre antes da viagem, mas que segue o grupo de amigos, na longa caminhada por um país de névoas e de sombras. Sem a subtileza da literatura asiática ( chinesa e japonesa), este romance, fica a pairar no imaginário, mesmo depois de colocado na estante. A luta do século XXI ( século XXI?? a luta eterna do homem!!! )pelos direitos humanos, a hipocrisia que envolve os governos, as nações e a própria humanidade, fica a fervilhar na angústia de uma realidade omnipresente que ofusca os pilares essenciais dos povos: a cultura e o sentir. Os constantes atropelos à dignidade humana, praticados pela junta militar e a caricata prisão domiciliária da Nobel da Paz, Aung Suu Kyi, encontram-se em constante cenário ( nas sombras?) nesta história rocambolesca á terra dos nats ( espíritos, almas?) zangados!

quarta-feira, agosto 22

genéticamente transformados pela cor
Vale do mondego
Montemor-o-Velho
Agosto 2007

Memórias das minhas putas tristes

Gabriel Garcia Marquez
Pubicações Dom Quixote


Memória das minhas putas tristes, não são memórias delas, mas dele. São um grito suave do peso da vida de alguém que se recria aos noventa anos de uma vida resignada e controlada por um gato que lhe comanda o lar. É a história de um amor terno, mas intenso, como é todo o amor platónico, que nos entra nas veias e controla a imaginação. É um romance que se desenrola nos editoriais de um pequeno pasquim que sobrevive de histórias que se escrevem com o sentir de alguém que olha o mundo que o rodeia, com o tempo das memórias. A confissão ( percorrer as memórias é na verdade um acto de confissão...) passeia-se no viver de uma comunidade que caminha com o drama do quotidiano e da difícil tarefa de sobreviver sem deixar de sentir.

terça-feira, agosto 21

o fascínio dos acasos

Acordei, crédulo que as palavras têm vida própria. Entram em nós ( na inquietude?) e tomam formas endiabradas sem pedirem licença.
Aparecem e desaparecem num jogo de escondidas em que o prémio é o horizonte-da-memória...
Assim não fosse e eu lembrar-me-ia de todas.
Por vezes mostram-se, passeiam na alma e depois desaparecem...não há esforço nem vontade que as acorde e as traga de volta.
Hoje surgiram-me ( do nada?) umas que andavam por aí em salpicos, a insinuarem-se até que se desenrolaram na desinquietação das sombras de uma verdade...

...o acaso é o sorriso de Deus e a essência da vida...o teu corpo é noventa por cento água e a tua vida noventa por cento de acasos...

sexta-feira, agosto 17

uma a uma

Percorro a curva do rio, com a lentidão dos olhos. Respiro-o. Sinto-lhe as cores. Uma a uma. Azuis. Todas.
Vagabundo-me, no longe ( é longe o passado?). As memórias são as minhas cores. Azuis. Todas...

quinta-feira, agosto 16

uma cávena ( vazia?) de palavras...

Fugiram-me as palavras ( ou as memórias?) aterrorizadas de serem “sentires vagabundos” melancólicos e mal tratados. Esvaziaram-se de sons, desavindas comigo ( ou eu com elas?). Zangadas ou não, mergulhei no poço, (descalço e nu de negritudes) e repesquei-as uma a uma, num puzzle desconexo, (retrato fiel do meu desencontro com o vazio e a vida) e soprei-lhes sussurros de perdão por inauditos mal tratos. Disseram-me depois ( à noite, entre estrelas e nuvens) que as não maltratei a elas mas a mim, porque isto de andar sempre vazio e sem rumo era coisa de louco ( ou de cobarde?), qual marinheiro de agua doce que se inventa em tempestades e aventuras que só o poeta sabe desenhar como reais.
Acordei ( ou dessonhei?) com a disposição clara de voltar ao convívio com as palavras e o desenho, (forma egoísta de não permitir a passagem o tempo e de me embriagar com o vento ou o mar e sentir-me, eu, igual a mim, num reflexo sem espelhos...)
O desencontro ( ou a paragem?) não me favoreceu, pois o tempo passou e eu não! Desperdício puro de uma lágrima que me era destinada para a vida e que deixei fluir sem lhe sentir cor, nem de saciar as sedes.
Disse-me o mestre que é preciso acordar vazio em cada amanhecer, para que o tempo caiba por inteiro no dia que nos calhou para descobrir e de nos maravilharmos em permanecia em consequência de irmos de OLHOS, mas o vazio que me entrou, sem a companhia suave das palavras que se sopram irrequietas foi outro, mais negro, mais pesado e usado de angústia.
Este que se me colou hoje no acordar, era esse outro vazio que o mestre nos disse em murmurejo sábio e sorriso matreiro, como quem diz uma verdade que só pode ser ser desnudada por cada um...
Fui á procura da minha, por isso voltei ao caminho e ás palavras que são quem o desenha...

quarta-feira, agosto 8

António Andrade Albuquerque
( Dick HasKins)
Edições ASA

Em dias tradicionalmente considerados de férias, o sentido da leitura muda, Muda o relacionamento com a escrita. Se o dia é de lazer, (des)ambicionado, também a leitura se transmuta num passar de horas, em deleite leve e ameno.
O Papa que nunca existiu, de Albuquerque, é um exemplo de história que nos transporta para esse "deixar ir" o tempo "ao som" de história escrita. António Andrade Albuquerque vai buscar o Quinto Império Pessoano e ” Agustinhiano” ( Agustinho da Silva) para situar em Portugal a nova era do espírito (santo), através de um menino precoce ( António) que calça as sandálias do Pescador por breves momentos, com a missão de abrir a porta a uma nova era espiritual, emanada por gentes lusas.
Não é um policial ao estilo de Dick Haskins, mas tem enredo de triller, onde a máfia “Vaticana” actua ( pelos vistos e por ironia), com a mesma incumbência de Judas, de, através da morte do Messias, cumprir o desígnio de um Deus .
Do ponto de vista literário, o autor sublinha com algum exagero a precocidade da personagem que lhe retira credibilidade.
Ressaltam as constantes repetições, de forma a não ficar duvida ao leitor ( ou ao escritor?) que António é um menino prodígio, que pensa como adulto, que fala como adulto, que age como um adulto, como se os dialogos e os pensamentos não coubessem por inteiro na personagem.
Encontra-se num dos discursos de D. António um exagero dogmático ao questionar se "Deus criou o Mundo", colocando Portugal , no centro geoestratégico para a difusão da sua mensagem, resvalando para uma hipotética teoria criacionista que começa a estar na moda e que não é coerente com a religiosidade apresentada pelo Papa que nunca existiu .

terça-feira, agosto 7

terça-feira, julho 31

A Ronda da Noite

Agustina Bessa-Luis
Guimarães Editores

Foi o primeiro livro que li de Agustina. Não sei o que me levou a pegar na Ronda da Noite ( nem por só agora me atrever a espreitar o mundo de Agustina Bessa-Luis).
Admiro a pintura de Rembrandt, fixa-me o olhar, mas não a alma.Com Agustina passou-se o mesmo. Escorreguei ao de leve nas palavras, mas ficou um vazio estranho. Provavelmente as minhas expectativas relativamente à autora eram outras. Tinha de memória, (de criticas lidas há alguns anos) que a autora marcara a modernidade do romance português quando publicou em 1954 A Sibila.
Esperava modernidade neste seu último romance, (romance que contenha uma Judite, obriga-se a ser moderno!*) mas dei comigo a navegar num estranho espaço-tempo anacrónico. Não fossem algumas referencias ao quotidiano (Guerra do Iraque, telemóvel e outros ícones de fim de século XX, primórdio do XXI) e parecia estar envolvido no ambiente de fim de século XVIII , inicio do Século XIX!
Habituado que estou á modernidade ( literária e temática) de Urbano Tavares Rodrigues, soube-me a pouco esta ronda de Agustina.
Martinho, Maria Rosa e Judite são personagens demasiado desarticuladas do Mundo de hoje. Talvez sejam apenas personagens de um quadro, à semelhança de Saskia ( rosto de menina? rosto de idosa? ou Bannig Cocq (soldado? figurante?)da Ronda da Noite. Talvez sejam uma cópia de uma realidade distante que permanece na memória da autora ou, provavelmente foi esse o ambiente que Agustina quis retratar numa metáfora rebuscada de um quadro-cópia onde as personagens acreditam que tem vida própria e não passam de um desenho falsificado. Fica a duvida. Duvida que me vai obrigar a aprofundar a autora e a ter encontro marcado com Sibila.

* Referencia a personagem que deambula nas páginas de Nome de Guerra de Mestre Almada Negreiros