17 de julho de 2021

palavras

Papá, papá qual é a palavra mais difícil de aprender,  qual é a palavra mais difícil do mundo?

A palavra mais difícil  do mundo é “amo-te”!

Amo-te? Porquê papá? diz-me , diz-me, quero muito saber…

Porque, filhote, estamos sempre  a descobrir palavras novas que cabem inteiras na palavra “amo-te”…

8 de junho de 2021

res ( expirações)

a cidade respira pelos poros das pedras,

eu, 

pelos olhos da gaivota.

ambos,

esculpimos as ruas desertas de sombras,

entre mim e ela, há um azul imenso

imerso de futuros

4 de junho de 2021

visões

o que vejo é um fragmento que me abraça inteiro,

sem ciências nem matemáticas

(des)futuros

não tenho futuros,

tenho um aqui,

um agora que sopra destinos...

o meu tempo é o meu ar, o meu vento,

tudo o resto é um vazio que se esconde no grito do olhar...

1 de junho de 2021

longitudes

 lá longe estou eu e o mar,

a desenhar o horizonte,

quase gaivota a abraçar a sombra da lua,

lá longe estou eu e a cidade,

sepultado nos estilhaços da calçada, ao som do soluçar dos pombos,

( nas horas-perdidas-de ponta...)

30 de maio de 2021

silêncios

tenho um silêncio gaguejante no olhar que me cega o sentido dos passos,

quase uma ausência de mim (relógio sem ponteiros), em equilíbrio de fronteiras efémeras, 

como se me recontruísse no soluçar dos dias,

(num trovejar mudo do tempo).

13 de setembro de 2020

persistências

Tacteio ,

cego,

a cor da folha,

seca.

A pele do olhar desenha as fronteiras da árvore que a expulsou da seiva,

guardo-a em mim, para outros futuros,

(transformo-lhe a história e a forma),

só a cor persiste ( bela!)

(Porque só ela é semente!)

8 de setembro de 2020

no de-lá da pele

 




Espreito pela pele, ( num corte sem cor),

não para ver, ouvir ou sentir,

espreito para respirar o abismo que me toca a imaginação…


6 de setembro de 2020

estátua

O existir tem uma mecânica física (universal),

a alma também,

só que se esconde no olhar (individual)!

Uma é o eco da outra,

mas só uma é semente!

(o poeta,

sentado, 

(qual estatua, de queixo apoiado em mão de escultor),

 de olhar maravilhado, 

tenta desvendar o que nasce de cada uma, mesmo sabendo de fé que só uma é semente).

5 de setembro de 2020

mapa

Estendi o mapa dos meus caminhos,

nas dunas,

(tenho os caminhos ondulados como as ondas do deserto).

Escolhi um e colori-o de rio,

(…)

só me falta desenhar o mar!

4 de setembro de 2020

os relógios da cidade

 Na minha rua há um relógio gigante,

sem tempo,

cansado de existir, com as mãos a rezar às nuvens…

eu,

(menino) 

conto as pedras da calçada, 

as negras, 

que as outras são ossos-do tempo que o relógio não vê…

(os relógios são incapazes de medir o futuro, mesmo os gigantes que olham a cidade no cimo dos andaimes de Deus!)

3 de setembro de 2020

olhares ( serenidades?)

 Nos olhos de uma gaivota está um azul,

Nos meus,

um ponto sem cor, 

que tatua uma linha irrequieta, sedenta por desenhar a história que me respira o destino...

31 de agosto de 2020

sombreados...

 Tenho uma sombra bailarina

(endiabrada,

diria!)

que flutua colorida…

Não é sombra qualquer,

(só por ser minha),

é sombra egípcia

que vagueia sozinha

empoleirada nas crinas-da-lua…

Vezes há que escreve e chora

(quando distraída, se deixa prender dentro dos olhos , que estasiados de danças e de letras, chovem gotas lindas,

violetas!)

30 de agosto de 2020

sombras

 Abracei, com a minha sombra, a árvore da cidade,

Cinzelei-lhe as cores, em matizes negros de mim e fiquei a ouvi-lhe a seiva do tempo…

murmurava,

gravida-de-histórias-de ventos,

com a lentidão do chilrear-dos-ramos,

para me embalar no sono e no sonho, na tentativa de encolher-me o abraço que a anoitecia…

25 de agosto de 2020

desassossegos

Apanhei uma pedra da falésia e aconcheguei-a qual buzio para lhe ouvir os ventos…

Estava indignada,

zangada,

por a ter acordado da eternidade e lhe ter trocado o destino…

24 de agosto de 2020

pinturas por colorir

 Na véspera-da-noite, pintei uma enorme janela com um mar imenso dentro, a refletir estilhaços de espelho-prata, a cintilar-me nos olhos desenhos-vestidos-de-sol-nascente.

23 de agosto de 2020

demolições

 Hoje,

derrubei o dia à martelada.

Abri um enorme buraco,

queria tanto ver o que se passava no desdia

Espantado 

( maravilhado?), 

deparei com uma enorme tela vangogueana a ondular-me  o existir...

 

desdia= o que vive no lado de lá do dia

22 de agosto de 2020

caminhadas

 Caminho nas memorias, como quem olha para uma tapeçaria de sedas finas, estendida além-horizonte.

Evito os passos, para não a enrugar, não vá perder-me,

(Afogar-me?)

ou transportar-me para-o-de-lá-de-mim.

É preciso muito cuidado quando visitamos as memórias…

21 de agosto de 2020

psicanálise de um labirinto

 Por vezes,

(muitas)

caio num labirinto-de-mim, como quem escorrega num quarto escuro e perde o sentido da porta,

 no caso,

da porta-de-mim.

Não sinto angustias ou desesperos.

Nesse instante transformo-me em descobridor,

em explorador de mundos perdidos, permitindo-me a aventura de me reinventar…

Quem perde a porta de si, pode ser qualquer coisa e nada o poderá surpreender, mesmo que se mimetize em sombra,

em borboleta,

gaivota ou serpente.

Quando tropeço nesse labirinto,

e me mergulho inteiro nele,

sou certamente um mau pastor de memórias…

Transformo-me em garimpeiro,

mineiro -de-mim,

sem saber se procuro cristal, ou fóssil,

 se a luz do túnel,

ou simplesmente as aguas do rio.

Nestes momentos sou certamente exemplar de estudo para um psi, seja ele quiatra, ou cólogo  ( não lhes sei as diferenças de oficio, provavelmente o primeiro é um lapidador de cristais, ( ferreiro de cristais?) e o outro um polidor, mas certamente ambos ourives da mente).

Vezes há

(algumas)

que neste estado, perdido de mim e em mim,

jorro palavras de sangue,

não que sinta dores,

raivas,

tumultos, ou intranquilidades…

Estas palavras-sangue, fluem na procura e alimentam-me a descoberta, mantendo-me atendo à realidade-nua-e-crua-do-sonho…

20 de agosto de 2020

desidratações

 Parei,

(tropecei na angústia, e no perfume dos crisântemos),

desorientado,

cansado,

perdido,

(assustado?)

Suei todas as palavras,

( pelos poros-dos-olhos)

Todas,

no calor-da-fantasia, 

e  entrei assim no deserto,

despalavrado.

Preciso urgentemente de beber um poema,

de um só trago,

de vez só,

fundido na seiva de mim,

(como quem bebe o universo à noite,

na luz das estrelas).


17 de agosto de 2020

cidades hostis

 Percorro os sentidos inóspitos da calçada da cidade

 (vitrais de sombras-coloridas),

caras escondidas?

ao som das vozes

(passos de fuga de cada um, a esculpir- vidros,)

oiço, 

em sinfonia, 

cada uma das fugas,

bramidos na surdez dos silêncios…

15 de agosto de 2020

brincadeiras

 

O bailado-da-memoria tateia o tempo…

ela,

é uma espécie de girassol envergonhado dos voos noturnos e que se “girafa” em sorrisos-trocistas, a brincar com as sombras-concavas, (do eu) no zénite das manhãs de azuis-esquecidos…

14 de agosto de 2020

ciencias

 Não tenho ciência(s),

tenho uns olhos-saltimbancos, a sondar descoberta(s) que respiram fluxos-de-cores que circulam no coração-das-árvores e na seiva-das-estrelas que desaguam na luz-da-lua,

(que me segredam as direções para onde vou, deslumbrando por ir…)

 

13 de agosto de 2020

sentinela

há uma sentinela-borboleta, ao fim da rua, a tocar violino 

( austera, atenta, concentrada, 

linda!)

Só passam para de-lá (dela),

o vento , 

as cores  

e o perfume-do-sorriso,

o que sobeja

fica ali  sentado

à espera de uma distração ... 

12 de agosto de 2020

esculturas de areia(s)

Gravo,
nas areias, o bailado dos olhos,
como folhas de outono matizadas de sol-cansado.

Os roços sorvem os rios na angustia de navegarem entre as fronteiras da pele da terra.

Sou um agricultor (efémero) de nascentes...

11 de agosto de 2020

transporte


No cinzento do sol, navega um moliceiro-vagabundo, a semear os oceanos de caminhos.

Segue, 

enfolado, 

sem pegadas. 

Leva na luz-das-velas, 

o tempo. 

Transporta-o no silêncio-dos-labirintos, 

como se carregasse o tesouro do universo nas asas de um colibri.

10 de agosto de 2020

vulcanizações do olhar

 


Fumo, em respirares serenos, a luz-da-rocha,

(áspera!)

Nos poros, afogueados de agustias, suo os grãos da terra,

(vermelha!)

Que se evapora no sangue

(ácido!)

E bebo em saboreares lentos, o tempo que levita na neblina,

(suspenso!)

 Só os olhos caminham para além…

 

Que se evaporam no sangue= viagem no interior do eu, incluindo na bagagem de viagem as angustias, que me aquecem os passos ( no entanto… os olho caminham para diante, para o exterior do eu, como se o magma implodisse e se transformasse em cicatriz de pele)

Toda esta geologia tem uma explicação, passeio-me todos os dias pelas falésias da Ericeira, cenário destes escritos de verão costeiro, onde a neblina me acompanha o horizonte

 

6 de agosto de 2020

estendal



hoje, 

o horizonte levitou , em linha outra, acima do mar,

a linha que desenhou parecia um estendal a convidar-nos a pendurar os sonhos a secar…


5 de agosto de 2020

no mercado

De manhã, no ainda quase-noite, fui ao mercado procurar palavras.

havia muitas  (frescas, quase todas,

coloridas,

profundas,

leves,

agrestes,

meigas,

severas,

doces até),

gostei de muitas, mas não encontrei nenhuma das que preciso…

4 de agosto de 2020

paisagens

A paisagem que ondula no coração-das-estrelas, transmuta-me em voos-semente.

perco-me entre a falésia e o sopro-do-mar, que me chama em azuis-rudes,

 violentos quebrando-me o corpo e os passos,

trituram-me a membrana-da-alma, como moinhos-sem-velas, a rodopiar desesperados na noite-da-lua, a ranger-destinos-esculpidos-em-madeira-seca.

membrana-da-alma=fronteira entre o olhar e o ver

 


3 de agosto de 2020

no caminho das águas

Há homens-golfinhos a engomar as ondas no horizonte,

fogem dos azuis, do nada, e dos próprios homens, ébrios de liberdade e do Deu que caminha nas águas,

Entre eles e o mar há um abismo que sorvem, 

sedentos de se cruzarem nos instantes do EU que se fragmenta na espuma das nuvens…

Há homens-pássaros cansados de voar, que pousam na escarpa a descansar o olhar.


2 de agosto de 2020

retrato do nascimento de um poema

Liberto-as (palavras?)

escoo-as no ar (evaporadas?)

e sento-me no suor-das-rochas a absorver neblinas (letras?).

neste ciclo de respirações, transformam-se de mim( elas?),

como quem procura uma semente,

um som.

um eco,

um reflexo,

Oculto em mistérios purpúreos que transformam o corpo-translucido …

Corpo translucido=poema que desenha as palavras com a realidade do instante, à procura do equilíbrio e de um caminho = movimento do caos das letras ao encontro da poesia…


1 de agosto de 2020

a pele do tempo

A crosta da terra invade-me o pulsar da respiração das cores,

a pele da rocha (os poros da falésia?) ondula ao vento a sussurrar os segredos do tempo,

em que cada instante se liberta em eternidade…

 

 

pulsar da respiração das cores = o que a imaginação vê!

o instante que se liberta em eternidade  = ao ponto que sente ser simultaneamente, o centro e o todo ( o UM!)


31 de julho de 2020

apneias

Desnorteio as palavras, entulhando-as nas entralhas da terra,

enlouqueço-as de sombras,

sugo-lhes o ar em estrangulamentos canibais e subterrâneos,

asfixio-as em pesadelos noturnos,

e quando implodem

sôfregas de respirações,

vulcanizam poesias em mil matizes de cor que não param de dançar em rodopios ciganos…


30 de julho de 2020

geologia do olhar

No abismo dos passos, estão rochas-barbaras, fossilizadas em veias de basalto,

rios, vazios-de ecos,

medrosos da queda que lhes labirinta (antecipa?) o VER!


29 de julho de 2020

cartografias

Escrevo uma criança,
com traços de poeta-pintor,
como se traçasse a cartografia de um sonho a flutuar futuros...
no cume geodésico-da-alma, 
está ela,
inteira,

a semear sorrisos trocistas ao escritor que a desenha…

28 de julho de 2020

olarias de ventos


Moinho memórias em farinha do tempo,
moldo, não elas,
ele,
e transformo-o no vazio da noite,
em flutuações transparentes,
fragmentos (estilhaços,
espelhados?)
e comtemplo-o renascido de mim.

27 de julho de 2020

desenho de um rio que desagua em mim


Desenhei uma estrela,
uma só,
a giz,

quase pólen-de-gira-sol, (no ar),

a estrela nasceu da fonte-do-esboço,

bailarina!

e em instante-sem-sombras, 

(um só) 

começou a dançar no reflexo das lagrimas profundas da terra,

a traçar o caminho-do-rio,

com a suavidade de um reflexo-lunar de uma borboleta-de-água,
no mar-infantil-de-mim...
 
(guardador de destinos inacabados)


nota: um rio que não desagua no mar, é um rio que morre na imaginação alterada de um observador-pintor, que se esqueceu da cor, ou simplesmente um guardador de destinos inacabados...

26 de julho de 2020

feridas


Não há paisagem,
árvores,
moinhos,
telhados,
montes,
nuvens,
papoilas,
ninhos,
ou mar,

há um vazio imenso

e uma gaivota na cicatriz-do-olhar…

25 de julho de 2020

liberdade


Sento-me na bruma do mar,
a escrevinhar o marulhar no vento,

com o olhar agrilhoado no cordão-umbilical-do-sonho,
a sorver esta liberdade infinda de ser segredo-de-mim..

24 de julho de 2020

expirações

Fecho-me, a expirar memórias,

vejo-as,

para lhes desenhar o voar…

só assim as oiço (sinto?) nos passos,

só assim me vejo arvore,

raízes

e átomo

(esculpido pelos ventos)

 

ouvir /sentir as memórias = ver-lhes os contornos, as linhas, as formas, é ver tudo desmoldado sem o escopro do tempo 

23 de julho de 2020

inclinações


Procuro-me,
perigosamente debruçado sobre mim,
quase em (des)equilíbrio,

 (instável)

procuro 

(ávido),

as gotas-de-pó que ofuscam o brilho-do-sonho-do-peão-de-corda que se escapa ao universo, 
a rodopiar na palma da minha mão, 
ao som do riso-dos-olhos-do-menino que se encanta com o sentir.

22 de julho de 2020

silêncios estrangulados


A solidão morre espantada perante o abismo,
definha no eco de cada grito que renasce na serenidade,

(que a estrangula em silêncios moribundos)…

21 de julho de 2020

(des) equilíbrios


no equilíbrio das águas traço um fio,

linha incolor que ergue fronteira-às-sombras,

no de lá,

estou eu,
a escalar cumes (quimeras?) invisíveis...

20 de julho de 2020

desertos


Vezes muitas, sinto a alma-seca-de-deserto(s), 
a dançar nas dunas, 
que preparam tempestade(s),

nessas vezes,

mergulho  nos labirintos da névoa a desenhar futuros, para hidratar sonhos e  manhãs tatuadas de aconteceres noturnos…

19 de julho de 2020

paradoxo, ou a matemática do Eu



Sou meio gaivota, 
meio andorinha-do-mar, 
meio beija-flor,
no meio de mim,

o resto,
que me faz inteiro,
anda por aí...

18 de julho de 2020

teias


Passeio-me na cidade,
bordada em veias que ejaculam sombras de passeantes escondidos no olhar,
vagabundam sós, 
ensurdecidos por cada uma das vozes que os atormentam no sono-dos-sonhos,

confusos por não descobrirem qual  das vozes é a sua sombra, 



(como inseto abraçado na sua teia, que certamente grita, 
sem sons, 
adormecido na seda-da-sua-morte)

17 de julho de 2020

na sombra do rosto


Pinto-te para-o-de-lá-do teu olhar,
na sombra do rosto prolongado-do-tempo,
olho-te inteiro!
(vazio de mim)
e vejo-te a respirar nevoeiros, odre de pegadas-de-sol-nascente.

16 de julho de 2020

cidade violada

O dia viola-a-noite, num sussurro crescente de ecos e de passos,

e eles,

a calçada, adormecida na sombra-do-dia,

estilhaçada em fragmentos dos pólenes-viúvos dos jacarandás... 

15 de julho de 2020

oração de um contador de histórias


as mãos choram ,
gotas-lentas de papoilas que levitavam aprumadas ao céu, 
à procura do aconchego das estrelas pintadas em azuis-menino, na fronteira dos olhos...


azuis menino= azul do céu em desenho-janela de criança, 
fronteira dos olhos= imaginação na ausência do tempo
ausência do tempo= sem idade

nota: um poema com explicação , é um poema agrilhoado  pelo autor, devia ficar enrugado em bola de papel , longe da cor do lápis- lazúli  , com que se desenhou o céu

14 de julho de 2020

a noite-das-ruas


A noite espreita as ruas-da-alma
(labirintos?),
em sussurros que espreitam as janelas-da-cidade.
as ruas
(dela?),
desaguam na-fonte-do-dia a respirar amanheceres à espera do som-os-passos
(dos pássaros?)
Na cidade já não há pássaros
(passos?),
há pombos-morcego a pintar sombras de dedos-fumados na calçada,
fossilizada de suspiros e de rezas angustiadas.
Na cidade há velas que a levam
(a ela?)

à alma,
que se vagabunda nela!

13 de julho de 2020

enganos


a-fonte-das-árvores, tateia-me o poema, como se eu fosse raiz-de-outonos…
desenganem-se,

(palavras que se amortalham em tempestades),

sou sombra-oculta que se abraça ao mar,
alga navegante,
navio sem leme nem proa,
sou mastro e velas,
suspenso no ar.


10 de julho de 2020

caminhos (estreitos?)

Não tenho dor, no dorso de uma gaivota a galopar nos azuis-do-vento…
no ir,
não tenho carne,
tenho todos os passos
a voar

9 de julho de 2020

des(mar)gens

pinto as raízes-das-nuvens,
na ilusão-da-lagrima,
deslumbrado entre cada estilhaço-das-cores, que me abraçam o sangue a desaguar em barragem-de-sombras,

sem margens

7 de julho de 2020

grafiti


Isto de nos pormos a escutar os pulmões-do-sonho, como se lhes ouvíssemos as entranhas (palavras?) em conversas-purpuras, é uma espécie de luz-moribunda que nos desfoca a imagem das nuvens e da lua.
Conversar com o sonho, é como escorregar num funil de ventos-noturnos, entre as artérias-da-rua e nos pormos a pintar ecos (escondidos?) em jeito de grafiti multicolor, da qual só se percebe a linha do alter ego ( furtivo?) que a desenhou…


6 de julho de 2020

ondas


Tenho a pele queimada da espuma do mar, e o olhar cego-de-sombras, porque me atrevi a voar nas asas-da-alma,
fosse eu, gaivota-azul, 
a planar nos olhos-do-sonho, 
e não precisaria de me inventar, nem de me tatuar de onda estilhaçada no ar...

5 de julho de 2020

intrusos


Por vezes nascem árvores de pedra, escondidas nas fendas-da-sombra, a marujar  sangue da terra... que nos invadem os passos...

4 de julho de 2020

crispações


A memória ludibria a luz-do-tempo, 
cavalga nos poros-do-sangue e mimetiza sorrisos, em mãos que se crispam nas vísceras-do-mar, esquecidas de afagar a vida...

3 de julho de 2020

tatuagens

cinzelei papoilas brancas na pele-dos-olhos, qual gaivota a beber o vento-norte, e naveguei de passos vagabundos...

2 de julho de 2020

o-fogo-do-orfeu


vazei palavras ao fogo,
e sentei-me a desenhar (lento) os sons do-cicio-do-vento a trautear árias-de-pó-e-cinza…


1 de julho de 2020

esquecimentos



fecho-me corrompido ( enclausurado?), 
com palavras a borboletarem-me labirintos.

esqueço-me em rios, que desaguam esquecimentos e procuro-te,
cego,
da palavra que te deu o nome,
e
já no fim do fim-da-noite,

renasces cristalina em mim,
de nome todo, inteira de ti.

30 de junho de 2020

(des) beber


vesti o céu do avesso e pintei-o de trigo e sol,
triturei-o-tempo com o ranger dos dentes e soprei estrelas-de-sabão,
fechei-me-cego,
e abri a porta para beber-a-noite-no-devasso-do-dia,

ébrio de cores e ventos, mutilado no (des)ver,

de um trago só!

29 de junho de 2020

nu-de-mãos


tenho nós enforcados no olhar,
presos no sangue das árvores que oscilam-invernos
e
passeio-me nu-de-mãos,
a flutuar no sol... 

(como quem dormita as pálpebras musculadas de mares azuis)

28 de junho de 2020

respirações


A luz estrangulada da noite abraça as árvores, que dançam de dia com o-vento-dos-pássaros.

De noite as árvores respiram como os velhos, que inspiram sôfregos todo o ar dos olhos…

27 de junho de 2020

dimensões


o espaço, é cousa onde só o sonho não cabe, como uma casa de bonecas, brincada por criança... 

( a criança é gigante, e o universo simples sopro-de-pó…)

26 de junho de 2020

ou um mundo?


as pedras são sombras, pequenas, por vezes,
quase lágrimas (ardentes?)
as pedras, sou eu, a olhar um quase nada ( ou uma semente?)

25 de junho de 2020

uma questão de linhas

tenho dificuldades em desenhar uma linha direita
(recta),
perco-me no inicio e desencontro-me com o fim...
mas se a desenhar , 
livre,
aqui e ali, 
torta ou curva, 
fico entretido ( maravilhado?), com o prazer de não me saber no desenho e levo (pinto?) em cada ponto, os pontos que iniciam e acabam, 
desta forma ( livre de ser desenho), cada um deles é instante, onde um, cabe no outro, e é nesse caber em cada um que me desenho , torto, nos passos que dou.

desenhar linha recta é uma responsabilidade que não cabe nos meus sonhos!

18 de junho de 2020

sem coragem

por vezes sinto-me nuvem, 
quase chuva, 
quase lagrima, 
mas sem coragem
de cair
ou de voar...

17 de junho de 2020

esculturas

esculpi um esqueleto (inteiro!)
com todos os pormenores.

Todos! (no branco e no negro)
ponto por ponto,
em perfeita harmonia (quasi sem peso!)
por ali ficou ,
suspenso, (quasi alado!)
a esculpi-me a mim... ( desfocado!)

16 de junho de 2020

estrelas


andei à procura de estrelas, em nevoeiros,
(como um jogo de crianças),
procurei não as estrelas que nos orientam no céu, assim fosse  saberia por onde ia o sentido dos meus passos, 
mas aquelas outras, 
que são pólen de sonhos.

(semear sonhos como uma borboleta, é como pintar um denso nevoeiro ao som dos violinos-do-vento…)

15 de junho de 2020

semeando sonhos


Esvoaçam entre o olhar (entre o horizonte-da-alma e o horizonte azul do mar) uma multidão de aves,
várias, 

multicolores, a brilhar entre sombras,
pássaros, gaivotas, águias e beija-flores, num chilrear infindo, como se estivessem a engravidar sons de palavras-mudas…

14 de junho de 2020

suspenso

Estive suspenso, 
no tempo...
foi a vida-do-tempo que andou,
não o tempo dela (vida), esse, ficou suspenso em cada palavra que não escrevi…

7 de abril de 2018

ser

sonho ser, 
o silêncio que habita as palavras ditas,
as palavras pensadas, não têm espaço...

sentires

por vezes sinto-me um pássaro, 
não de bico,
mas de bico-em-pé a bater as asas sem parar,
sempre preso ao peso da terra,
sem voar