sábado, dezembro 14

Perdi o hábito das palavras que me habitam. Fugiu-me com medo da minha própria serenidade. Não tenho palavras nos olhos quando me distraio de mim. Desabituo-me delas como se estivesse saciado da vida. Mas elas andam ai a esvoaçar sombras e a baterem-me á porta. 
Abro-a?
Não sei se me reencontro nelas. Já não têm a minha forma, estão desmoldadadas deste meu (des)ver o mundo. Perderam-se no meu próprio (des)tempo que me percorre, simplesmente porque não me passeio nas ruas da mesma forma. Agora levo os passos comigo. Desarquiquetei a melancolia de me ser só, nas ruas. Vou, nos outros porque me entraram no tempo e na memória do sentir. Como quem lê um poema sem o decifrar , sem o desencriptar e deixa que as palavras que o moldam corram nas veias-do-ver, sem reflexos, sem espelhos , esfomeadas de sombra.

Sem sombra não há poesia?
Provavelmente não , tal como não existem ondas sem vento ou sem epicentro .

A poesia é a minha tempestade e eu ando por aí escondido nos azuis… 

quarta-feira, julho 10

entre sombras


entre sombras

bebo esta loucura que me menstrua
o ver
e sangra os ventos,
sorvo o suor dos muros do tempo (lentos?)
para me iludir dos sonhos
que me cinzelam os passos
e travejam tempestades
de mim,
em cada respirar analfabeto
que me abraça o sentir
que se evapora entre as sombras-da-alma....

quinta-feira, julho 4

cinzas

espalhem as cinzas
(minhas)

no mar
para me sentir inteiro e sôfrego
na espuma das ondas
evaporada de mim...

quarta-feira, julho 3

re-começar

o sol ruge nas pedras
soltas
num manto de sombras-bailarinas
sem tempo
sem ventos...

pedras,
rubras!

com os olhos abertos no céu,
entre nuvens que se passeiam, em pastos selvagens

como águias!

águas a suarem sal
na solidão do tempo 
que se desfaz na mão
corrompida no silencio dos passos nocturnos...

quarta-feira, janeiro 23

Reflexos de um vento que me atropela os passos, no cúme de uma duna que morre abraçada ao mar

Procuro nas migalhas do tempo a fantasia,
aquela que nos envolve no sonho de sermos poesia,
intíma, colorida de afectos
sem a sombra dos dias

Sei, por respirações do ver que só há sombra se bebermos luz,
mas a cor que pinto é uma matiz sem arco-íris,
é um barco de velas brancas
a viver o destino, ébrio de horizontes e de trilhos
qual rio, que soluça nos estilhaços do vento que semeia metamorfoses de mim…

terça-feira, janeiro 22

joana


Tens um rosto, e um nome,
o rosto é este, 
o nome joana…
teres tudo isto nos meus olhos, transforma a angustia dos silêncios numa tempestade de ventos e de mar...

Mas tu continuas ali no teu silêncio-de-lama, resignada de sorrisos azuis…
tu, mendigas pão,
eu , imploro-te sorrisos, mendigo de vazios que me ferem com a lentidão da impotência de não te permitir caminhos...